Municípios da Beira Serra unem-se em congresso para defenir estratégia de desenvolvimento

… reclamar por uma “verdadeira estratégia nacional para o mundo rural”, que permita pôr cobro ao “principal drama da região, que é a ausência”.

A uma só voz e em uníssono. É desta forma que os municípios de Oliveira do Hospital, Tábua, Arganil e Góis se estão a posicionar, em conjunto com a ADIBER – Associação para o Desenvolvimento Integrado da Beira Serra, na terceira edição do Congresso da Beira Serra que, esta manhã, arrancou na renovada Cerâmica Arganilense, em Arganil, sob o tema “Inovar e Empreender”.

Em causa está uma ação pensada para delinear um plano estratégico para o período entre 2014-2020 e que, no imediato, já colocou os municípios que integram o território da Beira Serra a falar, ainda que cada um por sua vez, a “uma só voz”. É que para resolver está aquilo que o presidente da ADIBER apelidou de “principal drama da região”. “A ausência”, explicou Miguel Ventura referindo-se em particular à falta de“massa crítica e de dimensão para certos investimentos e para reivindicar aquilo a que temos direito”.

“Fixar a população jovem, sobretudo a mais qualificada deverá ser o nosso principal desígnio”, reforçou esta manhã o responsável pela ADIBER que, diante do secretário de estado adjunto do ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Feliciano Duarte, destacou a importância do congresso que decorre até amanhã, para a criação de “uma estratégia que associe progresso e modernidade, transformando os recursos endógenos em produtos com alto valor de mercado”. “Este é um projeto coletivo e devemos falar em uníssono para que a nossa voz seja mais forte”, reforçou Miguel Ventura que, do mesmo modo, pretende dar cumprimento ao conceito associado ao novo Quadro Estratégico Comum 2014- 2020 de maior envolvimento com a comunidade. Valorizando sempre o coletivo e as conquistas daí decorrentes, Ventura apelou a algum cuidado no processo de reorganização do território que está a ser levado a cabo pelo governo, no que respeita às NUTIII. “Consideramos fundamental que o pinhal interior norte mantenha união e coesão, dando-se continuidade às parcerias criadas”, referiu.

“Tratar de modo diferente aquilo que à partida é desigual”

Tendo num território de baixa densidade o seu principal ponto de partida, o Congresso da Beira Serra ficou também, esta manhã, marcado pelas vozes dos autarcas dos quatro municípios a reclamarem por um programa de desenvolvimento rural. “A resolução dos nossos problemas também tem que passar pela criação de uma verdadeira estratégia nacional para o mundo rural”, afirmou o presidente da Câmara Municipal de Arganil, chamando a atenção para a a necessidade de “tratar de modo diferente aquilo que é à partida desigual”, como forma de “travar a desertificação e despovoamento”.

Ricardo Pereira Alves não deixou de criticar o “centralismo do Terreiro do Paço que asfixia muitas vezes o país, em particular o interior” e de também apelar a alguma cautela no que respeita à reorganização territorial.

Aludindo à acentuada perda populacional nos quatro municípios que integram o território da Beira Serra – “em 1900 o território contava com 79 mil habitantes, hoje não chegamos aos 50 mil”, disse – o autarca de Oliveira do Hospital revelou-se preocupado com o esvaziamento do interior, agravada “com o anúncio de encerramento de serviços”. “Nada tem escapado à fúria reformista deste Estado”, disse José Carlos Alexandrino, entendendo ser hora de “estes municípios fazerem um corte com o passado”, recorrendo aos ingredientes certos” – “inovação, empreendedorismo, criatividade e competitividade”, enumerou – para que a região “trilhe um caminho pautado pela iniciativa, produção de riqueza e fixação de população”.

Louvando aquela que tem sido a estratégia supra-municipal , Alexandrino entender ser necessário levar por diante um “programa de desenvolvimento rural” que dê resposta às necessidades da região. “Os atores locais já deram provas de saber gerir as parcas verbas e de lhe aplicar um efeito multiplicador que beneficia as populações”, referiu o autarca oliveirense dando conta da relação de “complementaridade e cumplicidade” que existe entre os municípios e os vários protagonistas da região. Alexandrino, não deixou porém de lamentar o impasse em torno das acessibilidades – “temos um país desequilibrado que escorrega para o litoral” – e as dificuldades em transpor regras, do PDM, por exemplo, e que dificultam o trabalho de fixar jovens e empresas no concelho. Ainda em matéria de reorganização do território, o autarca oliveirense apelou ao especial cuidado. “Este processo deve ser feito com base em grande negociação”, referiu.

A afinar pelo mesmo diapasão, a presidente da Câmara Municipal de Góis notou as mais valias daquela que tem sido a “intervenção supra municipal. “Os quatro municípios são bom exemplo da boa capacidade de diálogo e aplicação dos meios”, referiu Maria de Lurdes Castanheira, que louvando o percurso de 18 anos da ADIBER, falou da capacidade que o território, numa lógica de parceria, tem de “poupar nos recursos e redobrar nos resultados”.

Certo de que por via da inovação, empreendedorismo, criatividade e competitividade, a região conseguirá os apoios financeiros necessários ao seu desenvolvimento, o presidente da Câmara Municipal de Tábua também destacou a necessidade do trabalho em “união” ao nível das várias estruturas. Mário Loureiro não deixou porém de chamar a atenção para os entraves com que o município e região se tem confrontado no que respeita à legislação em matéria de produção, circulação e comercialização de produtos endógenos, para além dos prometidos apoios que “tardam em chegar”. “O que compromete o futuro desta região e desmotiva os produtores”, sustentou.

“O que é que andámos a fazer nos últimos anos?”

Na abertura de um congresso onde cada um dos autarcas não se escusou a elencar as mais valias de cada município e a deixar recados ao governo, também não tardou a resposta da parte do poder central, ali representado pelo secretário de estado adjunto do ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares. “Então se temos tanta coisa para fazer, o que é que andámos a fazer nos últimos anos e o que contribuiu para tal situação? Que caminhos trilhámos?”, questionou Feliciano Duarte, notando não ter sido o próprio, nem o atual governo a “colocar no memorando da Tróika a necessidade de encerrar serviços”. Remetendo para os governos anteriores as responsabilidades pelo momento atual, o governante falou da necessidade de se cumprir “o que foi acordado com a Troika”.

“Os portugueses devem pensar que não se podem repetir os erros do passado que conduziram a uma situação de dependência externa”, referiu o responsável que, sem deixar de louvar a ADIBER e o Congresso da Beira Serra, também garantiu que o atual governo está atento e “não fecha os ouvidos à realidade”. Feliciano Duarte aludiu em concreto a um conjunto de medidas de incentivo ao empreendedorismo e, na presença da secretária regional da agricultura, informou que até ao passado dia 19 de outubro foram aprovados 1108 projetos no território da Beira Serra, no montante de 156 milhões de Euros. “Apesar das dificuldades, existe a capacidade de o Estado levar por diante um conjunto de projetos”, registou.

O 3º Congresso da Beira Serra decorre até amanhã na Cerâmica Arganilense, contando com a intervenção de um vasto conjunto de especialistas em áreas diversas. A iniciativa compreende ainda o 2º Encontro da Juventude.

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