Igreja de S. Pedro de Lourosa: Moçárabe ou Asturiana? Eis a questão…. Autora: Maria José Borges

No rescaldo das Comemorações dos 100 anos de classificação da igreja de S. Pedro de Lourosa como imagem de Lourosa 1monumento nacional, no passado dia 14 de Junho, um dos temas que terá causado alguma polémica parece ter sido a discussão acerca das características e possíveis origens deste templo… Afinal, ele é moçárabe ou é asturiano? A este propósito deverei afirmar que é, de certo modo, uma falsa questão, pois sem dúvida que a igreja poderá ser, no fundo… as duas coisas… A sua influência é declaradamente asturiana, mas também é moçárabe, sem dúvida. Vejamos então, porquê…

No importante estudo do historiador Paulo Almeida Fernandes, participante no referido colóquio e o primeiro investigador a fazer uma tese de mestrado sobre a nossa igreja (FERNANDES, Paulo Almeida, A igreja pré-românica de São Pedro de Lourosa. Dissertação de mestrado da Universidade de Lisboa, 2002), ele demonstra de forma inequívoca a ligação deste templo a outros da vizinha Espanha, da zona das Astúrias, congéneres da nossa igreja e a sua provável construção durante a chamada Monarquia Asturiana. Não irei entrar em detalhes de ordem académica e científica que remeto para outros locais e para o cuidadoso estudo desta obra e de outras que eu venha a referir, mas de forma algo coloquial gostaria aqui de discorrer sobre alguns assuntos talvez menos compreendidos.

O que é a Monarquia Asturiana? A Monarquia Asturiana é o reino cristão que surge na Península Ibérica após a ocupação muçulmana da mesma península, sucedendo ao reino visigótico que o precedera. Revendo um pouco a História ibérica, desde o século VI d. C. que os Visigodos, vindos com as chamadas “invasões bárbaras” do século V, se encontravam instalados na Península Ibérica adoptando usos e costumes romanos para além da adopção do próprio Cristianismo oficialmente instituído nas diversas zonas do Império romano desde o século IV. É muito provável que em Lourosa tenha existido um primitivo templo visigótico e cristão, como aventam inclusive, alguns estudiosos, já que existe uma necrópole anterior à actual igreja, sobre a qual a mesma foi construída… Só uma profunda e sistemática prospecção arqueológica das zonas envolventes poderá, quem sabe, responder um dia a essas dúvidas… Nesse momento existia apenas o reino dos visigodos que se estendia praticamente por toda a Península Ibérica…

Em 711, a invasão dos berberes muçulmanos vindos do Norte de África, comandados por Tariq, entrou pela Península Ibérica e foi avançando progressivamente até aos Pirenéus, tendo estes sido vencidos por Carlos Martel em 732 na batalha de Poitiers (na actual França), e rechaçados progressivamente para Sul, vindo a fixar-se sobretudo na dita Península Ibérica, onde se estabeleceram durante vários séculos (no Sul de Espanha, até ao século XV). Muitos cristãos hispânicos, os tais de origem visigoda, foram-se, entretanto, reunindo nas altas terras das Astúrias, junto à fronteira francesa, criando um novo reino, o reino das Astúrias, que durou mais ou menos entre 718 e 925, sendo tradicionalmente considerado seu primeiro rei, Pelágio (+737), de lendária ascendência visigoda. A recuperação dos territórios cristãos aos muçulmanos, conhecida como “Reconquista” foi alargando os domínios deste novo reino, sendo o germe, no fundo, dos futuros reinos hispânicos de Leão, Castela, etc. e da própria Galiza, onde se situaria, mais tarde, o Condado Portucalense.

A datação de 912 atribuída à igreja de Lourosa faz com que esta se situe, cronologicamente em plena vigência dessa monarquia asturiana, e, mesmo que dela afastada geograficamente, as semelhanças com algumas igrejas asturianas também são um facto. Não esqueçamos todavia, que o povo que está na base desse antigo reino das Astúrias e o que permaneceria em Lourosa é fundamentalmente o mesmo, de raiz visigótica. Além do mais, o reino das Astúrias representaria na época a grande referência cristã entre uma vastidão de domínio mouro, a que se deveriam reportar esses povos mais afastados. Tal não seria, pois, de estranhar; Paulo A. Fernandes fala, inclusivamente, da possibilidade de aqui ter estado uma colónia asturiana. A hipótese não é de descartar, existem inclusive alguns topónimos (Galizes, por exemplo, eventualmente associado a Galiza…), que nos podem fazer pensar nessa possibilidade, mas não esqueçamos que o que atrás foi dito também será verdade…, independentemente de ter sido construída em momento de domínio cristão, ou mouro. Durante a ocupação muçulmana, alguns cristãos visigodos terão permanecido, é sabido, nas zonas conquistadas onde poderiam manter o seu culto cristão, com maior ou menor tolerância. Refere José Pessanha que «a invasão da península não teve, decerto, como objectivo (…) principal a dilatação do islamismo. A que o número dos sectários do Alcorão crescesse, os muçulmanos preferiam, sem dúvida, que avultasse o rendimento das contribuições, pessoal e territorial, impostas àqueles que se não convertessem» (Arquitectura pré-românica em Portugal: S.Pedro de Balsemão, S.Pedro de Lourosa,1927).

As intermitências entre as vitórias cristãs e as vitórias muçulmanas, pelo menos até 1064, quando Fernando O Magno (já rei de Leão, Castela e Galiza) recupera definitivamente a região de Seia e Coimbra para o domínio cristão, faz com que, ainda não tenha sido possível definir com certeza, se a igreja teria sido construída sob o domínio cristão efectivo, ou sob o domínio árabe, com permissão e taxação de impostos, sendo possíveis ambos os cenários como o mesmo Pessanha bem descreve na atrás citada obra. O que, para nós a tese de Paulo Fernandes salienta, acima de tudo, é essa inequívoca ligação ao mundo asturiano, com uma grande qualidade de construção de tipo “classicizante” típica da data a que nos reportamos em Lourosa, e não uma construção provinciana, periférica e pobre como alguns autores acharam no passado, o que poderá reforçar, sim, a ideia de que a igreja terá sido construída, com muita probabilidade, num momento de domínio cristão. Daí ele referir-se a ela como um monumento “incompreendido”…

No entanto não concordamos com o facto de ele quase assumir que isso é incompatível com a sua classificação de “moçárabe”… O contacto próximo entre as duas culturas (cristã de origem visigótica e muçulmana), trouxe para a Península uma influência arabizante que se difundiu por vários sectores da vida hispânica, desde a Agricultura às Artes e, nomeadamente à própria Arquitectura… As interações entre os elementos artísticos cristãos, de tipo visigótico, e alguns elementos árabes são identificáveis em objectos artísticos e em diversas construções do século VIII ao X, levando alguns estudiosos a falar de uma cultura “moçárabe” tipicamente hispânica. Por moçárabe entenda-se o cristão, com usos e costumes árabes. A palavra moçárabe deriva do árabe mustarabi e significa árabe naturalizado. Utilizada como qualificativo de cristão, pretende denotar o cristão adaptado ao mundo árabe ou que viveu no domínio árabe o que terá acontecido certamente nesta região.

Em relação às igrejas hispânicas da época da Reconquista utilizou-se nos inícios do século XX a designação de moçárabe para as englobar em geral. Gomez – Moreno, no seu estudo Iglezias Mozárabes (1919) foi um desses autores que enquadrou a igreja de Lourosa conjuntamente com as suas congéneres espanholas, dando-lhes genericamente essa designação. Para além das arcadas em arco de ferradura (que os visigodos também já usavam, por acaso…) a igreja exibe, igualmente, outros elementos considerados tipicamente de influência árabe, como as janelas em ajimez, as únicas conhecidas em Portugal da Alta Idade Média (Pessanha: 1927).

Ora essa mistura de elementos construtivos cristãos com elementos construtivos árabes, permite, com toda a propriedade, poder continuar a chamar a igreja de S. Pedro de Lourosa de moçárabe, sem pôr em causa as conclusões de Paulo Almeida Fernandes, que no fundo alerta para a necessidade de não ser uma designação redutora, e que só acrescenta importância à nossa estimada igreja colocando-a a par dos monumentos mais ou menos coevos da vizinha Espanha. Do lado de lá da fronteira, o historiador Carlos Rios, investigador da Universidade de Coruña e especialista nestes temas moçárabes, não duvida em colocar Lourosa nessa classificação, na senda de Gomes-Moreno, na sua dissertação de doutoramento Mozarabismo en la Gallaecia Altomedieval. Estudios generales y análisis desde sus fuentes documentales monásticas (siglos” VIII, IX, X y XI) (Universidad de Múrcia, 2009) nas lâminas 3 e 4 (que aqui abaixo mostramos):mapa 1

mapa 2

Aliás, a sua participação teria sido muito enriquecedora, sem dúvida, no referido Colóquio do passado dia 14 de Junho…). Seria, ademais, bem interessante que se criasse uma Rota das igrejas moçárabes/asturianas partilhadas entre Portugal e Espanha, à semelhança do que já está a acontecer com os Caminhos de Santiago (que também passaria, tudo indica, por Lourosa…mas isso são outras histórias…).

Consequentemente, embora Almeida Fernandes e outros prefiram, actualmente, o termo «asturiano» em vez de «moçárabe», essas designações em Lourosa não são incompatíveis… Sendo, certamente, de influência asturiana, a igreja de Lourosa é também moçárabe com todo o direito.

Bem andaram, pois, as entidades autárquicas, nomeadamente o Senhor Presidente da Câmara quando, apesar de tudo, pretenderam defender “a sua dama” perante a eventualidade de terem de anular uma designação que ainda é a oficial da igreja… E que, não há grande gravidade em manter…

Para finalizar só gostaria de acrescentar que muitas das dúvidas que ainda cercam, quer a própria origem cronológica e antecedentes desta igreja, quer outras dúvidas históricas, poderiam ter uma excelente oportunidade de serem em parte respondidas se houvesse uma verdadeira prospecção arqueológica a toda a envolvente do templo e até de todo o centro histórico, algo que nem sequer nas obras de 1930 aconteceu… E é verdadeiramente lamentável, pois tendo em conta a disponibilidade monetária que parece haver para esta, certamente bem-vinda requalificação, algumas verbas em requalificações e demolições algo discutíveis (como o muro para a Rua de Baixo, por exemplo, e sua substituição por outro novo, certamente mais dispendioso do que recuperar o muro já existente…) poderiam ser talvez transferidas para essas mesmas prospecções… Perde-se assim uma oportunidade única para fazer verdadeiramente História em Lourosa…

Maria José BorgesAutora: Maria José Borges, Historiadora, Mestre em Ciências Musicais e docente de História da Cultura e das Artes/História da Música na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa. Consciente e deliberadamente a autora não aderiu ao actual Acordo Ortográfico.

Foto principal: Rui Valentim / IGESPAR

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  • António Lopes

    Ora aqui está um artigo que vale a pena.Quanto à crítica e sugestão, o problema é o do costume.Festa, concerteza . Que dê votos de preferência. História e cultura ..”mas quem é que liga a isso”..! Quando se maltrata os adversários políticos, citando Churchil em detrimento de Eça e Ramalho,os mestres da sátira política,e ainda assim de livro aberto,que mais se pode esperar..?