Incêndios Rurais e Lesados injustiçados. Crónica daquilo que não devia acontecer… Autor: João Dinis

E nos idos de 15 e 16 de Outubro de 2017, o Fogo veio doido com propósitos assassinos, aliás tal como pouco tempo antes já tinha demonstrado.

Rodou e rosnou, o Fogo, projectado pelo Vento cúmplice. Cuspiu chamas, faúlhas e fumo pelo ar e tudo devorou. Vidas, teres e haveres. Campos e aldeias. A Floresta e o ainda verde e o ainda esperança. E assim aconteceu a pior das tragédias e o pior dos dramas e o pior dos desastres. E aconteceu que estivemos abandonados ao Inferno!

E nós estivemos lá. Nós somos as testemunhas na primeira pessoa! Nós somos os sobreviventes e os principais lesados também…depois dos menos afortunados, estes os que foram vítimas mortais…e suas Famílias.

E logo surgiram as lágrimas, sim, sinceras muitas delas. E soaram por rádios e televisões e jornais as promessas de apoios vários, nomeadamente vindas e revindas da parte de várias Entidades oficiais e seus representantes eleitos ou nomeados. Apesar de tudo, promessas esperançosas num momento tão cruel. Mas, não vamos esquecer, são promessas que deveriam ser cumpridas, a seguir. Geraram melhores expectativas a que se agarrou quem ficou destroçado.

E chegou, aos borbotões, a onda de solidariedade concreta de milhares de Portuguesas e Portugueses. Sim, ai dos “pobres” (dos necessitados) se não forem os “pobres” !

E nós, os principais Lesados, continuamos a ser as testemunhas, na primeira pessoa, do que acontece a propósito e a despropósito.

E chegaram os Governantes uns atrás dos outros e contaram-nos estórias de supostos apoios, a jorros, para adormecermos melhor… Acreditámos que precisávamos de acreditar em coisas que nos ajudassem a sobreviver e em corpo e alma.

E o tempo passou e nós continuámos a ser testemunhas na primeira pessoa do que se não cumpria…

Veio, e anda por aí, um ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural e prometeu muita coisa e repetiu e repetiu como um velho disco riscado… Embora contrariado, definiu ajudas aos pequenos Agricultores mas enquanto engendrava confusões a quem a elas se quis candidatar pelo que alguns milhares de pequenos Agricultores houve que não chegaram a candidatar-se e mais milhares ainda viram ser-lhes aplicados cortes nos respectivos montantes em euros e sem que lhes dessem quaisquer explicações.

Instado perante tais atropelos, o mesmo ministro arengava, e arenga, como um velho disco riscado, que o “seu” Governo atribuiu 60 milhões de euros em ajudas, coisa que nunca antes tinha acontecido assim. Pois pudera, senhor ministro “ingénuo”, que também nunca antes tinha acontecido nada sequer parecido com a tragédia e o desastre daqueles Incêndios em 2017 !  E se o Governo “pagou” 60 milhões de euros, e é duvidoso que tenha pagado essa quantia, deixou de pagar pelo menos mais mil milhões de euros ao Mundo Rural que os prejuízos ainda são maiores do que isso!

E vieram, e ainda andam por aí, o Ministro do Planeamento e das Infraestruturas e o Ministro do Ambiente, este agora recauchutado com mais a “Transição Energética”, a prometerem rápidas e eficazes recuperações. O primeiro, a recuperação das Infraestruturas e das Habitações ardidas. O segundo a recuperação Ambiental com a fixação de solos percorridos pelos Incêndios e defesa das linhas de água, dos ribeiros e rios dessas áreas tão castigadas.

E vieram o Primeiro-Ministro e o Presidente da República a sorrirem muito e a garantirem-nos que tudo estava sob o seu alto controlo vias à recuperação, embora dura.

E por aqui giraram e falaram e falaram os Presidentes de Câmara e muito também eles prometeram e até deram como garantido.

E nós acreditámos que precisávamos de acreditar…

Mas o tempo passou e as cinzas e as más recordações mantêm-se por cima e dentro de nós.

Para várias dezenas de Famílias de lesados vem aí o segundo Natal em que são forçadas a viver fora de suas Casas porque estas ainda não foram reconstruídas!

Eis o escândalo! Pois apesar de todas as promessas e apesar de todas as declarações dos principais responsáveis, o facto é que a maioria das Famílias com a primeira Habitação totalmente queimada nos incêndios de Outubro de 2017 ainda não viu, 14 meses depois, as suas Casas recuperadas e vão mesmo ter de passar o segundo Natal seguido fora delas!

E no meio desta profunda injustiça, surgem os “inteligentes” a empolar as alegadas “fraudes” em declarações dos Lesados. Para assim tentarem “justificar” os atrasos, esses sim escandalosos, e para tentarem passar os Lesados para o lugar de culpados pelo desastre que sobre eles próprios se abateu… É perverso!

Enquanto isso, os mesmos responsáveis oficiais e oficiosos – irresponsáveis, proclamo eu! – por certo vão passar mais um Natal quentinhos e aconhegados em suas Habitações. Eles que geraram as expectativas em centenas de outras Pessoas tão fragilizadas, e que as frustraram a seguir, deviam reconhecer que têm andado mal, muito mal, nesse “papel”, tipo de mentirosos compulsivos! Ou não? Ou são insensíveis ao ponto de não conseguirem avaliar a tristeza e a dor que juntaram noutros Seres Humanos?! Então, malditos sejam!

E os Presidentes de Câmara, quase todos, apesar das “choradeiras” em que foram e são “solidários” para connosco, até querem fazer-nos esquecerem que as Câmaras Municipais – por “ordem” deste Governo minoritário do PS — têm à sua (delas, Câmaras) a responsabilidade directa da recuperação das Habitações não Permanentes ardidas, por Lei do Orçamento do Estado para 2018 e já também para 2019. Pois então de que estão eles à espera enquanto ainda mais Gente desespera?! Haja vergonha! E haja Democracia!

 A Floresta está hoje pior do que ficou logo após os Incêndios!

 E naqueles dias e noites de 2017 chegou então o Fogo bravo, chocado pela Seca persistente, alimentado a doses acumuladas de combustível vegetal, puxado a Ventos fortes. Foi pegar aqui…continuar por ali e acolá…queimar mais à frente, e mais à frente…de tudo, ao mesmo tempo, em todo o lado, por quase três centenas de milhar de hectares !  Uma “loucura”!

A Floresta percorrida por tais Incêndios “não teve hipótese”. Ardeu. Dela “sobraram” árvores queimadas, chamuscadas, fragilizadas. Depois, sobretudo o Pinhal sobrevivente ao Fogo está a ser devorado por pragas e doenças de uma forma tão profunda como aquela que causou o Fogo!

O Ambiente sofreu o pior ataque de sempre neste nosso Interior! Sem Floresta não há água, não há humidades, não há fixação de solos e retenção de carbono, falha a produção de oxigénio. Eis o “panorama” natural a que se junta a tristeza, continuada por meses a fio, dos tons negro e cinza da paisagem destruída que também o foi. A que se junta a economia rural seriamente afectada que a Madeira na Floresta “verde” mantém-se com os Preços em baixa e a Madeira queimada passou a valer quase nada pelo que os rendimentos a obter por essa via são nulos e, por isso, não aliviam a difícil situação financeira dos residentes e dos já ausentes destas mesmas Regiões afectadas.

Na tarefa vital de recuperação também da nossa Floresta e do Ambiente, exigia-se uma acção forte, persistente e exercida com toda a sabedoria por parte das Entidades Oficiais com responsabilidades e capacidade de intervenção – integradas – no terreno, envolvendo as Populações que ainda cá estão fixadas. Mas não foi isso que aconteceu e não é isso que está a acontecer. Lamentavelmente! Nós já estamos hoje a pagar essa ”factura” e as próximas Gerações – se por cá se continuar a viver – vão pagá-la também como se de uma pesada herança se tratasse!

Mas nós somos Beirões. Vergamos, sim, vergamos por vezes mas somos como as giestas verdes:- vergamos mas não quebramos! Mas partimos. Partimos quando somos obrigados a sair daqui para fora que também não fomos condenados ao degredo neste nosso Planalto Beirão que nos serviu de berço, nos serve de cama e acabará por nos servir de coval a muito e muitos de nós.

Mas entretanto:

– Não nos tirem o que é nosso! Dêem-nos as condições a que temos direito e de que o País também precisa!

– Nós queremos continuar a viver aqui com quem mais também o quiser!

– A luta continua!

 

Autor: João Dinis

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