Figuras: José da Costa Gomes

…imaginamos os séculos de história da vila, montes e vales cantados por Brás Garcia de Mascarenhas, e descemos em busca de José da Costa Gomes, bem perto do gracioso coreto.

Subimos a calçada, um pouco íngreme, e da varanda da casa veio o sorriso da dona Isabel, esposa do senhor Gomes, que nos espera. Se não soubéssemos de antemão que estava avançado na idade, não acertávamos no número de primaveras de um dos homenageados pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital no próximo aniversário concelhio.

– “Acho que não merecia nenhuma homenagem, mas se eles (Câmara) querem…” – refere, humilde – até no sorriso. Insisto:

– “Parece-nos uma homenagem justa”.
– “O senhor presidente da Câmara sempre foi meu amigo, e um dia, numa festa, deu-me um abraço e disse que eu merecia uma prenda de ouro”.

Primeiro o amanho dos campos, depois a indústria da madeira, o serviço militar, o casamento, os filhos. O percurso é comum a tantos outros conterrâneos, rapazes do seu tempo, incluindo a aprendizagem do solfejo na Banda Filarmónica Avoense, onde se mantêm como executante há sessenta e sete anos!

– “Nasci em 1925 e em 1941, portanto com dezasseis anos de idade, estreei-me na Banda. Lembro-me bem – conta – foi na segunda-feira da Páscoa, em Vinhó.

– “O meu percurso na Filarmónica começou com o Clarinete, depois passei para o Saxofone Tenor, que toquei durante seis anos, e voltei para o Clarinete, sem nenhum problema, tocar um ou outro é quase a mesma coisa, embora o clarinete seja um pouco mais difícil”.

As memórias de mais de meio século nas fileiras da Filarmónica davam para “escrever um livro…”, ma há um episódio que o José Gomes destaca, certamente pela nostalgia com que o faz:

– “Na música (Banda) sempre fomos amigos uns dos outros mas havia um grupo de seis ou sete, nesse tempo, ainda éramos novos, que se juntava sempre que cada um fazia anos e então, depois de bem comidos e bebidos íamos para as ruínas do castelo, já tarde, tocar. Isso acontecia com frequência, mesmo sem haver motivo para festejar, mas uma vez deu-nos para ir tocar à porta do doutor Vasco de Campos – seriam umas três da madrugada – ele veio à varanda, ficou a ouvir, por fim disse que nunca tinha ouvido na vida coisa mais bonita”.

Sessenta e sete anos de harmonia(s) na Banda

Continua simples e humilde nos relatos que se seguiram, alguns brejeiros mas com graça, a que a esposa Isabel punha cobro: – “deixa-te disso…”, e ele: – “não tem mal nenhum, são estórias engraçadas, mais nada”.

Estórias antigas, sem dúvida, a que se podem juntar outras bem mais recentes, sobretudo pela vivência de quem as viveu de perto e compara no tempo:

– “Hoje há na Filarmónica miúdos que tocam tanto como os mais velhos que lá andavam quando eu entrei. Agora é tudo diferente, já não vamos a pé por aí, por essas terras, como antigamente, saímos de madrugada, regressávamos de noite, e é pena que os mais novos não se dediquem mais à música; às vezes digo-lhes: -“ vocês não sabem o que perdem, nem se valorizam nem nada “, mas não ligam. Mesmo assim temos bastante juventude na nossa Banda e este Verão tivemos bastantes festas”.

Além da Filarmónica Avoense, José Gomes também colaborou com o Rancho as Camponesas do Alva, também em Avô:

– “Isso foi ao princípio, porque os músicos do Rancho eram os mesmo da Banda, mas só íamos quando não tínhamos festas. Hoje têm outro tipo de acompanhamento musical, mas também foi um tempo bem bonito esse…”.

Pergunto pelas mudanças no reportório da Banda…
– “Hoje tocam-se outras peças, tudo muda, o grau de dificuldade nem por isso, mas olhe que ainda há dias toquei uma marcha que fizera parte do nosso reportório há uns sessenta anos”.

Não há volta a dar à conversa: todos os caminhos se cruzam com a Filarmónica Avoense – até como cobrador de quotas ele se dedicou à causa da “música”:

– “Durante muitos anos cobrei as quotas, sim, mas deixei o ano passado, já me canso um bocado, entreguei a tarefa a outro que pode mais das pernas do que eu”.

– “Andar nas arruadas cansa bastante” – atalhei.
– “Pois cansa, mas as pessoas são simpáticas comigo, não querem que saia, por isso, até ter forças vou andando por lá.

– “Aqui há uns tempos fui à médica e disse-lhe que se calhar ia sair da Banda, por causa do meu cansaço, mas ela pediu-me para não o fazer, o exercício faz bem à saúde, e eu cá ando”.

Posta de lado a hipótese da reforma – e ainda bem! – apesar dos seus oitenta e três anos de vida, José Gomes entende que há necessidade de renovação nas nossas Filarmónicas, que continuam a servir as gentes das Beiras como escolas de música. Além disso, associado à arte, moldam-se caracteres, e aprende-se a disciplina de comportamento cívico em grupo.

– “Reformar-me da música? Canso-me um bocado a andar, é certo, mas a tocar, os outros não o fazem melhor do que eu”.

Falou e disse o “jovem” José Gomes.

Carlos Alberto

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