‘Mais fina flor das ETARs’ já funciona em Alvôco de Várzeas

TDT e extinção de freguesias são outras das preocupações do presidente da Junta que se confessa arrependido de entrar nas lides autárquicas, mas que também não coloca de parte a possibilidade de uma recandidatura.

Correio da Beira Serra – Devolveu a Junta de Freguesia de Alvôco de Várzeas ao Partido Socialista. Volvido meio mandato, qual o balanço que faz do trabalho realizado?
Agostinho Marques
– Não me cabe a mim fazer um balanço. No entanto, acho que é positivo, embora ainda não tenha feito tanta obra como eu desejo e a freguesia necessita. Devo dizer que tivemos alguma atividade, algum trabalho não muito visível que conferiu melhores condições de vida à população de Alvôco de Várzeas. Havia pequenas coisas que estavam por fazer. Sinto um certo orgulho, por exemplo, no trabalho que fizemos no edifício do jardim de infância que tinha poucas condições e a professora queixava-se porque entrava frio por todos os lados e as crianças tinham que passar pela rua para poderem ir à casa de banho. Gastámos ali umas coroas e não é muito visível. Mas a verdade é que demos boas condições aos alunos que aumentaram de sete para 19. As famílias estão satisfeitas porque o espaço tem condições.

CBS – A construção da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) foi uma das batalhas que já travou tendo em conta a oposição feita pelo movimento “Salvem Alvôco de Várzeas”. Qual é o atual ponto da situação? A estrutura já entrou em funcionamento?
AM
– Sim. A ETAR está pronta. Já entrou em funcionamento há três semanas e ninguém deu por isso. As pessoas tinham receio do processo de transição das fossas para a ETAR, porque temiam o aparecimento de cheiros, mas ainda ninguém deu conta. Já está a trabalhar, embora haja ainda uns pequenos pormenores por acabar, como é o caso da boca de água que, atualmente, está perto do açude e deverá ficar abaixo do açude. Houve ali um contra tempo com o proprietário da Quinta da Moenda, mas já se chegou a acordo e está-se a estudar uma solução melhor. Falta também o tratamento terciário que necessita de corrente trifásica e a EDP já está a tratar do assunto. Só depois disso é que esse tratamento entrará em funcionamento. Agora a água já sai limpinha e depois desse tratamento fica totalmente tratada.

CBS – As antigas fossas já foram desativadas?
AM –
Já está tudo desativado e estão a ser desfeitas. As lamas foram levadas para uma estação de tratamento e estamos a tirar cimento e a aterrar o local.

CBS – Acabaram os esgotos a céu aberto que chegavam a escorrer por terrenos agrícolas?
AM –
Essa situação já é passado. Já desde há três semanas que todas as águas residuais estão a entrar na ETAR.

CBS – Com esta ETAR a freguesia vê resolvidos todos os problemas ao nível de saneamento?
AM –
Sim e esta é uma das conquistas deste mandato, apesar de outras matérias que me têm ocupado bastante tempo. Mas também não poderei dizer que este movimento que se bateu contra a ETAR não teve algo de positivo. Possivelmente o tratamento terciário e algumas melhorias não estavam sequer previstas. Neste momento, a ETAR quase não se nota na paisagem e ainda vai ficar melhor quando forem plantadas as árvores como está previsto no projeto. São várias as pessoas que elogiam aquela obra que está toda revestida com xisto. O movimento “Salvem Alvôco de Várzeas” acalmou e alguns elementos também já me disseram que foram importantes para que a ETAR esteja da forma que está. O próprio engenheiro que acompanha a obra me disse que já fez muitas ETARs, mas que esta é a mais fina flor das ETARs.

CBS – Outras das suas preocupações prende-se com a TDT. Em contagem decrescente para o apagão como é que está esse processo?
AM –
Neste momento o transmissor de S. Macário desligou, mas nós continuamos a ter televisão, por alguma boa vontade de amigos que nos ajudaram a solucionar um pequeno problema do retransmissor. Continuamos a receber sinal analógico até 26 de abril. Só não temos a TVI, mas já antes tínhamos essa falha porque só quem apanhasse o sinal do transmissor da Lousã é que acedia à TVI.

CBS – Atualmente que garantias é que têm?
AM –
Não temos garantias nenhumas. Eu estive com o administrador da ANACOM, Eduardo Cardadeiro, na Assembleia da República e lá tive oportunidade de lhe dizer que fiquei mais satisfeito com as declarações que prestou em relação ao nosso retransmissor. É que na ocasião o senhor administrador disse que todos os retransmissores com protocolos com a PT estavam a ser revistos e que , possivelmente, são os que têm mais possibilidades de continuar a ter aparelhagem retransmissora. Sendo assim, como nós temos esse protocolo com a PT acredito que venham alterar o nosso retransmissor. Mas não há certezas de nada .

CBS – Mas já há notícia de algumas exceções em vários pontos do país…
AM –
Já arranjaram solução para Pampilhosa da Serra que nem sequer tinha retransmissor e onde fizeram tudo novo para 1600 pessoas. Nós não precisamos que façam nada de novo, basta mudar os aparelhos. Já temos estudos feitos por pessoas credenciadas, que nos garantem que o nosso retransmissor não colide com outros retransmissores e que tem capacidade para servir 2800 pessoas das freguesias vizinhas de Alvôco de Várzeas, incluindo a Vide que, através de um pequeno ajuste poderá ser servida pelo nosso retransmissor.

Esta migração está a ser feita um pouco no ar, por pessoas que não conhecem muito bem as realidades locais, ou não quiseram conhecer. Mas as populações não se deixaram ir e também não poderiam, porque nós estamos numa zona do interior onde há populações muito idosas e com fracos recursos financeiros e onde a televisão é a única companhia.

Eu já há muito tempo que antevia esta situação. Fui o primeiro a levantar este assunto na Assembleia Municipal e até parecia que estava a pregar para os peixes. A Câmara Municipal tem estado do nosso lado e o nosso amigo Fernando Andrade também nos tem dado muita informação privilegiada e nunca deixou de nos apoiar.

CBS – Está confiante na boa resolução deste processo?
AM –
Já estive menos confiante do que agora. Não podemos adormecer, porque as pessoas que mais se calam serão as mais esquecidas. Fizemos uma reunião com presidente da Câmara e com um administrador da PT em Lisboa, Manuel Rosa, e ele prometeu que mandava um técnico à freguesia para avaliar este assunto, mas nunca cá veio ninguém. Vamos ter que escrever à PT a perguntar o que é que realmente eles pretendem fazer com o nosso retransmissor.

CBS – Na freguesia também disparou a subscrição de canais de televisão paga?
AM –
Exatamente. Quando estive na comissão de ética da Assembleia da República deram-me só três minutos para falar e uma das questões que eu logo abordei foi esta. É que muitos idosos aderiram à televisão paga, mas desconhecem a obrigatoriedade de fidelização. Eu tenho aí pessoas que foram enganadas e que não vão ter possibilidades de pagar essa mensalidade. Na Comissão de Ética perguntei ao Dr. Eduardo Cardadeiro o que vai acontecer a essas pessoas quando não tiverem condições de pagar. O administrador assegurou-me que logo que fosse feita a migração para a TDT, através do nosso retransmissor, poderiam desistir da subscrição. Eu vou levar isso em conta.

Se for preciso sair o presidente para continuar a freguesia, eu saio já amanhã.

CBS – Em pleno cenário de crise como avalia as condições de vida na freguesia de Alvôco de Várzeas?
AM –
Neste momento não se vive bem em lado nenhum. Mas também acho que Alvôco das Várzeas não será das freguesias com maiores problemas em termos de vivência. Eu lembro que em Alvôco de Várzeas só há cinco pessoas que pagam renda de casa. Toda a gente tem habitação própria. As pessoas foram amealhando e fazendo as suas casas. O que não quer dizer que também não passem por dificuldades. Ainda anteontem fizemos reunião da Comissão Social de Freguesia e fomos entregar comida a um casal que não tem condições a vários níveis.

CBS – O desemprego também se sente por cá?
AM –
Neste momento temos duas ou três pessoas desempregadas. Até esta data não temos tido grandes problemas de desemprego. Em campanha eleitoral prometemos que arranjávamos dois ou três postos de trabalho. Felizmente conseguimos, fosse através da Junta ou em colaboração com outras instituições, como é o caso da Cooperativa de agricultores de Alvôco de Várzeas onde, atualmente, trabalham sete pessoas. Numa freguesia, onde segundo os censos habitam 306 pessoas, temos mais de 50 postos de trabalho. O maior empregador é o Centro de Recreio e Convívio de Alvôco de Várzeas (CERCAV), depois temos a Cooperativa, empresas de construção civil, as duas pastelarias, um café… Nós até temos aqui pessoas a trabalhar que moram em Oliveira do Hospital. Nós só queremos é manter esta situação.

CBS – A freguesia não tem conseguido fugir à desertificação…
AM –
Pois não. Nos últimos censos, Alvôco de Várzeas foi a segunda freguesia do concelho que mais população perdeu. S. Gião perdeu 22 por cento e nós 17,5 por cento. A desertificação acentua-se cada vez mais.

CBS – Teme pela extinção da freguesia?
AM –
Esta é outra luta. Isto tem sido complicado. Fomos à manifestação de Coimbra onde também estiveram os presidentes da Câmara e da Assembleia Municipal, que têm sido impecáveis nesse aspeto. Esta é outra medida um pouco avulsa. É complicado porque às vezes as pessoas pensam que ando a defender o tacho do presidente. Mas eu também já disse muitas vezes que se for preciso sair o presidente para continuar a freguesia, eu saio já amanhã. Não tenho problema nenhum com isso. Se Alvôco for anexada a outra freguesia quem é que vai saber se há famílias problemáticas e outros problemas para resolver. Temos, por exemplo, o caso de um pastor septuagenário que dorme junto às ovelhas e que a junta, através da ajuda do CERCAV, está a tentar solucionar.

CBS – A população já ameaçou tocar os sinos a rebate contra a extinção da freguesia. O povo está unido em torno desta matéria?
AM
– Penso que sim. Mas as últimas notícias também nos dão algum alento, porque eles já dizem que as freguesias rurais com alguma história, com algum índice de desenvolvimento e que se localizem longe da sede de concelho serão resguardadas. Acho que será esse o nosso caso, porque estamos nessa situação. Já fizemos um levantamento histórico da nossa freguesia. Temos ali um forno comunitário com mais de 200 anos e foi em Alvôco que surgiu a primeira destilaria de aguardente vinícola do país e que está na Quinta da Moenda. Há toda uma componente histórica que até já tínhamos enviado para todas as entidades em defesa da freguesia.

Agora eles também colocaram a decisão nas mãos das câmaras e assembleias municipais, sob pena de o próprio governo criar uma comissão para o efeito. Se vem para aí uma comissão, eles decidem cortar a seu belo prazer e não há nada a fazer.

Veja como é que isto é. Na primeira proposta a freguesia de Nogueira do Cravo não tinha problemas nenhuns e agora é a que corre maior risco, por estar a menos de três quilómetros da sede do concelho e por, dentro desse limite, a maior freguesia ser a da sede de concelho e por isso absorver a de Nogueira do Cravo.

CBS – A praia fluvial e parque merendeiro também constituem uma das principais riquezas da freguesia. Aquele espaço continua a ser atrativo?
AM
– Em período de campanha eleitoral sempre disse que aquela seria a obra mais cara que teria pela frente. Recentemente, estiveram aqui 40 estudantes de arquitetura para fazerem um estudo para requalificação da praia fluvial e sua envolvente que deverá ser apresentado até maio. Já reunimos com o presidente da AdXistur que reconhece as potencialidades do espaço e da freguesia e há a possibilidade de Alvôco se tornar também Aldeia de Xisto.

No parque merendeiro era essencial modificar o chão que atualmente levanta muito pó e arranjar o espaço do bar que não tem grandes condições. As casas de banho não estão más. A ideia era dar mais dignidade ao espaço que, em alguns dias do verão, chega a atrair mais de duas centenas de pessoas. Estamos também a pensar, por via de um protocolo com um proprietário vizinho, alargar a área do parque e possibilitar a prática de campismo. Há ainda a ideia de ali se construir uma mini barragem, com a qual não concordo muito, para concentrar mais lençol de água.

CBS – Em termos de serviços à população, o que é que a freguesia tem para oferecer?
AM –
Escola já não há. Os alunos frequentam a Escola Básica Integrada da Ponte das Três Entradas. Temos um Jardim de Infância que tem 19 crianças. No mesmo espaço está também uma biblioteca. Temos posto médico, com médico duas vezes por semana e a nossa intenção é requalificar aquele espaço para dar condições à população e aos profissionais de saúde. Depois temos toda a componente de apoio social que é assegurada pelo CERCAV.

CBS – Partilha a mesma cor política do executivo municipal. Como é que são as relações entre Junta de Freguesia e Câmara Municipal?
AM –
As relações têm sido muito boas e acho que tem sido assim com todas as juntas de freguesia do concelho. Às vezes, em tom de brincadeira, até digo ao presidente da Câmara que trata melhor as juntas que não são do PS. Reconheço que já foi feito muito trabalho em juntas que até aqui estavam muito discriminadas. Acredito que o Seixo da Beira necessitava de outras infra-estruturas e, de facto, tem lá sido investido muito dinheiro. Falo em tom de brincadeira, mas a ideia é lembrar o presidente da Câmara de que também não se pode esquecer de Alvôco. Mas as relações têm sido boas e o presidente tem a sorte de ter o professor Daniel Costa à frente do gabinete de apoio às freguesias. Tem sido uma pessoa espetacular e nunca se esquece do que nós pedimos e resolve sempre os problemas. Muitas vezes vou à Câmara e nem falo com o presidente, trato com o professor Daniel. Nisto o presidente tem tido sorte.

CBS – É estreante nas lides autárquicas…
AM –
É a primeira vez que entro na política. Nunca fui candidato a nada.

CBS – Equaciona uma recandidatura, ou pelas lutas que tem vindo a travar já se arrependeu de abraçar este projeto?
AM
– Não tenha dúvidas de que já me arrependi. E na minha cabeça também ainda não entrou a possibilidade de recandidatura. Vou ter que pensar muito bem porque há por aí muita malta nova. Eu já em anos anteriores tinha sido desafiado a uma candidatura, mas nunca acedi devido à minha vida profissional. Só agora decidi avançar mas, inicialmente, nunca pensei ser cabeça de lista. Ganhámos – a Rosa Marques é secretária e o Artenisio Jesus é tesoureiro – mas por apenas nove votos de diferença. Não penso ainda na recandidatura, mas também não ponho essa possibilidade de lado.

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