“Não se encontrarão muitas freguesias com as caraterísticas de Ervedal da Beira”

… foi determinante a alteração ocorrida no executivo municipal, porque até então a freguesia “estava posta ao abandono”. Por resolver continua a questão da extensão de saúde, mas ainda assim, Carlos Maia destaca o potencial da freguesia, admitindo que existam poucas com semelhantes caraterísticas.

Correio da Beira Serra – A freguesia de Ervedal da Beira mudou e tem sido objeto de melhorias significativas. Era isto que queria para a sua freguesia?
Carlos Maia
– Devo lembrar que a freguesia de Ervedal estava um pouco posta ao abandono. Sem estar a especular sobre os motivos por que isso acontecia, nós notávamos que estávamos bastante esquecidos por parte do poder municipal. Quando surgiu a candidatura de J
osé Carlos Alexandrino à Câmara e sabendo dessa situação, decidi também me candidatar, ainda que nunca tenha estado nas minhas ambições. Resolvi meter os pés ao caminho.

CBS – Quando se candidatou tinha um objetivo firme…
CM –
Muito firme. Candidatei-me para ver se o estado de coisas mudava, mesmo sem saber quem venceria as eleições para a Câmara Municipal. De facto, o executivo municipal mudou, bem como a compreensão para com as juntas de freguesia e, também mudou para Ervedal da Beira. Candidatámos-nos à Junta de Freguesia com um programa muito ambicioso. Claro que a nossa vontade era de realizar tudo, mas sabemos que as coisas não estão fáceis. Já uma série de coisas foi feita, mas há ainda três ou quatro questões fundamentais que ainda não estão resolvidas e que gostaria que fossem uma realidade até ao final do mandato, porque a população criou grande expectativa à volta disso.

CBS – Mas a grande obra da freguesia no atual mandato já está feita, a requalificação da Avenida D. Manuel I. Qual foi o investimento?
CM
– No total, penso que rondou perto dos 500 mil Euros. Aquela avenida estava muito necessitada de intervenção. Os passeios eram muito irregulares e as pessoas, em particular os idosos, queixavam-se. Era uma via perigosa. A situação mudou. Temos um passeio onde se pode circular em segurança. A Câmara também aproveitou e substituiu tubagens antigas de saneamento e por isso a obra foi para custo mais elevado. Na empreitada entrou também a alteração do jardim do Coreto. A obra teve apoios do QREN e também teve o percalço de chumbo do Tribunal de Contas, mas penso que a situação já foi ultrapassada. No decorrer da obra houve também alguns contratempos com a empresa responsável, mas que foram sendo resolvidos, havendo ainda pequenos trabalhos que estão por fazer, mas que espero fiquem concluídos brevemente.

CBS – Que outros projetos gostaria de ver concluídos durante este mandato? Já tem algum feedback acerca das desejadas instalações para a extensão de saúde?
CM –
Essa é uma das obras que é muito necessitada na freguesia. A extensão funciona em instalações da Junta de Freguesia e que, antigamente, serviam de habitação da antiga funcionária dos postos CTT. Tem remediado, mas não deixa de ser um espaço sem condições adequadas. Vai servindo, mas não é o melhor. O projeto para as novas instalações está feito e resulta de uma adaptação às instalações meio construídas da antiga casa do povo. As casas do povo foram extintas e a obra nunca foi acabada e entendeu-se por bem adaptá-la à futura extensão de saúde. O projeto está feito.

CBS – E qual o valor estimado para aquela obra?
CM –
O valor estimado ronda os 200 mil euros, ainda que eu pense e, o presidente da Câmara também é da mesma opinião, que se poderá fazer a obra por menos dinheiro. Talvez 150 mil Euros. É um projeto bom. O espaço vai ter dois pisos, onde se prevê a colocação de um elevador para idosos e portadores de deficiência. Vai ter dois excelentes gabinetes médicos e igual número de gabinetes de enfermagem, espaços administrativos em ambos os pisos e instalações sanitárias. É um projeto muito bem feito, adequado às necessidades atuais. Atualmente temos dois médicos afetos à extensão e temos médico todos os dias. E hoje, para além dos utentes de Ervedal, também aqui acorrem os de Vila Franca. Precisamos de melhores condições, que hoje não temos.

CBS – O autarca de Vila Franca da Beira queixou-se há pouco tempo da falta de assiduidade dos médicos. Qual é o atual ponto de situação?
CM
– Há queixas nesse campo e ouvimos muitas pessoas dizer que vêm para o posto médico à espera de consulta e depois de muita espera acabam por regressar a casa, porque o médico faltou e não avisou. Se houvesse aviso prévio, as pessoas não vinham para aqui e gastavam dinheiro em deslocações. Acho que as coisas deveriam funcionar de uma outra forma. O problema dos médicos é posto todos os dias na comunicação social. Penso que no futuro vai ser um problema sério para as populações. Não sei como é que vai ser quando médicos que hoje estão em fim de carreira se aposentarem e qual a assistência que irá haver para as populações.

CBS – Já colocou esta questão à Administração Regional de Saúde?
CM –
À ARS concretamente não. Tenho trocado impressões com o presidente da Câmara que também está apreensivo com a situação. É pena que os médicos não venham para o interior. Há que criar incentivos para que eles venham, porque temos uma população envelhecida, com dificuldades de locomoção e onde não existe uma rede de transportes como nos grandes centros e têm que se valer de táxis, familiares e vizinhos.

CBS – Ervedal da Beira, segundo os últimos censos, teve uma perda significativa da sua população…
CM
– Sim, na casa dos 10 ou 12 por cento. E isto está-se a refletir nas escolas que é o primeiro indicador que nós temos. A população está idosa e vai desaparecendo e não há reposição por via de nascimentos. Há poucos casais a fixarem-se na freguesia. Vão ficando alguns que têm por aqui os seus postos de trabalho.

CBS – A freguesia ainda consegue assegurar um conjunto considerável de postos de trabalho?
CM –
Sim. Os três principais empregadores são a Escola Básica Integrada, uma empresa de transformação de madeiras de capitais franceses e o lar de 3ª idade. Juntos empregam entre 170 a 180 pessoas. A empresa de madeiras mudou de mãos, para outros empresários franceses e, pelo que sei, estão com boas intenções e têm vontade de ampliar a unidade e até admitir mais trabalhadores. Para além destes, a freguesia assegura outros postos de trabalho. Não se encontram por aí muitas freguesias como a nossa. Em Ervedal da Beira temos também a adega cooperativa, a empresa internacional de camionagem, uma agência bancária, dois postos de combustíveis, farmácia, clínica médico-dentária, duas oficinas de mecânica automóvel, posto de CTT, quatro mini-mercados, peixaria, nove cafés, um restaurante, uma olaria, dois salões de cabeleireira e uma florista. Temos também quatro associações recreativo-culturais, uma associação ambiental, uma unidade de turismo de habitação que é o solar dos viscondes e uma unidade de turismo em espaço rural, que é a Quinta do Pisão…

Como vê temos aqui algum dinamismo. E em fase de construção está, em Fiais da Beira, um hotel de charme de capitais russos que também irá criar alguns postos de trabalho na freguesia.. Penso que não se encontrarão muitas freguesias com estas características. É verdade que já se viu mais gente e mais dinamismo em Ervedal, mas penso que isso hoje se passa em todo o lado.

CBS – Mas também não tem escapado ao desemprego…
CM-
Pois não. O desemprego tem afetado algumas pessoas que trabalhavam em Oliveira do Hospital. Mas as pessoas têm conseguido ultrapassar as dificuldades, porque em Ervedal a população está habituada a trabalhar e ainda pratica agricultura subsistência que ajuda a poupar algum dinheiro no supermercado.

CBS – Já se deparou com casos de pobreza na freguesia?
CM –
De pobreza gritante temos muito pouco ou quase nada, mas trata-se mais de uma questão de mentalidade, porque nem toda a gente sabe orientar o dinheiro que tem disponível. Há sempre um ou outro caso que é normal e que afeta mais os idosos, que auferem reduzidas reformas. Mas hoje em dia também há ajudas da Segurança Social e as assistentes sociais e a própria junta de freguesia estão atentos ao fenómeno. E às vezes também há situações de pobreza envergonhada. Nota-se pouco, se bem que nos meios pequenos há sempre um indicador que permite detetar a situação de fragilidade, que é a vizinhança.

“Qualquer euro que seja gasto pelas juntas de freguesia é sempre mais bem gasto do que se for gasto por uma câmara ou governo central”

CBS – Como é que olha para o processo da extinção de freguesias?
CM –
Sempre fui contra a extinção das freguesias. Uma junta de freguesia é o primeiro porto de abrigo para as populações. É o primeiro poder que as pessoas reconhecem ao nível da administração pública e ao qual recorrem, por vezes até por causa de assuntos que não são da nossa competência. Mas vêm cá. Precisam disto ou não entendem uma carta que receberam. Uma junta de freguesia é uma entidade extremamente importante junto das populações. Qualquer euro que seja gasto pelas juntas de freguesia é sempre mais bem gasto do que se for gasto por uma câmara ou governo central. Uma junta de freguesia gere verbas tão pequenas, que pensa sempre muito bem onde é que as vai gastar. Eu até sou acérrimo defensor de uma regionalização e de uma transferência de competências maior por parte do governo quer para os municípios, quer as juntas de freguesia. Não tenho dúvidas nenhumas de que o dinheiro será muito melhor empregue. Há demasiada centralização e as coisas nem sempre funcionam bem.

De acordo com o livro Verde, a freguesia de Ervedal da Beira seria para extinguir. Houve grande pressão a nível nacional, quer por parte dos municípios, quer das juntas de freguesia. O governo recuou e teve que rever os critérios. Na minha opinião, fez isso com alguma confusão. Mudaram os critérios e a lei que agora foi aprovada acaba por proteger a nossa freguesia. Acho que estou mais ou menos à vontade para dizer isto, mas vamos esperar para ver. Neste momento, a posição da Assembleia Municipal é de não se pronunciar acerca das freguesias a extinguir no concelho. Penso que já está criada a tal unidade técnica e que irá depois propor aos municípios quais as freguesias a extinguir. Vamos ver, porque também espero bem que não seja uma imposição. Cá estaremos depois para ver.

CBS – A freguesia de Ervedal está bem servida em matéria de saneamento?
CM –
Sim. Poderá haver um ou outro ramal que seja necessário fazer. Mas são coisas muito residuais. Quase que está coberta a 100 por cento e não tem havido problemas.

CBS – Ervedal também é rico em património. As palheiras dos Fiais da Beira são um exemplo, mas salta a vista a necessidade de requalificação…
CM – Para quem não sabe aquilo é de domínio privado. Cada palheira tem um dono. De facto merecia um projeto de valorização, mas é difícil. Aquilo era um espaço onde as pessoas iam debulhar os cereais e guardavam lá as palhas. Hoje, já pouca gente faz esse uso. Usam mais as palheiras para arrumos. Se por acaso, todos os donos vendessem as palheiras, que são cerca de 70, a valorização teria que passar por um projeto bem pensado. Muita gente vem visitar as palheiras porque não é em todo o lado que existe aquilo. Julgo que no Alentejo existe algo semelhante mas com um menor número de palheiras.

CBS – O Teatro é outro espaço emblemático da freguesia. Para quando a requalificação?
CM –
Ervedal sempre foi uma terra com grande tradição de teatro. O grupo mantém-se e agora estreou um teatro de revista à portuguesa. A Câmara Municipal já fez um projeto e a ideia é recorrer a fundos comunitários. A requalificação deverá passar sobretudo pelos arranjos interiores respeitando a sua arquitetura exterior. Estima-se que deverá rondar os 200 mil Euros. É uma obra muito importante, porque os tetos, telhados e vigamentos estão em muito mau estado. Está tudo muito podre e deteriorado e se não se fizer nada, aquilo um dia vem tudo a baixo.

“Não fecho portas a nada, desde que seja em benefício do bem estar das populações”

CBS – O que é que ainda gostaria de fazer na freguesia no decorrer do mandato?
CM
– Temos noção de que há coisas que nos propusemos fazer e que não vai ser possível realizar. Por exemplo, a construção das piscinas aquecidas talvez já não seja possível executar e teremos que esperar por melhores dias. Era importante quer para a população escolar quer para a restante população. Mas há outras obras mais urgentes. Já há vários anos que também esperamos pela adaptação das antigas escolas primárias da freguesia que têm duas habitações de professores, numa pousada. Faz falta ao Ervedal da Beira. A ideia é receber grupos organizados, e isso até já foi feito pela Associação Ambiental- Ervedus com grupos estrangeiros. Era mais uma forma de trazer mais movimento à freguesia e geraria alguns postos de trabalho. São ideias, mas os dinheiros andam curtos e arredados. Mas há outras situações que espero resolver até ao final do mandato. Acredito que as novas instalações para extensão de saúde vão ser uma realidade. Também queremos continuar os passeios na estrada da Junta de Freguesia e penso que vão ser feitos, bem como a requalificação da rua do Valado. Em Fiais da Beira também queremos requalificar um largo,a fonte do Carreiro e a zona envolvente. Acredito também que nos próximos meses vamos arrancar com a construção da casa mortuária na Póvoa de S. Cosme, que é a única povoação que não tem.

CBS – Partilha da cor política do executivo municipal e é amigo do presidente da Câmara. As relações entre Junta e Câmara também serão as melhores…
CM –
Obviamente que facilita. Mas também sei que não é só com o presidente da Junta de Freguesia de Ervedal que o presidente da Câmara tem a abertura que tem. Penso que nesse aspeto, não faz distinção entre cores políticas ou relações de amizade. É prática dele e não vejo que eu tenha mais benefícios. Eu próprio em Assembleia Municipal disse que esperava que a freguesia de Ervedal da Beira fosse mais contemplada do que foi anteriormente. Isso penso que tem vindo a acontecer. O presidente da Câmara também sabia do estado de coisas anterior. Mas também não posso exigir que o presidente da Câmara passe por cima de toda a gente e venha apenas beneficiar a freguesia de Ervedal. Ele tem sido coerente e também já me disse que não vai ser possível fazer tudo aquilo a que nos propusemos e eu entendo. Entendo porque a Câmara Municipal também teve um corte muito grande de verbas.

CBS – Falou de uma série de trabalhos que não vai conseguir realizar no presente mandato. Pretende levá-los à prática num próximo mandato?
CM
– (Risos) Quando me meti na candidatura à Junta de Freguesia era para tentar mudar um pouco o estado das coisas. Hoje estou disponível, mas não sei … Na política já estive em diversas situações, hoje estou na Junta de Freguesia e amanhã não sei onde estarei. Posso estar na junta ou não. Eu onde estiver é para lutar, entendo que só perde quem não luta. Quem luta, terá sempre algum fruto. Não sou pessoa de baixar os braços, seja na Junta, seja em qualquer outra situação. Ainda é cedo para tomar decisão. Mas não fecho portas a nada, desde que seja em benefício do bem estar das populações. Só isso é que me move porque eu não preciso disto para viver. É só isso que me importa.

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