Já está de dieta a pensar no Verão? As aves não pensam o mesmo

De que forma a transformação em Portugal das zonas húmidas costeiras em arrozais está a alterar a dieta das aves que ali passam o inverno? Estará essa alteração a prejudicar os seus voos migratórios até ao norte da Europa? O biólogo da Universidade de Aveiro (UA) José Alves receia que as alterações possam, de facto, afetar os planos de voo destas aves. O estudo inédito realizado com aves selvagens foi publicado no último número da revista Journal of Exeprimental Biology.

Com a chegada da Primavera o exercício e a dieta começam a ganhar força na antecipação da época estival que se aproxima, para que a forma física seja a melhor possível no Verão. Contudo, há espécies de aves que estão no curso inverso e para as quais o importante é engordar, de forma a essa mesma época do ano com a melhor condição corporal possível.

“Para as aves limícolas migradoras que viajam milhares de quilómetros até as suas áreas de reprodução no norte da Europa e no Ártico é fundamental adquirir peso, pois é a massa gorda que serve de combustível para os seus longos voos”, lembra José Alves, investigador do Departamento de Biologia (DBio) e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da UA.

Uma boa condição corporal na chegada aos territórios de reprodução permite também rapidamente iniciar a postura dos ovos, o que é um fator determinante do sucesso reprodutor a altas latitudes, uma vez que o curto Verão ártico limita a duração do período reprodutor. Nestes locais, as aves que se atrasam na reprodução frequentemente não conseguem levar as suas crias a voar para fora do ártico antes que as baixas temperaturas cheguem e as suas presas fiquem inacessíveis debaixo da neve e do gelo. Assim, para as aves limícolas migradoras é fundamental chegar em boa condição corporal e a tempo e horas aos locais de reprodução.

Contudo, a crescente destruição de habitats naturais destas aves, nomeadamente a conversão de zonas húmidas costeiras em locais de forte intervenção humana como sejam as culturas inundadas de arrozais, criou para algumas das espécies uma considerável alteração na dieta.

“Estas aves que nos seus habitats naturais se alimentavam de animais invertebrados, tendo uma dieta de base proteica, essencialmente constituída por invertebrados bentónicos, passaram a alimentar-se dos restos da colheita de arroz convertendo-se a uma dieta vegetal, quase exclusivamente constituída por carbohidratos e contendo cerca de 10 vezes menos gordura”, explica o investigador.

Estudo inédito com aves selvagens

Com o objetivo de perceber se as aves com esta nova dieta conseguiriam adquirir os lípidos essenciais aos seus voos migratórios, particularmente os ácidos gordos mono- e insaturados, José Alves, juntamente com colegas da Universidade de Coimbra (CNC, CFE e MARE) e da Universidade da Extremadura (Espanha), investigaram a composição lipídica de indivíduos da espécie maçarico-de-bico-direito (Limosa limosa).

Esta espécie, aponta, “foi selecionada pois ocorre em habitats estuarinos naturais (vasa-internatidal e sapal), mas tem vindo a utilizar os arrozais com crescente frequência, formando grandes bandos nos arrozais portugueses [podem chegar a atingir as 80 mil aves nos arrozais do estuário do Tejo], antes de migrar para as suas áreas de reprodução no norte da Europa”.

Neste estudo publicado no final da semana passada na revista Journal of Exeprimental Biology, um grupo de maçaricos foi alimentado com arroz não processado e outro com larvas de mosca de composição semelhante à dieta tradicional de proteína animal.

Com recurso a um marcador de deutério incluído na água fornecida às aves e recorrendo a técnicas de ressonância magnética nuclear, foi possível aos investigadores detetarem nas amostras de gordura recolhidas por biopsia nos maçaricos da dieta de arroz, que estes não só conseguiram obter níveis de ácidos gordos insaturados idênticos aos encontrados nos maçaricos alimentados com a dieta animal, mas apresentaram também níveis significativamente superiores de ácidos gordos monoinsaturados.

 Gordura (ainda) é formosura!

Aplicando estas técnicas inovadoras pela primeira vez em aves selvagens, os investigadores comprovaram que os maçaricos possuem uma elevada plasticidade metabólica, convertendo através de lipogénese de novo, os hidratos de carbono obtidos na dieta de arroz em gordura. Contudo, os maçaricos que se alimentam de uma dieta animal rica em proteína e lípidos, conseguem obter níveis superiores de ácidos gordos poli-insaturados de melhor qualidade, o que lhes poderá ser favorável nos voos migratórios.

“Resta agora saber se as taxas de deposição destas gorduras a partir de dietas diferentes são similares ou se a lipogénese de ácidos gordos nestas aves poderá ser mais morosa e provocar atrasos na hora de partir para a migração”, diz José Alves. No sentido de encontrarem novas respostas, a equipa prepara já novos estudos para perceber como estas aves conseguem responder às alterações do seu habitat e se estas adaptações podem vir a ter consequências nas seguintes fases do ciclo anual, neste caso na migração e reprodução.

Mas para já, lembra José Alves, “pode-se concluir que pelo menos para algumas espécies, gordura ainda é formosura”.

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