"A senhor de palha, vassalo de aço"

Hoje parece amanhã.

Escrevo um dia antes das eleições para a distrital do PSD. O compasso do tempo apenas permite, que procure afanosamente as virgulas, e os parágrafos e deixe a minha vénia aos que votarem. Acho que ninguém irá cuspir nos votos. Duvido que alguém use o meu boletim de voto como acoito de ranho… Enfim, tussam, espirrem, ou escarrem. Mas que nos dois lados em confronto, haja uma consabida postura de realismo político e correcção partidária, sejam quais forem os resultados salivantes. Seja quem for o eleito para os comandos da distrital, que aquela mude de estádio evolutivo, e a fauna partidária local, mude no sentido da expressão e sobretudo no contexto.

Sobre estas eleições, há entre nós, muitos olhares abrasivos por parte daqueles que em resultado delas, podem sentir a suprema leveza do ponto de chegada a uma candidatura autárquica. Contrastando desse modo, com os suspiros de quem não quererá respirar o abismo de ficar por via do resultado, sem um ponto de partida, numa candidatura pelo PSD. Por isso são eleições importantes. Mas na minha modesta opinião, não são decisivas.

No concelho e no partido, ninguém morrerá politicamente na noite de sexta-feira. Nem ninguém não tendo vida hoje, a terá amanhã, por via da eleição de Pedro Machado ou Marcelo Nuno.

A posteriori destas eleições, encontra coisas prévias que já lá estão, e que podem fazer desta eleição uma mera etapa num percurso há muito caótico, onde a visão de uns é periférica, e a cegueira de outros, está do lado de dentro. Não vou incendiar as mãos para escrever isto. Mas considero há muito, que qualquer argumentação política pertinente e válida, sobre aquele que será o candidato do PSD às próximas autárquicas, tem de passar sobremaneira, no tempo certo, pela Assembleia de Secção do Partido. Este não é um imperativo de postura pessoal, que questione resultados eleitorais obtidos democraticamente, mas de conteúdo e conduta partidária, assente nos estatutos. Os únicos, que se antecipam aos actos de qualquer dirigente, que podem pacificar as entranhas do partido e regenerar a sua base eleitoral, pelo exemplo dado aos seus militantes.

Reconheço que na liberdade circunstancial do voto, o veredicto do povo é soberano. E existiu uma clarividência na campanha interna, partidariamente justificada, estatutariamente não questionável, e politicamente intencional, onde de modo taxativo, José Carlos Mendes, se assumiu candidato a candidato à câmara, em contraste, com a indefinição do seu adversário.

Mas depois, não pode existir quem respalde, a clarividência dos estatutos, no que ao processo autárquico respeita. Os Estatutos dão uma significação de vazadouro a tudo e a todos, em cada tempo partidário, de uma decisão estritamente política, onde não pode haver vetos, mas escolhas.

Vejamos. Artigo 21º (Competência da Comissão Política Nacional) nº 2, alínea i) – Homologar a designação dos candidatos do Partido à Presidência das Câmaras Municipais. Artigo 41º (Competência da Comissão Política Distrital) nº 2, alínea d) – Aprovar as listas de candidaturas aos órgãos das Autarquias Locais sob proposta da Comissão Política da Secção e coordenar a actuação daqueles uma vez eleitos. Artigo 50º (Competência da Assembleia de Secção) nº 2, alínea f) – Dar parecer sobre as candidaturas aos órgãos das Autarquias Locais e aprovar o Programa Eleitoral, sob proposta da Comissão Política. Artigo 53º (Competência da Comissão Política de Secção) nº 2, alínea f) – Propor à Comissão Política Distrital as listas de candidatura aos órgãos das Autarquias Locais, ouvidas a Assembleia de Secção e as Comissões Políticas dos Núcleos.

Queiram desculpar, o longo enunciado. Mas espero que para além dos espasmos de pulmões exaustos provocados pela leitura, esta traga, alguma previdência, a uma questão que pese embora, a legitimidade com que a Comissão Politica de Secção a tem colocado, não arroga o monopólio da razão, na sua imanência. Há uma frase recente, do presidente da Secção do PSD, que é daquelas típicas que impõem respeito: “Se praticarem um acto hostil aos estatutos é lógico que vamos reagir”. Espero reacção! Mas que não se compadeça, com a entrega das chaves da sede do partido, do corte da estrada nacional, do acorrentarem-se às árvores do passeio da entrada da sede do partido! Senão isto (mais uma vez), não deixa de ser um ruído gutural, assente numa tibieza intermitente, que pode augurar um despenhamento político inopinado, no qual a distrital seja ela qual for, não será parte prescritiva.

Já vai sendo tempo, de o PSD deixar de elanguescer, deixando-se cair em fraqueza. Toda a Comissão Política Concelhia, deve oferecer o corpo à sentença da Assembleia de Secção, e apresentarem-se como um Quixote que admite a morte se esse for o escudo da Dulcineia. Os militantes elegeram esta Comissão Politica. Não pode haver reserva mental, em levar todos os candidatos que venha a propor e o programa pelo qual se baterá eleitoralmente, à Assembleia de Secção. Isto não é uma mera questão de forma, é de perene substância partidária.

Como devem ter conhecimento, o partido decidiu, em Conselho Nacional, convidar todos os presidentes de Câmara a recandidatarem-se. Mário Alves considerou-se convidado e aceitou o convite! Estatutariamente isto é um procedimento de sonso, mas é politicamente astucioso.

Não só, permitiu, que todo o tempo político concelhio, continuasse ciente, que Mário Alves preserva o espaço desocupado dos politicamente ausentes, sentado no limiar da queda. Como veio demonstrar, que o empedernimento político da CPS, que adia e enquista, pode gerar um amancebamento de vozes, que não o desfazem politicamente. Antes o revigoram!

E isto só é possível, porque poucos se aperceberam (ainda), que o combate a Mário Alves não pode ser um programa de candidatura! Tem de ser mais qualquer coisa, a começar por dentro, do próprio PSD.

Se os estatutos são claros, cabe à Comissão Política eleita, definir o candidato à autarquia. Não posso embargar uma pergunta, cuja mordacidade até a mim inquieta. Por que razão na continuada “usurpação” de território, por parte de Mário Alves, a Comissão Politica de Secção, não tem coragem, para lhe retirar a confiança política, sobretudo depois de vir assumir-se candidato a candidato à Câmara, sem o apoio do partido no concelho?!

Lusitana Fonseca

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