Artur Fontes

Importa-me a Liberdade. Autor: Artur Fontes

«Vou ser fuzilado hoje. Sou um soldado e morro pela França. A minha mão não trema. Sei porque morro e disso me orgulho»

Celestino Alfonso, 1944

Este antigo combatente do exército republicano espanhol, alistado na Resistência Francesa, viria a ser fuzilado a 21 de Fevereiro de 1944. Numa outra carta, escreveria: “Querida esposa e filho, Hoje às três horas vou ser fuzilado. Não lamento o meu passado. (…) Peço-vos muita coragem. Que meu filho tenha uma boa educação, o que entre todos da família podereis conseguir. Morro pela França” (in “Cartas de Fuzilados”, p. 25).

No prefácio, escrito em Agosto de 1945, a este pungente e doloroso livro, que reúne dezenas de cartas dos que, horas antes de virem a serem fuzilados, se despediam com orgulho e tenacidade por pertencerem à luta clandestina da resistência contra a ocupação da França pelo exército alemão e contra o governo colaboracionista francês, sediado em Vichy, com o General Pêtain à sua frente, lemos: “não esqueçamos o exemplo destes voluntários, soldados em que o espírito do ideal patriótico substitui a triste aceitação dum mal fixado dever, cumprido sob as ordens de funcionários, denominados oficiais de carreira, dos quais alguns ajoelharam primeiro diante do inimigo e em seguida colocaram-se ao seu serviço” (p.19).

Numa outra carta, escrita a 17 de Abril de 1942, um jovem pai despede-se da sua filha aconselhando-a, entre outros: “Aprende a conhecer as razões porque me mataram. Aprende a conhecer aqueles que te rodeiam e julga as pessoas, não pelo que elas te dirão mas pelo que lhes vires praticar. Ampara a mamã pela tua honesta conduta (…); Escolhe para marido um trabalhador honesto. Escolhe-o generoso, sincero, trabalhador, capaz de te amar. Não baixes a cabeça por teu pai ter sido fuzilado”.

Foram milhares, o número de mortos da Resistência! Não morreram em vão!

É bom pararmos, de vez em quando, para reflectirmos sobre estes estóicos exemplos de lutadores que apenas desejavam a paz para esta Europa esmagada pelo terror das armas e não esquecermos o quanto a eles devemos!

Importa-me a liberdade”, escreve Inês Pedrosa no livro “A Eternidade e o Desejo” (2007: 28). Num olhar profundo sobre o comportamento social das pessoas, neste caso, a portuguesa, em que “Vestimos a liberdade como outrora vestíamos a submissão”, a escritora vai mais longe, quando aponta o pedantismo entranhado em muitos daqueles que sabem colocar-se em bicos de pés, para quem a liberdade:” não é mais do que um traje de baile, com um carnet em que apontamos os nomes daqueles com quem dançaremos para brilhar diante dos outros”.

Explorando esses sentimentos de superficialidade para quem a banalidade é apanágio de “muito saber e de muito se mostrar”, Inês Pedrosa refere-se aos que engrandecem a aparência em detrimento da simplicidade e da humildade do conhecimento. Repare-se: “Democratizou-se o anseio de estatuto, mas não conseguimos ainda sair dele.” Assim, é hoje Portugal, tal como ontem. Para muita gente, cuja mentalidade em nada se alterou, embora com novas roupagens ideológicas, mas que continuam a “Pertencer a um país que de antigo se tornou velho”…apenas! O protagonismo social atinge quase todos os estratos da nossa sociedade, sobretudo, em quem domina e exerce o poder nas mais variadas áreas de intervenção: política, económica, social, educacional, nos media, nas artes, enfim, onde haja a possibilidade de se poderem sentar em “degraus acima de”! Descreve, com um olhar analítico e certeiro: ”Portugal está cheio de gente assim, parece um museu de frases consensuais pronunciadas por gente de olhar escorregadio”, (op.cit., p.29).

A certa altura, nas páginas deste interessante livro, e através de um diálogo entre dois portugueses em férias no Brasil, percorrendo os lugares do Padre António Vieira, tendo uma das personagens, uma enorme admiração por aquele visionário e pregador, pois: ”Era um percursor; fervia-lhe no peito uma verdade e só com ele tinha ligação”(op.cit., p.26), na medida em que Vieira “sentia as injustiças e ofensas—-e não foram poucas as que lhe fizeram,(…) Vingava-se, convertendo em palavras escritas a experiência da mesquinhez humana. (…), gritando do púlpito esses sermões irados , consciente de que não conseguiria reformar os costumes do seu tempo, mas ainda mais consciente de que esses textos, (…), lhe sobreviveriam” (p.26). Sem grandes ilusões, a interlocutora da escritora no livro, prefere, no entanto, mais “a tolerância do que as fogueiras da Inquisição”, mas, alerta-nos para uma realidade que nos persegue sociologicamente em muitos campos e domínios culturais, condicionando negativamente o caracter pessoal de muitos, quando diz:” Mas se reparares, (…), o cadáver da Inquisição ainda revolve a terra em que pretendemos tê-lo enterrado”, (p.29)!!!

A preocupação descrita nas cartas dos fuzilados, quer pela educação, pela generosidade, quer pelos cuidados a terem no futuro, levava-os a enfrentar a morte com a certeza de que não seria em vão!

Essa certeza, só será correspondida, por todos nós, se tivermos como nossas as palavras de acção, de António Vieira. Homem que ”Trabalhava como se vivesse no futuro” (p.26), sem medo, sem preconceitos de espécie alguma, com a coragem de enfrentar determinados poderes ortodoxos instalados nos altares. Vieira “Olhava para o futuro e não tremia, lançava o pensamento sobre as muralhas do mundo, fixando no azul do céu”. Tentaram calá-lo, levá-lo ao esquecimento, mas em vão: “A Inquisição bem tentou—-e a dada altura conseguiu amordaçá-lo, mas não conseguiu queimar-lhe os escritos. Aí estão, até hoje, encandeando-nos com o seu esplendor indecifrado”,(p.30).

Acima de tudo, o que nos deve importar é sabermos que procuramos ser herdeiros daqueles que souberam ter a Liberdade como lema seu!

 Artur FontesAutor: Artur Fontes

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