“Vivemos com o que recebemos, mas marcamos a vida com o que damos.”

Poucas são as novidades da rotina politica que merecem hoje, registo crítico. Certamente que a esta opinião exaurida, não é alheio o facto de, enquanto os meus dedos deambulam pelo teclado, a vontade de nada escrever, sair perdulária, por este ser um texto que a agudeza da necessidade do jornal impôs, e que o meu pouco vagar desprevine de grandes considerações.

Ligações imprevistas

Mas isto supera-se, porque o que é preciso é possível, e se tudo isto estiver errado, que pelo menos sirva para atestar a favor do direito natural à preguiça e ao doce remanso.

Conto isto, não por cabotinismo, mas porque vivendo todos nós de determinismos vários, não paramos para olhar o nada, essencialmente porque não nos apetece perder tempo. Na semana passada, descia a Rua do Colégio a pé – a claustrofobia da rua, torna há muito enfadonho o acto de circular ali de carro e apeteceu-me perder tempo. Era mesmo o que queria fazer. E subtilmente algumas das pessoas desprevenidas que encontrei, sabe-se lá porquê… constituíram deleite mais que suficiente para – como olhar agrafado às etiquetas de gestos e falas, que substanciam a camada subterrânea da vida de cada um – se assumirem como marca do nosso tempo complexo, em que as noções de significado, percepção, consistência, objectividade e paradoxo, não são mais as mesmas.

Entrei na Casa da Cultura César de Oliveira, subi à biblioteca, pedi um livro, não requisitável para leitura por não existir ali, e tentei pela segunda vez fazer uso daquele espaço internet. Submergi num nada fazer, que durou 1 hora, e o meu silêncio comprometido, não alterou o circunstancialismo indefensável, que motiva a disponibilidade de computadores aos visitantes, razão iniludível, para afirmar aqui, que aquilo parece funcionar de improviso e de modo enrascado. E para que isso não persista, bastará fazerem executar o preceito, de que o tempo de uso de computadores em trabalho, por parte dos utilizadores, se sobreporá na preferência de utilização, em desfavor do ócio de muitos, e será deste modo, adoptada a regra, que conheço noutros espaços congéneres.

Mas o mais interessante, por muito que isso incomode, era a média de idades dos ciber-utlizadores naquela tarde fria, a rondar seguramente os 12 anos. E digo isto sem dedo levantado, a julgar tudo que lhe seja minimamente estranho, mas deixar crianças sozinhas neste mundo virtual, será o mesmo que deixá-las perdidas num local desconhecido no mundo real. Ao ciberespaço, atribui-se um quadro de facilidades, servido por emoções primárias, potenciadas pela criação de comunidades de conversa entre pessoas estranhas. Que se assumem como personagens fictícias de uma amizade virtual, imponderada, mas espirituosa, versada numa agremiação de indivíduos que, se excluem de uma realidade linguística comum, e passam a comunicar num códice de caracteres, que não se subordina a um elenco de categorias de comunicabilidade, para o entendimento geral e comum. E muitos daqueles miúdos, não têm a noção exacta, que poucos interlocutores depõem a máscara que usam. E pelo que, me tem sido dado averiguar, centenas de “putos” deste concelho, filhos de pais, que não sabem como se ocupam os seus filhos ao computador e afinal que jogos são: o Travian ou o TribalWars (que aliás jogo, e que não são mais que jogos de guerra e estratégia medieval), que deviam ser vedados a utilizadores menores de idade, e onde milhares de mensagens trocadas sem controlo, denunciam quem são e onde moram, ao ponto de uma amiga minha, moradora em Sintra, enquanto jogadora, me ter perguntado, se conhecia em Oliveira do Hospital, o miúdo X, que morava na rua XPTO, tinha um canídeo da raça Y, uma mãe fulgorosa de nome H e um pai espadaúdo de nome G, informações compactadas com assombrado desassombro, num formato minimalista, como se aos 12 anos, fosse razoável, aspirar à vertigem de um exibicionismo adolescente.

É um facto que a maioria dos pais, não conhecem, ou sabem do que falam, quando os filhos dizem que conversam no msn ou têm amigos no hi5. Admitem o seu analfabetismo digital, que na perspectiva de quase todos, os desresponsabiliza, sobretudo, porque muitos parecem esquecer, que os pais, são a primeira entidade reguladora, de todos os comportamentos dos seus filhos. È indesmentível, que hoje as crianças já não acreditam nisto: em morar em árvores. Já não acreditam que é possível morar dentro delas, sobre elas, ou na mais ingénua das hipóteses, com elas. Talvez por isso – não sei – há crianças, que parecem estar a perder a facilidade de se rirem de si próprias e de formular as suas próprias caricaturas. Claro que, a internet é importante, cada vez mais, significa ser alfabetizado, apto à integração e sobrevivência no mercado de trabalho. Mas se os pais estão obrigados a compreender que se a escola são direitos das crianças, a play station, a televisão, o computador (e o Messenger), e as sms’s, também não deixam de o ser. É então que pergunto, há reacção geral. Se um sistema que ensina a escrever, ler e pensar pode ser secundário? E isto parece que é uma visão prospectiva do que aí vem.

Lusitana Fonseca

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