Recentemente reli uma curiosa história de uma experiência científica realizada em macacos. Consistia em colocar cinco macacos na mesma jaula, com uma pequena escada que dava acesso a um cacho de bananas.

Gravata, essa macaquice do poder

Durante alguns dias, sempre que um macaco subia a escada, os restantes, como castigo, apanhavam um valente banho de água fria. Passado pouco tempo, sempre que um macaco se aproximava da escada, era, imediatamente, agredido pelos outros. Apesar da natural tentação de subir até ao cacho de bananas, poucos dias foram necessários para que nenhum macaco se atrevesse a subir a escada. Controlado o comportamento dos primatas, os cientistas resolveram substituir um dos macacos por outro, que não conhecia as regras do sistema nem a cultura organizacional do grupo. Naturalmente, a primeira coisa que o novo macaco fez foi tentar subir a escada, o que lhe valeu, de imediato, uma sova dos colegas de jaula e depressa apreendeu a regra de não a subir. Mais tarde, um segundo macaco do grupo original foi substituído por um outro. O curioso é que o primeiro macaco substituto, que apenas tinha levado as surras sem nunca ter recebido qualquer banho de água fria, acabou por participar activamente na sova aplicada ao récem-chegado. Um a um, todos os macacos que tiveram a aprendizagem original foram substituídos ficando na jaula só macacos substitutos, que nunca sofreram qualquer banho de água fria nem percebiam por que não se podia subir até ao cacho de bananas. No entanto, isso não impediu que o quinto substituto se escapasse à sova quando se aproximou da escada. Concluiu-se assim que o grupo continuava a perpetuar uma regra de comportamento organizacional sem qualquer racionalidade, porque… as coisas sempre foram assim por aqueles lados.

Contundo, o leitor dirá que uma história destas nunca poderia acontecer com humanos. Então, imagine que um extraterrestre chega ao nosso planeta e, naturalmente, não percebe porque tantas pessoas usam ao pescoço uma faixa de pano inútil, que fica presa por um nó complicado que dificulta os movimentos e a respiração. Para além disso, apercebe-se que este adorno, de nome gravata, já foi causa de acidentes por asfixia e que quem o usa está constantemente a aliviar o seu nó, para ficar mais confortável, e é a primeira coisa que tira, mal chega a casa. Por certo, perguntaria: para que serve afinal a gravata? Racionalmente, teríamos que responder que não tem nenhuma utilidade e que, na verdade, representa apenas um símbolo de poder e inacessibilidade para muito boa gente passar uma imagem da importância e valor que não possui. Naturalmente, teríamos que explicar que muitas pessoas foram “obrigadas” a usar gravata, porque o comportamento organizacional assim o exigiu e os superiores hierárquicos gostam que assim seja. Sendo assim, depressa concluirá o extraterrestre que, num futuro próximo, quando os mais novos chegarem ao poder, se deixará de incentivar o uso dessa faixa de pano ridícula. E teríamos nós que responder que dificilmente isso irá acontecer, pois, por essa altura, os mais novos serão mais velhos e também eles já se terão habituado à gravata, porque… as coisas sempre foram assim por aqueles lados.

Talvez nesta história se perceba bem o que Tom Peters, para muitos o mais prestigiado orador na área de gestão da actualidade, quer dizer quando revela que o problema das organizações não é encontrar pessoas com ideias inovadoras, mas sim conseguir derrubar o conservadorismo e os dogmas de quem tem o poder. Peters adverte mesmo que, se anda à procura de inovação e mudança de comportamentos, nunca as irá encontrar nos engravatados “yes sir” que adoram frequentar os corredores da administração. No entanto, por cá, os senhores com o poder de decisão parece que continuam a apostar em engravatadinhos, como eles próprios, para que nada mude. Porquê?!?… Então, por que é que havia de ser?!?… Porque… as coisas sempre foram assim por estes lados.

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Associação Nacional de Jovens Formadores e
Docentes (FORDOC)

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