Margarida Freire

Chefe de brigada, significa, no caso, comandar um grupo homens, que exercem a dura e exigente profissão de sapadores florestais. Não hesita na resposta quando lhe pergunto se prefere dirigir homens ou mulheres: – “Homens, sem dúvida”!

Em determinado grupo, durante uma palestra sobre gestão florestal, estavam dois “Antónios”. Ao mais novo pergunta de chofre:

 – “Queres ir para os sapadores?”
– “Se houver essa hipótese, vou…”.
O outro, mais velho, questiona: – “A mim não me pergunta se quero ir…”
– “Sabe porquê? É que durante o intervalo, ele não disse que ia beber um copo de vinho, como você fez”!
Para bom entendedor…
A análise ao carácter dos dois homens foi rápida, e escolheu ser frontal na resposta a um deles porque, naquele momento, estava a ser “igual a si própria”.
– “A Margarida nasceu para ser chefe” – diz um dos seus subordinados!

Discurso directo:
– “Entrei em 2000 para os sapadores da cooperativa de Alvôco das Várzeas com o engenheiro Vasco Campos. Na altura, não sabia muito bem o que era ser sapador florestal, mas como precisava de trabalhar, ofereci-me, fui aceite, e o engenheiro disse-me que se um dos directores da cooperativa não aceitasse ser chefe de equipa, seria eu nomeada, sobretudo pelo facto de ser mulher, o que seria, a seu ver, um bom exemplo a seguir. Fiquei com essa responsabilidade entre Maio de 2000 e Agosto de 2001; depois nasceu a Caule, ainda com o engenheiro Vasco Campos, formou-se o primeiro grupo de sapadores e eu entrei como chefe de equipa, composta por três romenos e um paquistanês. Em 2002 formou-se outra equipa, mais uma em 2003, e a partir daí passei a chefe de brigada. Agora tenho a responsabilidade de comandar trintas homens”!

“Prefiro comandar homens” 

A aprendizagem, em 2000, foi acelerada como convinha: durante três semanas fez o curso de sapadores, e foi somando conhecimentos que lhe permitem desempenhar as suas funções com o rigor que lhe é reconhecido. Domina as diferentes áreas da profissão, que abrange a silvicultura preventiva (corte dos matos, desbastes, limpezas, etc.), e no verão, vigilância da floresta, primeiras intervenções nos combates aos incêndios florestais e acções de sensibilização junto das populações.

Um das missões a que se dedica com esmero é a formação dos novos profissionais, que poderão, ou não, ser seus subordinados nas equipas de sapadores:

– “Neste momento estou a dar formação sobre “todo terreno”, equipamento individual e colectivo de segurança e silvicultura preventiva a um novo grupo de cinco sapadores, que vão entrar no activo em Agosto, na zona de Penacova” .

“A área de intervenção dos sapadores da Caule, que tem sede em Covas, Tábua, está distribuída pelos concelhos de Oliveira do Hospital Arganil, Carregal do Sal, Tábua, Santa Comba Dão e Penacova. No total temos trinta efectivos, cada equipa tem o seu chefe, e a mim cabe-me dirigir e supervisionar os diferentes grupos”.

Pergunto-lhe pelo seu tempo disponível…
– “Todos os dias tenho de “desdobrar” o meu horário (o que faço com enorme prazer, devo dizer) consoante as necessidades. De manhã, antes de ir para a formação, ainda me debruço sobre os grupos, seguem-se seis a oito horas de formação, dependendo do curso, e depois das seis da tarde, mais ou menos, ainda vou organizar os trabalhos para o dia seguinte. Por norma, acabo por volta das vinte e uma horas o meu dia de trabalho. À noite, ainda vou ver como está o movimento do meu bar, em Vila Cova de Alva…”.

“Tenho dois filhos, um com treze anos e uma com seis, a quem procuro dar o máximo de atenção, mas reconheço que nem sempre isso é possível. No verão, se há um grande incêndio, como aconteceu em 2005, em que durante cinco dias e cinco noites andámos a combatê-lo, então é que tudo se torna mais complicado…”.

Estórias para contar tem a Margarida imensas, mas há uma que destaca pela singularidade da diferença de cultura entre os povos.

– “Houve uma altura em que tínhamos nos grupos alguns paquistaneses, a quem impus determinada autoridade. Como no seu país de origem as mulheres estão sujeitas às ordens dos homens, um deles questionou-me, mantive a minha decisão, ele não gostou e atirou-me com um machado. Se eu não tivesse fugido… não sei o que me teria acontecido! Foi a única vez em que me senti (perigosamente) desautorizada”.

O tempo contado e ocupado por uma profissão que obriga a uma entrega total, preenche-lhe o espírito, que considera solto, livre, de outro modo não se saberia feliz. Reencontra-se com a Natureza a cada hora que passa porque, diz “…esse é o meu mundo, que não troco por nenhum outro”.

-“Não gosto da solidão, estar isolada, prefiro uma vida cheia, com movimento e gente à minha volta. Nunca tive um momento em que tivesse pensado: quero estar sozinha – nunca!

Carlos Alberto

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