Várias centenas de pessoas assistiram ontem – quarta-feira de cinzas – à tradicional leitura das “Deixas” de Lagares da Beira.

Leitura das “Deixas” de Lagares da Beira terminou em desacatos

Trata-se de uma tradição que, de acordo com o que referiu ao correiodabeiraserra.com o presidente da junta de freguesia local, tem “mais de 40 anos de história”. Raul Costa diz que “ainda era miúdo” e já a “corrida do Entrudo” – como antes se designava – percorria as ruelas e vielas de Lagares da Beira.

O cerimonial era no entanto realizado durante as primeiras horas da madrugada, já que a polícia política do Estado Novo – a PIDE – não achava muita graça a este tipo de festejos carnavalescos. A organização estava a cargo de “alguns grupos” de habitantes locais que, ano após ano, se iam revezando nas tarefas inerentes ao enterro do Entrudo e à polémica leitura do seu testamento. Hoje, é a associação humanitária dos bombeiros voluntários que mantém a história de pé.

Pese embora o facto de a tradição já não ser o que era – ontem, pela primeira vez na história do Carnaval de Lagares da Beira, o “padre” que acompanhava o Entrudo perdeu a compostura e envolveu-se numa lamentável cena de pugilato com um foliante –, as “Deixas” lá saíram à rua logo após o desaire desportivo do Sporting em Alvalade frente ao Bayern de Munique.

Transportado numa urna de onde sobressaía um pénis muito “enviagrado” e uns cornos bem afiados, o entrudo ia acompanhado por a respectiva irmandade, a viúva, o padre e o “leitor das deixas”, que ia revelando à população o testamento deixado pelo falecido. Como no Carnaval ninguém leva a mal o testamenteiro lá cumpriu o ritual e, na quarta-feira de cinzas, junto à farmácia da terra, começou a ler as primeiras deixas – uma espécie de “cantigas de escárnio e mal-dizer” que retratam vários episódios caricatos em que, muitas das vezes, sobretudos para aqueles que andam mais informados sobre o “diz que disse”, se percebe que nem sempre a semelhança com a realidade é mera ficção.

A primeira “deixa” foi dirigida à rainha do Carnaval de Lagares da Beira. Reza assim: “Deixo à Rainha do Carnaval uma dança de encantar. Não sei se ia a dançar ou se ia a coxear; Deixo-lhe ainda uma cinturinha de formiga; Para poder desfilar no Carnaval, usou a cinta para apertar a barriga”. Para gáudio da assistência, seguiu-se a leitura de outras tantas. São muitas “deixas” que foram sendo escritas e, posteriormente, depositadas em “urnas de deixas” que se encontravam em vários locais públicos da freguesia.

Conforme documentam os vídeos, a crítica a comportamentos e atitudes do quotidiano lagarense é muitas vezes feita numa linguagem vernácula. A maior parte das pessoas ri-se e acha graça, mas também há quem mostre algum incómodo perante tanta irreverência. Tanto assim é que, nos anos 80, houve quem se sentisse atingido na sua honra e dignidade, e as “deixas” passaram a ser lidas pelo Juiz do tribunal Judicial de Oliveira do Hospital que, no entanto, optou pela absolvição dos acusados.

Desacatos mancham leitura das deixas em Lagares da Beira

Quem não absolveu as “Deixas” de 2009, foram entretanto muitos dos populares que, no largo da Feira, ficaram estupefactos com a última leitura do testamento. Tudo estava a decorrer dentro da normalidade, mas uma desavença entre o “padre” e um elemento do público cedo se transformou numa cena de pancadaria. “Pouca vergonha. Isto é uma garotada”, sentenciou logo um septuagenário ao passo que dizia nunca ter visto “nada assim”.

O leitor das deixas ainda quis retomar os trabalhos de testamenteiro, mas em poucos segundos já eram muitos os que se afastavam com receio de serem envolvidos na pancadaria. Com a folia manchada por este incidente, alguns dos acompanhantes oficiais do Entrudo também lamentaram a parte final das deixas e, um deles, quase chorou de raiva.

Mas pronto: embora com meia-dúzia de gatos pingados, e já sem a viúva, o Entrudo lá foi queimado junto ao quartel dos bombeiros locais. Cumpriu-se a tradição.

Este é um episódio que o presidente da junta diz lamentar.

Raul Costa é de opinião que as deixas “devem ser reformuladas e dignificadas” e defende a importância de se continuar a assegurar a realização deste “Adeus à Carne” mas em moldes diferentes. 

Para ter acesso a outros vídeos ontem produzidos por este diário digital durante a leitura das deixas, clique aqui para entrar no nosso canal de vídeo.

 

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