Figuras: José Carlos Costa

… não o subtraiu! A partir de então, para levar a bom porto os pequenos nadas do quotidiano, foi necessário recorrer à imaginação; excepto a laçada nos atacadores dos sapatos – coisa simples e com “pouca importância” – todas as dificuldades foram “…humanizadas e superadas…” – palavras de sabedoria.

Nasceu em Quackenbrück, na Alemanha, e veio com onze anos para Portugal, depois de completar o 1º ciclo escolar. O pai é de Vila Verde, a mãe de Seixo da Beira.

A adaptação não foi fácil, mas o seu espírito alegre e folgazão rapidamente contagiou os novos colegas de escola, porque há arte em fazer amigos em qualquer faixa etária. O José Carlos tem essa virtude.

Há um par de anos, conheci-o no desempenho das suas funções na Câmara Municipal de Oliveira do Hospital. Reparei que tinha uma prótese no braço esquerdo; a mão direita era funcional e veloz, enquanto a outra repousava sobre um monte de papel, quase inerte. Mais tarde soube das causas que lhe alteraram o destino.

– “Era segunda-feira, 27 de Março de 1995. Como sempre, na madrugada desse dia apanhei o comboio em Nelas, com destino ao Entroncamento, onde prestava serviço militar na Escola Prática de Serviço de Material. Eu e alguns colegas entretínhamos o tempo com um jogo de cartas; lembro-me do comboio ter parado em Alfarelos e a partir daí ficou um vazio no meu cérebro.

Possivelmente, adormeci e acordei…três dias depois no Hospital Militar da Estrela com uma enfermeira ao meu lado, que me contou, por alto, o que sucedera com o meu braço esquerdo!”.

Sobre os factos, contou quem se apercebeu do acidente, dedução lógica de uma tragédia que o destino tinha à sua espera na estação do Entroncamento:

Aprender com as dificuldades, humanizando-as

-“Ao chegar ao destino, alguém me acordou e eu, sonolento, ao ver que o comboio já ia em andamento, devo ter saltado e bati com a cabeça num dos postes que sustentam a cobertura da estação. Caí para a linha, desmaiei, o braço esquerdo ficou estendido sobre o carril e uma das rodas do comboio passou-lhe por cima – esta é a versão mais plausível, de facto. No meio do azar, acabei por ter bastante sorte…”.

Ao certo ao certo, pouco mais se sabe; não fora um dos funcionários da estação se ter apercebido que dos três soldados que tinham saído da carruagem apenas dois estavam por perto, e não se teria detectado, no imediato, a ausência do José Carlos.

Volta o relato dos primeiros momentos sobre o desconhecido:
– “A enfermeira estava à espera que eu acordasse, certamente para estudar a minha reacção. Foi um choque indescritível, a tristeza tomou conta de mim…ficar sem uma parte do meu corpo e ter essa consciência… doeu cá dentro – impossível dizer o que se passou na minha cabeça, os pensamentos, as dúvidas sobre o futuro, a família, a namorada, os amigos, tudo mau de mais para recordar.

No primeiro mês, então… nem se fala! Depois, aos poucos, comecei a aceitar a realidade, e como no hospital estavam outros militares em piores situações, animei-me com a velha frase: podia ter sido pior”!

Passado todo este tempo, o José Carlos leva uma vida perfeitamente normal e “…até me esqueço de que só tenho um membro…”, adaptou-se ao dia a dia, a tarefa mais “complicada de executar é apertar os atacadores dos sapatos…”, porque de resto, com imaginação, tudo se consegue:

– “Podemos aprender com as dificuldades, humanizando-as. É isso que tento fazer e acho que me saio bem porque tenho um espírito bem disposto, dificilmente me aborreço, considero-me uma pessoa feliz, e até rejubilo por ser assim. Conduzo o meu carro (necessariamente adaptado), jogo ténis e futsal com os amigos, só me falta guiar uma moto mas ainda hei-de ter uma com quatro rodas…quando houver dinheiro para a comprar”!

O José Carlos sorri enquanto fala de si; não lhe noto mágoa ou tristeza na conversa, que surgiu escorreita. Há sempre o melhor lado da vida na estória, “conta como foi” e desenha os sonhos que trás bem vivos dentro de si; quando criança queria ser engenheiro, depois apostava na carreira militar, “…até já tinha metido os documentos para continuar na tropa, quando tive o acidente…” – ficou funcionário público e é por aí que se entende como cidadão útil à sociedade, embora traga na ideia a matricula na ESTGOH para cumprir o tal sonho de menino: ser engenheiro civil!

Completa-se a estória com um final feliz: a namorada daquele tempo em que havia um projecto de vida e os dias se sucediam com normalidade, foi importante na sua recuperação psicológica – a par dos pais, restante família e amigos mais chegados – casaram e já lhes nasceu um rebento que é o “ai Jesus lá de casa”, como a José e Maria, de Belém.

Agora, que é Natal, nem só de prendas, broinhas e bolo-rei se festeja a data; junte-se-lhe, também, uma pitada de amor, outra de esperança, sorriso quanto baste, uma estória com final feliz, como a do José Carlos, e pronto: o pior de tudo é apertar os atacadores dos sapatos das nossas consciências… com as duas mãos!

Carlos Alberto

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