Mário Soares deu aula de história e revelou-se “muito desiludido” com adesão à União Europeia

Responsável pela entrada de Portugal na então designada Comunidade Económica Europeia, o antigo primeiro-ministro Mário Soares confessou-se ontem “muito desiludido com a adesão à União Europeia (UE)”.

Numa conferência que encheu o auditório da Casa da Cultura César Oliveira de alunos e professores, numa iniciativa da Escola Secundária de Oliveira do Hospital, Mário Soares recordou o processo em que aquela adesão esteve envolta, assumindo que a mesma resultou da sua própria intuição, já que numa reunião realizada com um grupo de conceituados economistas, lhe foi sugerido o contrário.

Convidado para falar sobre o centenário da República Portuguesa, o antigo presidente da República recordou na primeira pessoa aquilo que foram “os anos sombrios da história dos portugueses” – a ditadura – muito em particular, as torturas a que foram sujeitos muitos republicanos por força da polícia política.

Aos jovens da Secundária, Mário Soares revelou-se contudo esperançoso em relação ao futuro, frisando que “não há paralelo entre aquilo que hoje somos e o que éramos no tempo da ditadura”.

“Nós pertencemos ao primeiro Mundo…vai mal o primeiro mundo, mas somos do primeiro mundo”, verificou Soares, considerando que “os portugueses são um povo de grandes capacidades”.

“Temos gente com muito gabarito”, continuou, desafiando os jovens a terem esperança no futuro” e a contarem com “a democracia e a liberdade que são bens inestimáveis e, com uma sociedade que tem que lutar contra a corrupção”.

Ainda que tenha revelado alguma resistência em responder a algumas questões de âmbito nacional que lhe foram colocadas pelos jornalistas – “em Lisboa tenho todas as condições para o fazer”, disse – Mário Soares acabou por considerar que o governo tem condições políticas para impor o Plano de Estabilidade e Crescimento.

Posicionando-se e ainda contra as privatizações – “só devem ser feitas pelo interesse nacional e não por meras razões financeiras”, frisou – o histórico socialista teve ainda a oportunidade de referir, no domínio internacional, que “só se a União Europeia se quisesse suicidar a si própria é que não apoiaria a Grécia”.

Desafiado ainda a referir a sua opinião sobre a existência ou não de liberdade de expressão neste momento em Portugal, Mário Soares chegou a considerar que hoje “há liberdade de mais, porque se insultam os políticos, os empresários e os juízes e não se passa nada”. “O que é mau”, concluiu.

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