“Isto ainda é pior do que no tempo de Salazar”

“É de lamentar que o que é do povo passe a ser gerido por outra freguesia”, refere o autarca, desafiando os defensores da lei a virem a S. Sebastião da Feira anunciar que a “freguesia acabou”.

Correio da Beira Serra – O nome de S. Sebastião da Feira consta do grupo de cinco freguesias a extinguir no concelho. Como é que encara esse facto?
Adelino Coelho –
A notícia foi muito mal recebida. Quando eu me candidatei ninguém me disse que a freguesia iria acabar nas minhas mãos. Para mim foi uma surpresa. Esta é uma freguesia muito antiga, já foi concelho e agora com esta atitude ainda é pior do que no tempo de Salazar. Dizem que a freguesia não vai acabar, mas vai acabar., porque a futura união de freguesias vai ter apenas um presidente de Junta. Eu não tenho nada contra Penalva de Alva, até sou de lá, mas não concordo com a agregação. Desde o início sempre fui contra a extinção da minha freguesia e de qualquer outra freguesia do concelho. Temos uma população bastante idosa que precisa muito da freguesia. Como é que se vão deslocar? Alugam um táxi? As pessoas não têm assim tanto dinheiro. Com o desaparecimento da freguesia vamos ficar prejudicados. Sempre contestámos a extinção e votámos a favor da desanexação de Nogueira do Cravo, porque era uma pena o seu desaparecimento. Mas afinal, agora depois de estarem seguros, também pouco ligaram à manifestação que foi feita nas freguesias. De facto, não vi praticamente ninguém de Nogueira do Cravo. Isso é de lamentar.

O que estão a fazer é um descalabro. Eles deveriam começar de cima para baixo, porque o que está em causa são décimas do Orçamento. Eles que tirem deputados da Assembleia da República. Porque é que não reduzem para metade que chegavam perfeitamente. Já poupavam muito dinheiro. Isso é que deviam fazer e também reduzir os ordenados dos deputados. Ainda há tempos vi uma reportagem onde um deputado dizia que precisa da jorna dos pai para sustentar os filhos. É de lamentar ouvir-se uma coisa dessas. É pô-lo a ganhar mil euros, ou 750 Euros como a maioria das pessoas. Por estarem no governo deveriam começar a cortar por eles, que têm brutas reformas e mais do que um emprego. Mas que é isto? Isto ainda é pior do que no tempo de Salazar.

CBS – Acredita na aplicação prática da lei?
AD –
Sempre acreditei que não. Mas eu tenho visto tanta coisa. Mas poderiam ter avisado há quatro anos, por que assim nem sequer me candidatava, porque não queria ser o coveiro da minha freguesia. Vou eu asfixiar as pessoas? Muitos dizem que nos devíamos ter pronunciado, mas Arganil foi pela pronúncia e a Unidade Técnica chumbou. Se querem mandar, eles que venham aqui à terra dizer que a freguesia acabou. Isto está mal. Nos 12 anos sempre angariei o que pude para a freguesia. É de lamentar que o que é do povo de S. Sebastião da Feira passe a ser gerido por outra freguesia. Se já é complicado gerir a freguesia que têm, quanto mais não vai ser gerirem esta. A freguesia de Penalva é bastante grande porque tem muitas anexas.

CBS – Como é que a população tem estado a reagir?
AC –
As pessoas não se têm interessado muito. Abstêm-se e deixam andar. Gostaria de ver as pessoas mais mobilizadas na defesa da freguesia. Mas o que é certo é que se trata de uma população muito idosa e que vai sentir muito a falta da Junta de Freguesia. A nossa freguesia é a mais pequena, temos 197 eleitores e a maior parte das pessoas tem para cima de 60 anos. Muitas delas nem têm noção do que está para acontecer. Até aqui têm contado sempre com o apoio da Junta.

CBS – Lamenta que tal venha a acontecer no seu mandato autárquico?
AC –
Sim lamento muito. Isto para mim vai ficar marcado. Mas também tenho a minha consciência tranquila. Fiz o que pude. Sentiria-me pior se apenas esta freguesia fosse extinta. Se a minha acabar, outras também vão acabar e com mais população do que S. Sebastião da Feira.

“A extinção vai trazer muitos prejuízos à população”

CBS – Tratando-se de uma freguesia que é a menor do concelho em área e em número de habitantes, não previa este desfecho?
AC
– Não. Devido à história desta freguesia e às condições que oferece, nunca pensei. Podemos ser a freguesia mais pequena, mas temos condições que outras não têm. Temos uma praia fluvial que é uma maravilha e que no verão está sempre cheia. Nem as outras praias têm tanta gente. Mantínhamos a limpeza da praia e da freguesia. Vamos ver se daqui por diante vai ser assim. Vamos ver… A extinção vai trazer muitos prejuízos à população. Ainda agora adquirimos o Parque dos Moinhos para a construção de uma piscina natural. Vai ser um dos espaços mais espetaculares do Vale do Alva. Tenho feito tudo por tudo para que a freguesia ande para a frente, mas se nos tirarem a freguesia, acabam por nos tirar tudo. Vamos ficar para trás e esquecidos. Tudo o que era nosso vai passar para outra freguesia.

CBS – Exerce o terceiro mandato à frente da Junta de Freguesia. O que é que mudou na freguesia por via da sua passagem?
AC –
S. Sebastião da Feira mudou muito. O meu antecessor fez o que pode. Mas quando tomei posse há 11 anos tínhamos graves problemas. A água da rede pública era imprópria, era vermelha, e com o anterior presidente da Câmara consegui que se fizesse um depósito novo para abastecer a freguesia. Resolvi o problema das águas, fiz o parque de lazer junto à Ponte das Três Entradas, as valetas e coloquei iluminação. Realizámos também vários trabalhos de calcetamento, alcatroamento e beneficiação de várias ruas da freguesia. Fui eu que providenciei o brasão para a freguesia.

CBS – A freguesia continua a ter problemas de esgotos por resolver…
AC –
Falta-nos uma bomba elevatória que conduza os esgotos de uma zona mais baixa para a ETAR que já foi feita neste mandato. Temos ali um problema. O presidente da Câmara diz que é um trabalho da responsabilidade da Águas do Zêzere e Côa, mas como o problema tarda a ser resolvido já admite avançar com a obra.

CBS – Como classifica a freguesia de S. Sebastião da Feira? Quais os serviços ao dispor da população?
AC –
Temos aqui um problema na área da Saúde. Temos boas instalações, mas já há mais de seis anos que não temos médico. As pessoas recorrem a Santo António do Alva e Avô. Outra questão tem a ver com o centro de saúde que está previsto arrancar em Avô, mas que na minha opinião deveria ser antes construído na Ponte das Três Entradas, pela centralidade. Numa reunião com a ARS Centro ficou decidido que o futuro centro seria construído na Ponte das Três Entradas, mas afinal as burocracias e as políticas acabaram por mudar tudo. O que é uma injustiça. Ainda protestei, há cerca de dois anos, mas nem resposta me deram. Já está decidido por políticas erradas. Na Ponte das Três Entradas, o centro de saúde era mais central, ficando a cinco quilómetros de Aldeia das Dez, Avô e Alvôco de Várzeas, a 2,5 quilómetros de Santa Ovaia e 1,5 quilómetros de S. Sebastião da Feira… tínhamos boas condições e terreno garantido para fazermos a obra. As políticas que são pagas com o nosso dinheiro puxaram a obra para Avô. Na área da Educação temos o Agrupamento de Escolas do Vale do Alva e, no domínio social contamos com o apoio da Cáritas que mantém ativo o Centro de Dia.

CBS – Em matéria de emprego, qual é a realidade?
AC –
Não há grandes postos de trabalho. Eu próprio tenho uma pequena empresa de construção civil e há aqui mais um colega que dá algum trabalho. Também temos um talho e um restaurante na Ponte das Três Entradas. Também temos alguns casos de desemprego e um ou outro caso de maior pobreza, mas também porque querem. Pessoas que recebem reforma, se a gerissem bem não precisavam de passar mal. É sobretudo falta de orientação.

“O presidente da Câmara tenta não discriminar ninguém”

CBS- Foi reeleito pelo PSD num mandato em que a Câmara Municipal é governada pelo PS. Como descreve as relações entre ambas as estruturas autárquicas?
AC
– Ótimas. Já conhecia o professor José Carlos Alexandrino. Não tenho nada a dizer acerca dele. Pelo contrário, já foi com ele que comprámos o Parque dos Moinhos e que beneficiámos alguns espaços da freguesia. O presidente sabe que não o apoiei e até tivemos um diferendo, mas já está ultrapassado. Tem estado tudo bem e o presidente tenta não discriminar ninguém. Não faz tudo o que prometeu porque tem sido alvo de cortes e mais cortes. Mas o que prometeu às freguesias tem estado a cumprir e isso é muito bom para nós. Eu tento gerir da melhor forma o subsídio que nos é dado. Também devo referir que conto com uma boa equipa. Os elementos com que entrei no primeiro mandato têm-me acompanhado. E tenho uma coisa boa, é que quando me meto em questões do povo dedico-me mais do que à minha própria vida. Nos quatros anos que estive no clube, fiz muita obra, equipei o clube e ainda o deixei com dinheiro.

CBS – Caso S. Sebastião da Feira escapasse à lei da extinção de freguesias equacionava integrar uma lista candidata à Junta de Freguesia?
AC-
Nem que a Junta continue, não vou fazer parte de nenhuma lista. Tenho descurado muito a minha vida pessoal e profissional. É preciso dar oportunidade a outros. Não é só criticar, é preciso vir e então fazer melhor do quem cá está.

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