Os caminhos percorridos pelo padre Luís Costa na sua ainda curta carreira eclesiástica são o testemunho de que “ …não há vocações feitas (…);

Figuras: Luis Costa

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A vocação (sacerdotal) nasce e cresce no confronto diário com as múltiplas situações com que se depara…” aquele que se decide pela entrega ao Ministério da Palavra de Deus. De si diz o suficiente para que possamos imaginar o seu percurso espiritual, e salienta a importância do esforço colectivo na obra social que dirige na região norte do Concelho de Oliveira do Hospital.

As freguesias de Seixo, Ervedal e Lagares da Beira possuem IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social), presididas pelo padre Luís Costa, a que se junta a Obra de Eugénia Garcia de Monteiro de Brito. As paróquias a que está adstrito sofrem dos males comuns à maioria: população envelhecida e carências de múltipla ordem. A Igreja Católica, por norma, assume a sua responsabilidade social, como é o caso, daí que os Centros Paroquiais, a par de outras instituições particulares, mereçam o relevo que lhes é reconhecido no apoio à infância e à terceira idade.

Enquanto representante da Igreja e responsável pela administração das instituições, o padre Luís Costa desempenha um papel deveras gratificante, na opinião dos seus paroquianos, e se há obra feita “…deve-se ao esforço desta comunidade…” que, como qualquer outra “…precisa de referências; quando existem essas referências, as pessoas acabam por ser generosas e colaborantes…”.

Os seus procedimentos espirituais e sociais são, na verdade, uma referência, pese a sua humildade na assunção do facto:

– “Liderança é o meu serviço, não faço mais do que a minha obrigação – é um dever que cumpro com prazer. Tenho muita gente a trabalhar comigo que nada recebe por aquilo que produz; essas pessoas dão testemunho dos seus valores e nobreza de carácter – são referências da comunidade. Os valores nunca se perdem, as referências sim…”.

O padre Luís Costa veio para Seixo da Beira depois de ter estado em Penela um ano como diácono e outro como padre. Reconhece que hoje é muito melhor pároco do que era no começo, embora mantenha a coerência da sua dedicação às comunidades que serviu e serve com alegria; insiste na afirmação de que, como homem, não é perfeito “… sou das pessoas que tem mais defeitos (…) falho tantas, tantas vezes…”.

“A pressão é enorme, a resposta, enquanto sacerdote e responsável pelos serviços sociais da Igreja, tem de ser dinâmica e positiva – sou exigente, sem dúvida, para que tenhamos o melhor serviço, e prestar o melhor apoio social à comunidade. A minha coerência reside no trabalho porque fui assim habituado pelos meus pais”.

Ser melhor pároco significa, na minha leitura, que a experiência sacerdotal foi mais um passo no seu trajecto espiritual e cívico. Agora, os padres católicos não se limitam a prestar apenas serviços religiosos junto dos fiéis – de uma forma ou de outra, participam activamente na gestão das obras sociais da Igreja e estão (quase sempre) inseridos na vida comunitária através de múltiplas funções cívicas.

Além das populações envelhecidas e das dificuldades económicas com que se debatem as instituições sociais que lhes prestem apoio, nas aldeias há outra realidade difícil de combater: a desertificação.

–“Setenta por cento dos casais que contraíram matrimónio nos últimos oito anos nesta região não residem cá – diz o padre Luís, que acrescenta: “Esta é uma zona incaracterística, não se identifica com as cidades que lhe são próximas: Seia e Oliveira do Hospital, além das vilas de Tábua e Nelas. As perspectivas quanto ao emprego são poucas, não se cria riqueza, por isso as pessoas, naturalmente, procuram outras paragens e seguem o seu rumo”. – “A Igreja está atenta a este flagelo social – salienta. O sacerdote partilha a Fé que o move “…com dedicação igual, aos jovens e menos jovens…”, e dá de si à comunidade a força da sua juventude.

Aceite sem rodeios por todos, participa nas actividades lúdicas dos seus paroquianos, como padre e como homem porque, sendo pessoa, não deixa de ser quem é no desempenho da sua acção evangelizadora, seja em que circunstância for.

 

"E o pai deixa-me ir?" 

Natural de Figueira do Lorvão, Penacova, Luís Manuel Batista Costa tem 34 anos; na família há mais dois irmãos, mas nenhum deles seguiu a carreira eclesiástica. Com 12 anos de idade, depois do 2º ano na Telescola, ingressou no Seminário da Figueira da Foz.

–“Uma vez, na nossa casa na aldeia, à noite, o meu pai, depois de um dia de intenso trabalho na lavoura, perguntou-me se eu queria ir fazer o estágio para o Seminário: ouvi a pergunta como se fosse uma… “coisa” natural, já esperada, e respondi com outra pergunta, ansioso:

– “E o pai deixa-me ir?

“A família sempre me deu liberdade para assumir as minhas ideias, portanto, com toda a naturalidade fui e fiz o meu percurso com serenidade. Quem me conhecia bem, sabia do meu desejo em ser padre, mas nunca deixei de ser um jovem como os outros nas brincadeiras do grupo de amigos.

“À medida que o tempo ia correndo, sem pressões, às vezes, no fim do ano lectivo, perguntavam-me se era agora que ia deixar o Seminário; eu sorria, deixava as pessoas sem uma resposta concludente, mas se tinha um pé fora do Seminário, tinha “dois” lá dentro e a consciência plena de que a minha vocação ia crescendo de forma natural e gradual.

“Nunca esperei pelo dia «X» para tomar a decisão… que já existia, não tinha dúvidas”! Algum tempo depois de ter vindo paroquiar Seixo da Beira e as outras freguesias, deu aulas de Moral na Escola da Cordinha e ainda conseguiu levar por diante o curso de Direito Canónico na Universidade de Salamanca, “…ia domingo à noite e regressava sexta-feira à tarde – foi assim durante dois anos”. Hoje é Juiz do Tribunal Eclesiástico de Coimbra.

A primeira Missa, na terra natal, aconteceu a 4 de Julho de 1999. Para que conste no perfil (incompleto) do padre Luís Costa. “Eu sou o Bom Pastor: Conheço as Minhas ovelhas e as Minhas ovelhas conhecem-Me…”. São João 10, 14-16.

Carlos Ramos

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