Um poema de Álvaro de Campos baralhou os alunos do 12.º ano que, no mês passado, realizaram o exame nacional de Português. As perguntas de gramática também não ajudaram.

Média negativa a Português foi o pior resultado em 14 anos de exames

 

O resultado foi uma média negativa, a mais baixa em 14 anos de exames nacionais no ensino secundário. Numa escala de 0 a 20, a média total foi de 8,9, menos 14 pontos do que a obtida em 2010. O exame de Português é obrigatório para todos os alunos do 12.º ano.

Das 24 disciplinas sujeitas a exame, sete ficaram com média negativa. Com 9,2, Matemática A é uma delas, embora com um resultado superior a Português, o que já acontecera no ano passado. Em sentido inverso, Biologia e Geologia voltou a uma média positiva, o que nos últimos cinco anos só tinha sucedido uma vez. Também Física e Química, que estava em negativo desde 2006, conseguiram este ano uma média positiva (9,9). Estas quatro provas são as mais concorridas dos exames nacionais.

Na prova de Matemática A, realizada por 39.169 alunos do 12.º ano, a média dos alunos internos foi positiva (10,6), embora tenha descido 12 pontos por comparação a 2010. Os alunos internos são aqueles que frequentam as aulas o ano inteiro, tendo obtido aproveitamento para ir a exame. A média total tem em conta os seus resultados, mas também a dos autopropostos, alunos que anularam a matrícula por terem baixo aproveitamento ou que frequentam cursos profissionais. Geralmente têm resultados mais fracos.

No exame de Português, realizado por 68.409 alunos, a média foi negativa nos dois registos. Os alunos internos ficaram-se por 9,6. Na análise dos resultados, o Ministério da Educação apenas tem em conta a média dos internos. Em resposta a questões do PÚBLICO, o director do Gabinete de Avaliação Educacional (Gave), Hélder de Sousa, admite que a variação registada na disciplina de Português “possa reflectir uma alteração da tipologia de itens introduzida no Grupo II da prova, relativo ao Funcionamento da Língua, que traduz um acréscimo de exigência neste domínio particular da aprendizagem da língua materna”.

A presidente da Associação de Professores de Português (APP), Edviges Ferreira, que também foi correctora de provas, confirma. Neste grupo, a partir de um texto de José Saramago, pedia-se aos alunos que identificassem classes de palavras, funções sintácticas e classificassem orações. Nos exames anteriores não foram colocadas questões destas. “Pelos vistos, os alunos estavam um bocado esquecidos. Já não sabiam identificar um complemento directo ou um sujeito”, afirma a professora de Português. Uma situação que, segundo ela, tem a sua raiz no programa em vigor.

À semelhança do 3.º ciclo, é muito extenso e, com o estudo dos autores, não há tempo para treinar a língua, especifica. Mas o que a surpreendeu foi o facto de os alunos não terem percebido o poema de Álvaro de Campos, como se comprovou pelas respostas que deram: “O poema não era muito perceptível, mas consta do livro de apoio ao 12.º ano e devia ser conhecido dos alunos”. Que voltaram também, como há três anos, a confundir sensações com sentimentos. A presidente da APP lamenta que no secundário não se realizem testes intermédios nesta disciplina. Estes testes servem para preparar os exames.

Enganar seria pior

Teresa Santos, professora de Matemática, também esteve a corrigir provas e confirmou o que já previra quando viu o exame: “Era muito extenso, com muitos cálculos e cálculos onde os alunos podiam facilmente enganar-se. Bastava uma pequena distracção”.

A presidente da Associação de Professores de Matemática, Elsa Barbosa, frisa que a média dos alunos internos é a que espelha o trabalho que é desenvolvido nas aulas. E esta foi positiva, embora mais baixa do que a de 2010.

Mas, para Elsa Barbosa, esta quebra “não é significativa” e pode reflectir em parte uma novidade introduzida no exame deste ano: “Existe um item que foi elaborado com o objectivo de conseguir estratificar melhor os alunos, de modo a permitir distinguir os alunos de excelência”. Para a generalidade dos alunos, esse item não era alcançável.

“Ninguém gosta de ver aumentar o número de notas negativas, mas pior seria continuar a ter dados enganadores”, afirma Miguel Abreu, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. Diz que “a descida era previsível tendo em conta que houve um aumento no grau de exigência da prova” e que “os resultados traduzem de maneira muito mais fiável o nível de conhecimentos dos alunos”. Os exames têm um peso de 30 por cento na classificação final dos alunos. Vinte por cento ficaram reprovados nesta disciplina. Foi a maior percentagem de chumbos.

In Público online

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