Miguel Cardoso: Uma forma diferente de estar no desporto

Humilde e de poucas falas, além da profissão de sapateiro, Miguel Cardoso tem outras ocupações de carácter social, onde se empenha com denodo; é homem solidário e isso basta para ser reconhecido e considerado como pessoa de bem.

No desporto, a sua colaboração vai para além dos patrocínios nas camisolas de treino dos atletas de alguns clubes: tem a sua própria equipa de futsal – é através da acção desportiva que publicita a sua empresa de reparações de calçado – e ainda reserva tempo para acompanhar de perto as escolas do Tourizense.

Curiosamente, o Miguel nunca praticou qualquer tipo de desporto porque “…não tem jeito”, mas o hábito de ser prestável, sempre que é necessário, não é recente, como atesta o facto do Grupo Desportivo da Bobadela ter contado com a sua colaboração durante anos.

Depois ingressou no departamento de formação do Futebol Clube de Oliveira do Hospital, e em 2003 passou-se de “armas e bagagens” para o Tourizense, a convite do presidente Jorge Alexandre.

O futebol é o desporto predilecto do Miguel Cardoso e tem pelo Benfica uma verdadeira paixão, mas não se pense que o clube do seu coração lhe ocupa os tempos livres, porque as suas obrigações, assumidas de forma voluntária, estão em primeiro lugar: – “Estou no Tourizense por gosto, ninguém me obrigou a aceitar o cargo que ocupo nas escolas de futebol, o meu dever é cumprir, e é isso que procuro fazer o melhor que posso e sei”.

A experiência de trabalhar com jovens atletas deixa marcas para a vida inteira, principalmente quando a actividade tem características específicas que vão para além dos aspectos lúdicos no progresso da aprendizagem de qualquer modalidade, neste caso, o futebol. As diferentes fases de desenvolvimento carecem de atenção técnica permanente, liderança responsável e comportamentos coerentes de quem dirige.

 O Tourizense, sabe-se, com maior ou menor dificuldade, tem conseguido manter níveis elevados nestas áreas, por isso o exemplo do Miguel Cardoso, enquanto elemento de uma equipa não muito vasta mas qualitativamente acima da média, merece realce. Há recordações que não se apagam, o Miguel prefere lembrar a que considera “fantástica”! – “Nestes anos que levo de dirigente e delegado aos jogos nos clubes por onde passei, nunca fui expulso do banco nem sequer advertido por nenhum árbitro. Tenho boas recordações, sem dúvida, mas ter sido Campeão Regional de Juvenis na época 2006/7 é a melhor das lembranças”.

O Miguel, prazenteiro, recebe os amigos de várias condições sociais na oficina. Enquanto se ocupa com os afazeres da profissão, fica atento às conversas, opina, e certamente por estes dias muito se tem dito sobre as equipas da 1ª Liga do campeonato português; entre aquisições e dispensas, já se imaginaram soluções, delinearam estratégias, e nasceram sonhos de vitória.

Do clube da terra, o F.C. de Oliveira do Hospital, por ora pouco se sabe, mas há outros – como o Nogueirense, que frequentemente entra na discussão – a merecerem honras de especial atenção.

A oficina do Miguel, em certa medida e com as diferenças que se imaginam, assemelha-se aos pontos de encontro dos homens das várias culturas de um tempo recuado.

Em Oliveira do Hospital há memórias da farmácia do doutor Fausto Soares e do estabelecimento da firma “Júlio dos Santos e Companhia”, por exemplo, onde se discutia a República muito antes dela chegar… A cidade reconhece a utilidade dos pequenos espaços comerciais pelos serviços que presta à comunidade, como colocar um simples salto num sapato de senhora ou limpar uma gravata num momento de aperto, mas não valoriza a prática da opinião saudável – não importa o tema – que, “sem hora certa”, acontece um pouco por aí, em liberdade, como na oficina do Miguel “sapateiro”.

O Miguel Cardoso nasceu e mora na Bobadela. Estudou em Oliveira do Hospital, foi carpinteiro de móveis, e aprendeu a profissão de sapateiro com o senhor Rogério, de Vila Nova de Oliveirinha. Algumas luzes do negócio levaram-no em 1999 a abrir a sua própria oficina. Atletas das Escolinhas João Veloso, Nogueirense, Tourizense, e da secção de hóquei em patins do Oliveira do Hospital envergam, nos treinos, as camisolas que ostentam o nome da firma do Miguel: Reparações “EXPRESS”.

Talvez tivesse gostado de praticar o desporto da sua eleição, mas a “falta de jeito…” levou-o a ficar do lado de fora das linhas que limitam o recinto do jogo; como voluntário, de forma actuante e útil, ao serviço do Tourizense, encontrou uma forma diferente de estar no desporto.

Há, porém, ”um segredo” que o Miguel “sapateiro” deixou escapar a meio da conversa: – “Bem, sempre pratico desporto quando jogo cartas, à “sueca”!

Carlos Alberto

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