Participar na formação intelectual das crianças tem importância social acrescida, com reflexos futuros incontornáveis, daí que as memórias de um ex-professor primário sejam o repositório de um tempo fantástico! Antigamente, não bastava ao mestre-escola de uma freguesia do Portugal profundo ensinar a ler, escrever e contar – exigia-se mais, principalmente que participasse na vida comunitária; a sua acção cívica, perante o cidadão comum, era vista como exemplo do conhecimento e sabedoria.

 

Figuras: Joaquim Carvalheira

Imagem vazia padrãoE havia o regime político, atento às ideias “revolucionárias” de alguns que, na maioria das vezes, reivindicavam, em surdina ou nem por isso, igualdade de direitos no ensino para ricos e pobres, por exemplo.

Joaquim Carvalheira de Almeida, 77 anos de idade, 42 como professor primário, continua altivo no porte e usa falas claras. Não tendo nascido em Ervedal da Beira, fez daqui a sua “terra” – tantos foram os anos de permanência na liderança do ensino escolar na freguesia –, arregimentou amizades e reconhecimento públicos pela acção educativa. Por isso, das suas palavras emana o sossego de quem se considera de consciência tranquila, como pedagogo e autarca.

O pai, certo dia, avisou-o:
– “Nunca te metas na política”!
– “Impossível” – pensou, creio, o jovem Joaquim.

Já mestre-escola, certa vez, no Café Portugal, não teve papas na língua no lamento público sobre os vencimentos da classe.
–“Com o dinheiro que ganho, não posso criar os meus filhos”!
Ora, se a polícia política o trazia debaixo de olho, tamanho desplante levou-o ao delegado escolar, o professor Albano, que, com delicadeza sugeriu “tento “ na língua.

Cita-se o pormenor, uma frase sem aparente conotação política, para se aquilatar a importância dos actos e palavras dos professores primários em exercício antes da revolução de Abril. Os bons “exemplos”, para o regime, tinham de partir do topo da pirâmide…

Enquanto professor, nada a opor – nem pelos superiores a quem tinha de mostrar competência e conhecimento: por onde passou, deixou sinais inequívocos da seriedade com que desempenhou a profissão.

–“Tenho orgulho naquilo que fui, como professor. Em Barqueiros, perto de Barcelos, 45 anos depois de ter dado aulas na freguesia, fui homenageado por mais de trezentas pessoas. Foi dito publicamente que estavam gratos pelo modo como revolucionei o ensino na terra. O que fiz de tão importante? Tinha rigor no ensino e era firme no respeito e na educação. Fui sempre igual a mim mesmo em todas as escolas onde dei aulas”.

Quando lhe falo dos medos com que, naquele tempo, os alunos encaravam os professores, e dos castigos corporais, por vezes nos limites da violência, o professor faz um paralelo com o sistema do ensino actual e traz à conversa opinião ponderada:

 –“No meu tempo, o ensino era sério e responsável mas agressivo para a criança porque tínhamos a “faca encostada ao pescoço”: todos os anos éramos avaliados pelo director escolar com suficiente ou deficiente; dois anos seguidos com pontuação deficiente dava processo disciplinar e, claro, ninguém queria ser avaliado pela negativa. Os alunos eram, digamos, um pouco forçados ao estudo, mas reconheço que com alguma agressividade. O que se nota agora é que se passou de oito para oitenta, falta o respeito pelo professor, os programas escolares são o que se sabe, e a educação é uma lástima. Estou em dizer que alguns encarregados de educação parecem aceitar os abusos dos alunos com algum ânimo leve porque, inconscientemente, acham que é uma espécie de desforra daquilo que lhes aconteceu quando andaram na escola”.

Joaquim Carvalheira, a seguir ao 25 de Abril, foi nomeado para a comissão administrativa da Junta de Freguesia do Ervedal da Beira. Os ideais de que fazia fé ficaram livres dos medos que o condicionaram durante anos. Depois da revolução, perante a parafernália dos emblemas partidários, foi ter com o engenheiro Campos e perguntou: “…qual o partido que melhor se identifica com as suas convicções? (…) E segui o meu rumo…”.

–“Estive vários mandatos à frente dos destinos da Junta da Freguesia do Ervedal da Beira e acho que deixámos obra feita, apesar dos condicionalismos financeiros de sempre. Guardo boas memórias do presidente César de Oliveira, de quem era amigo, e de outros autarcas com quem privei de perto, mas há muito que encerrei esse ciclo”.

A conversa trazia recordação atrás de recordação. Fica uma curiosidade:

–“Fala-se da Cordinha e da Escola Básica Integrada, mas certamente pouca gente saberá porque tem esse nome.

“O doutor Figueira Dinis, da farmácia, em Oliveira do Hospital, sempre que encontrava gente desta zona, perguntava: – então como vai a cordinha? – referia-se às povoações que estão na mesma direcção geográfica, e defendia a sua tese:

–“Então não parece mesmo uma “cordinha”, com as terras alinhadas por aí fora?

Reserve-se, pois, o direito à “paternidade” do nome…

Para que conste no glossário concelhio.

Carlos Ramos

LEIA TAMBÉM

Casas abandonadas. Autor: Renato Nunes

A partir do momento em que a minha avó materna faleceu, já lá vão 22 …

Festival “Origens” de Travanca de Lagos agendado para o próximo fim-de-semana

Os Jovens da Liga de Travanca de Lagos apresentam, de sexta-feira a domingo, mais uma …