Num destes dias, vi um filme que tinha tanto de estranho como de fantástico.

Mas não pensemos agora mais nisso…

A história tinha por base a ideia de que a imagem que temos de nós próprios está longe de ser o nosso verdadeiro Eu. O cenário passa-se no futuro, numa sociedade viciada numa droga, de nome “ecrã”, que tinha o efeito de esconder da memória os insucessos dos nossos percursos de vida. Assim, o consumo regular do ecrã criava no cérebro a imagem que as pessoas queriam fazer de si próprias. A diminuta oposição à ordem estabelecida era proibida e identificada, de imediato, como extremista e radical. Contudo, apesar de se viver em democracia, na realidade, nessa sociedade não se podia falar de oposição. O que importava era estar no poder. Desta forma, a ordem era mantida e, mesmo que mudasse o partido no poder, os problemas continuavam sem solução. Os discursos, esses, eram sempre iguais. Ciclicamente, todos os problemas eram culpa do anterior governo e, em pouco tempo, todos os governos conseguiam passar do caos deixado ao oásis, pois o que realmente interessava era conseguir um “freepass” para os amigos e um “freeport” para si próprio. Mas não pensemos agora no Estado… das coisas.

O problema daquela sociedade é que o consumo regular de ecrãs provocava elevados níveis de intransigência e enormes resistências a qualquer mudança pessoal. Na verdade, as pessoas já nem sequer pensavam… em mudar. Como seres perfeitos que eram, podiam somente socorrer-se dos seus princípios e valores. Quando lhes faltava o ecrã, para evitar a depressão, as pessoas criavam raiva em relação aos problemas. David Lynch chamou a esta raiva o “Fato de Palhaço de Borracha Sufocante da Negatividade”, mas não pensemos agora em coisas complicadas…

Naturalmente, quem discordava era considerado persona non grata. Naquela sociedade a ordem estabelecida era mantida, porque toda a gente se agarrava ao ecrã como forma de esconder, de nós e dos outros, as nossas incapacidades. Aliás, ninguém tinha incapacidades, “apenas” não gostava de algumas coisas. Era uma forma de vida simples que nunca nos obrigava a pensar. Se não sabíamos nadar, não gostávamos de nadar. Se não tínhamos jeito para o desporto, não gostávamos de jogar. Se não percebíamos de política, não gostávamos de política. Se não marcávamos a diferença pela competência numa empresa, não gostávamos do trabalho. Se não conseguíamos resultados escolares, não gostávamos de estudar. Mas não pensemos agora em coisas de que não gostamos…

Curiosamente, com o passar dos anos, o excesso de exposição ao ecrã tornava-se mais problemático e os princípios e valores ainda mais imutáveis. Naquela sociedade, já quase ninguém se lembrava que temos que perceber o funcionamento do nosso Eu, para perceber o dos outros. As pessoas já não pensavam, por isso tinham perdido a capacidade de mudar de opinião, valores e atitudes. Mas não pensemos agora há quanto tempo não mudamos…

O governo, esse, geria aquela sociedade sem nunca ter que resolver os problemas. Até me fez lembrar outro governo que, no passado, quis fazer avaliações aos professores a todo o custo, como se estivesse preocupado com o desempenho destes, ao mesmo tempo que criou “novas oportunidades” para que todos pudessem ter habilitações no papel. Enfim, neste caso, nem podemos dizer que eram só habilitações para inglês ver, mas sim… que eram habilitações para Bruxelas ver. Mas não pensemos agora em coisas tristes…

Acabei por não ver o filme até ao fim, mas com uma sociedade assim a história não poderá acabar bem. Mas não será sempre isto que acontece, quando um regime parlamentar é constituído por políticos “para lamentar” que, também eles, já só vivem para o “ecrã”?!?… Mas não pensemos agora mais nisso…

sugestã[email protected]
Associação Nacional de Jovens Formadores e Docentes (FORDOC)

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