“Lourosa parecia uma freguesia do terceiro mundo”

 

… o eleito pelo PSD destaca o saneamento e abastecimento de água como a principal conquista de um mandato marcado pelas comemorações do jubileu da Igreja Moçárabe. Decidido que está, também, em dotar a freguesia de um lar de idosos, o autarca dá a recandidatura como certa. “Não sei é por que partido”, avisa.

Correio da Beira Serra – A freguesia de Lourosa tem vindo a marcar a agenda cultural e religiosa do concelho devido às comemorações do jubileu e 1100 anos da igreja moçárabe. O que é que mudou na freguesia? Tal facto tem sido uma mais valia?
Américo Figueiredo –
A mais valia foi em torno da união entre a população que estava um pouco afastada. O jubileu conseguiu aproximar as populações que, agora, estão envolvidas na organização das comemorações. Estamos a preparar a Feira Medieval que vai acontecer em agosto e, numa reunião recente realizada aqui na junta de Freguesia que juntou mais de 20 pessoas, notou-se o empenho de todos em colaborar. Isso é muito bom, porque havia muita desunião.

CBS– A freguesia de Lourosa também é um pouco dispersa…
AF –
É verdade. No total são 13 anexas. A freguesia é muita extensa e a população está distribuída um pouco por todo o lado, havendo algum distanciamento entre as pessoas. As comemorações agora ajudaram a unir a freguesia em torno de um objetivo comum. Ainda ontem recebi aqui os presidentes das várias coletividades da freguesia que mostraram todo o interesse em participar na Feira Medieval. Há um empenho a 90 por cento.

CBS – Depois da cerimónia de abertura das comemorações, a Feira Medieval surge como o segundo grande momento das comemorações?
AF –
Sim. E a nossa ideia é fazer com que a feira venha a ter continuidade em Lourosa. Tanto a Junta de Freguesia como a Câmara Municipal deseja que a feira passe a ter periodicidade anual e passe a figurar como um marco da freguesia.

CBS – À espera de melhores dias está a desejada requalificação da zona envolvente à Igreja Moçárabe. Qual o ponto da situação?
AF –
Tudo aponta para que a obra seja feita em 2013. Numa reunião recente com o presidente da Câmara Municipal confrontei-o com duas obras importantes para Lourosa: a estrada que liga Lourosa ao Barril, em Arganil, e a requalificação da zona histórica. O senhor presidente disse-me para estabelecer prioridades. Claro que coloquei a estrada em primeiro lugar, porque durante as comemorações do jubileu não podemos estar a mexer na zona envolvente à igreja. O presidente prometeu-me que a estrada avança este ano e que a requalificação da zona histórica irá ter lugar em 2013.

CBS – Mas já há alguma garantia de financiamento de requalificação da zona histórica?
AF –
O presidente da Câmara disse que estão a tentar financiamento, mas também me garantiu que executará a obra, quer haja ou não haja apoios.

CBS – O templo moçárabe estava esquecido?
AF –
Sim é um facto. Quer a igreja, quer a freguesia estiveram muito tempo esquecidas e agora renasceram. Foram muitos anos de esquecimento, mas felizmente já começamos a ver supridas algumas das principais carências.

CBS – O saneamento básico e o abastecimento de água ao domícilio eram casos gritantes na freguesia…
AF –
Sim e ainda temos alguns problemas para resolver na sede de freguesia, onde ainda não existe saneamento. Em Pinheirinho, Casal de Abade e Cabeçadas, Outeiro e Galvã está tudo resolvido. Isto foi uma guerra durante muito tempo. Lourosa parecia uma freguesia do terceiro mundo. Havia situações muito degradantes.

CBS – Esta conquista já foi conseguida no atual mandato autárquico…
AF –
As obras já tinham sido adjudicadas pelo anterior executivo, só que a empresa entrou em insolvência e os trabalhos pararam. A obra foi continuada e concluída com o atual executivo municipal. Isto foi super bom para freguesia. Agora está tudo mais ou menos normalizado. Depois da estrada feita, o adro da igreja arranjado e o resto dos esgotos prontos ficamos aqui como o peixe na água. Ainda falta água ao domicílio numa pequena parte de Pombal, mas esperamos que seja resolvido em breve. Depois temos casos como o Campo e Quinta da Meda onde não se pode pôr saneamento porque é uma casa aqui e outra acolá… Não há hipótese, cada casa tem que ter a respetiva fossa.

CBS – Considera tratar-se da grande conquista da freguesia?
AF –
Lá isso foi. Sinto-me orgulhoso por este problema ter sido resolvido no meu mandato.

“Agora não podemos parar…”

CBS – Ainda de volta à Igreja Moçárabe, o toque do sino continua a ser a forma que os visitantes têm para poder aceder ao monumento. Gostava de ver alterada a situação?
AF
– Para estar aberto é necessária a presença de uma pessoa diariamente. Para isso é preciso pagar e onde é que vamos arranjar o dinheiro? Era uma boa solução, mas também tinha que ser todos os dias da semana. Mas também temos outro problema, é que há semanas em que não aparece cá ninguém e há outras em que aparecem quatro, cinco e seis pessoas. Está aqui uma semana uma pessoa a olhar para as árvores. Já falámos sobre o assunto com a vereadora da Cultura que já se disponibilizou para afixar os contactos da Câmara para que possam ser usados por quem quer visitar a Igreja, porque a Tia China já começa a ficar cansada.

CBS – A maior atratividade não passará por uma melhor aposta na divulgação e promoção do património histórico da freguesia?
AF
– Pois o problema é esse. Agora com as comemorações tem havido maior divulgação, mas antes não existia nada. Agora não podemos parar e temos que ir mantendo algumas iniciativas para atrair visitantes.

CBS– A freguesia tem condições para acolher os visitantes que acorrem à igreja? O que é que Lourosa tem para oferecer?
AF –
Aí está outro problema. Condições não temos nenhumas. Não temos um café onde se possa beber uma garrafa de água. Havia um que abria à tarde, mas fechou. Temos casa de banho na casa paroquial, mas que só está aberta quando a Tia China é chamada pelo toque do sino para abrir a igreja. Este é outro grande problema. Por norma, a porta está fechada e quem chega não pode aceder a uma casa de banho pública. Era importante termos, junto à igreja, um espaço de promoção do monumento e que prestasse informações aos visitantes, mas nas imediações também não há ninguém que arrende nada.

CBS – Qual a realidade em matéria de ensino e prestação de cuidados de saúde na freguesia?
AF –
A escola de Casal de Abade encerrou no ano passado, mas tinha que ser, porque não tinha condições. Todos os alunos da freguesia, cerca de 40, frequentam a escola de Lourosa que tem excelentes condições. E Deus nos livre que ela fecha. A junta de Freguesia assegura o transporte dos alunos. De saúde é que não estamos tão bem. Tínhamos posto médico, mas fechou há cerca de dois anos. Escrevi várias vezes à diretora do Centro de Saúde e nunca me deram resposta. O médico deixou de vir e ponto final. Antes vinha a médica à quarta-feira, mas também só atendia seis pessoas. Eu cheguei a vir para cá às três da madrugada. Apenas afixaram um papel a dizer que a médica deixava de vir e que a população deveria acorrer ao Centro de Saúde. Atualmente, as pessoas têm que ir a Oliveira do Hospital , mas muitas vezes não têm consulta e vêem-se obrigadas a recorrer e médicos particulares.

CBS – A freguesia tem vindo a perder população. A que se deve tal facto? AF – Perdemos mais de uma centena pessoas. Uma situação que se deve à falta de condições a que se assistia na freguesia e também à falta de postos de trabalho. Temos mais idosos do que jovens. Daqui por 20 anos não sei como é que vai ser aqui em Lourosa. Muita gente fugiu para Tábua e Arganil, porque lá os andares são mais baratos.

CBS – Corre risco de extinção?
AF –
Até ver não, mas não sei como será daqui por alguns anos. Já não me admira que também queiram deitar a nossa freguesia a baixo.

CBS – Como olha para o processo de extinção de freguesias?
AF
– Esta lei não me diz nada e estou contra ela. Apesar de a minha freguesia não correr risco, sou contra a lei. Isso é um erro que o Estado está a fazer e é um erro dos graves. Se esta freguesia fechasse, onde é que a população maioritariamente idosa acorre. Só há transportes às 08h00 e às 17h00, como é que as pessoas se deslocam. O que acontece aqui, também acontece nas restantes freguesias. Isso é um erro. Estamos a 18 quilómetros da sede de concelho. Sou contra e concordo com a ideia de não pronúncia. Quem fez a lei foi o Estado e então que sejam os governantes a vir cá. Eles que venham dizer às pessoas que vão encerrar as freguesias. Têm que ser eles, não é meter a batata quente nos presidentes de Junta e na Câmara.

CBS – A freguesia assegura postos de trabalho? Qual a realidade do desemprego na freguesia?
AF –
Aqui não há nada de emprego. Há uma ou outra empresa de construção mas de reduzida dimensão. Na sede de freguesia nem um comércio existe. Nas anexas é que vai havendo algum movimento com as associações que vão mantendo os cafés abertos. Aqui não temos nada. Ainda assim não temos grade razão de queixa no que respeita ao desemprego. Temos muita gente a trabalhar em Lagares da Beira e nos Aquinos. Podemos vir a ter problemas, mas neste momento está estável. Só nos Aquinos trabalham mais de 20 pessoas, entre os quais casais, esperamos é que empresa se mantenha como até aqui, porque caso contrário teremos situações aflitivas na freguesia.

“Não digo mal do outro executivo, mas estou a trabalhar melhor com este executivo municipal”

CBS – Exerce o segundo mandato pelas cores do PSD. Como avalia a relação com o executivo municipal socialista?
AF –
Esse é um ponto muito interessante. Quando ganhei as eleições disse aos meus colegas que iríamos ter quatro anos de degredo porque a Câmara Municipal é do PS e nós fomos eleitos pelo PSD. Enganei-me totalmente. Estou a trabalhar com este executivo a 100 por cento, ou pelos menos a 99 por cento. Não digo mal do outro executivo, mas estou a trabalhar melhor com este executivo. E aquele gabinete de apoio às freguesias tem valido muito. O professor Daniel é cinco estrelas, o presidente da Câmara e os vereadores também são cinco estrelas. Estão todos sempre prontos para me atender. E uma coisa que admiro no presidente da Câmara é de fazer questão de me cumprimentar, mesmo quando estou a tratar assuntos com o professor Daniel. Isso é muito bom, porque eu antes estava ali, com colegas meus, à espera duas e três horas para ser atendido e acabava por vir embora sem ser recebido. Com este presidente tem sido totalmente diferente. É um homem aberto, um homem bom que gosta de ajudar as pessoas e que não distingue os presidentes do PS dos do PSD. Fiz muito trabalho nestes dois anos e meio que nunca pensei fazê-lo. E no que respeita às comemorações do Jubileu, a professora Graça tem sido exemplar, é incansável. Admiro o empenho e vontade que tem em avançar com as coisas. Se não fosse a Câmara não tínhamos o programa cultural que temos.

CBS- Pretende dar continuidade ao trabalho feito até aqui? O que gostaria ainda de fazer na freguesia?
AF
– Eu ainda queria fazer muita coisa, mas os dinheiros são poucos. A minha maior paixão era fazer aqui um lar da 3ª idade. Depois disso não me importo de ir embora e até desaparecer da política. A freguesia tem população muito idosa e não tem para onde ir. Estamos a tentar comprar o terreno da antiga feira, e espero ter a colaboração da Câmara. Temos Centro de Dia pela Santa Casa da Misericórdia de Galizes, mas não é suficiente. Vou-me recandidatar, mas não sei por que partido. A atual Comissão Política do PSD foi quem deu cabo do partido. Se o deitaram abaixo agora querem reconstrui-lo? Não alinho com aquela equipa, ainda que tenha muito respeito por algumas pessoas que lá estão. Não alinho nisso. Eu quero continuar, depois logo se vê por que partido.

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