Acabei de ler um livro sobre o Viriato, escrito pelo Teófilo Braga que foi Presidente na primeira República.

Mentalidades

Compreendi que na génese da nossa história já estava a inveja, a traição e a maledicência que tantos filósofos atribuem ao Povo Português.

Viriato, foi assassinado pelo seu maior amigo e não em combate contra os Romanos. Isto vem a propósito da nossa mentalidade e da forma como reflectimos sobre o País ou o Mundo.

Há pouco tempo li um outro livro de um grande economista Mundial que dividia a União Europeia em três sociedades distintas, o norte-Suécia, Filândia etc. O centro- Alemanha, França e Reino Unido e o sul-Portugal, Espanha, Itália e Grécia. O norte da Europa é a mais cerebral, desenvolvida e com menos diferenças sociais. Os impostos são enormes, os salários comedidos e a sociedade coesa e feliz. O centro, França, Alemanha, etc, impostos elevados, menor coesão social, leque salarial mais amplo e problemas já de marginalização. O sul, Portugal, Espanha, Grécia, etc, países na cauda da Europa, aversão total aos impostos, grande leque salarial, com mais pobres e marginalizados.

Já tenho escrito que só é possível criar sociedades coesas, solidárias e felizes através dos salários e dos impostos justos. Não há outra forma de redistribuir a riqueza.

Se se perguntar a um português se quer um bom Serviço Nacional de Saúde, uma boa reforma, uma boa escola, boas estradas etc. etc. ele dir-lhe-á: – tenho direito a tudo isso.

Se lhe perguntar que para ter direito a tudo isto tem de pagar mais impostos responderá de imediato nem pense em tal, que os pague o vizinho.

É a diferença entre os Povos do Sul e os do Norte da Europa. No Norte o imposto é um dever no Sul uma obrigação. Claro que há mais diferenças, entre elas está a capacidade de trabalho.

Vivi 10 anos em Bruxelas, tinha lá uma funcionária e ambos pagávamos de descontos para o Estado tanto como ela recebia de salário. Nada lhe faltava, na saúde, na educação e na reforma. A sociedade era organizada até em demasia para um latino. As reuniões eram marcadas, quem se atrasasse mais de 5 minutos já não participava. Durante alguns anos tive casa, se alguém caísse no passeio à frente dela, por eu não ter limpo a neve, a responsabilidade era minha. A cor das flores das varandas era determinada pela Comissão da Rua e a das cortinas idem.

Um dia emprestei a casa a um casal de amigos médicos que iam passar um fim de semana a Bruxelas e os vizinhos mal viram pessoas estranhas a meterem as chaves na fechadura chamaram de imediato a polícia. Tive pelo telefone de explicar aos polícias que eram meus amigos.

O Caro leitor está a compreender as diferenças de mentalidade. A sociedade, o trabalho, a solidariedade, tudo está organizado. Portugal está numa profunda crise política. A demagogia é rainha, a maledicência é o entretém e a seriedade intelectual uma miragem. O Mundo está numa mudança como nunca houve, mas por cá a mentalidade do Velho do Restelo reina.

 A reflexão sobre o futuro não existe e os que a têm são marginalizados. O dizer mal é a maior profissão nacional, a crítica construtiva fundamental em democracia é uma falácia.

Os que pensam e têm ideias para ajudar a construir o futuro são ignorados. Portugal tem hoje uma elite de jovens fantástica. Na sua profissão são dos melhores do Mundo, na física, na matemática, na saúde, na química, na engenharia, na arquitectura, no empresariado etc.

Nas televisões, nos jornais, na política, nos tribunais, nas empresas, nos sindicatos etc. procurem protagonistas que tenham ideias para construir, que conheçam o Mundo e dele façam parte.

O ódio, a maledicência e a inveja nada constroem.

O pensar, reflectir, conhecer e executar é o futuro. É destes actores e cidadãos que nós precisamos se desejarmos acompanhar o Mundo, caso contrário voltaremos ao orgulhosamente sós.

António Campos
Ex-Eurodeputado do PS

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