Natal recuperado

 

Então, passando por cima de todas as árvores, chegam, num instante, à aldeia. O luar ilumina a penumbra da noite quando, subitamente, as vassouras estancam sobre o telhado da casa.

Depois, quando regressam ao Penedo, já levam companhia… nessa noite, meu netinho, foi escolhida a tua mãe. Era quase véspera de Natal e o primeiro tronco de oliveira já ardia na lareira.”

“– Conta-me. Conta-me, avó! Contas?!”

“– Claro que conto… ouve o vento, pois ele ainda guarda as memórias desse dia. Levaram-me a tua mãe, por cima de todas as árvores, colocaram-na junto a uma grande fogueira e todas as bruxas começaram a pular e a saltar à sua volta. Saltavam e pulavam tão alto que a minha pequenina, de tão assustada, começou a puxar as brasas mais incandescentes para junto dela e depois passou a atirá-las em direcção a tudo o que bulia, queimando as pernas das mais desprevenidas.

Então, quando uma delas se apercebeu agarrou-a por um braço e foi escondê-la na alminha do Outeiro da Boiça.

As outras bruxas, que seguiram de perto a viagem, desataram a rir em altas gargalhadas, enquanto diziam: – ah pequenota, nunca serás libertada…” “– E a minha mãe, vó! Ó vó, e a minha mãe?!” “– Calma, calma… aqui, comigo, tudo sempre acaba bem.

Nessa noite, a tua mãe não voltou a casa, mas, logo que a manhã seguinte começou a romper, eu e o teu avô saímos à procura da nossa menina. Quando, por acaso, passámos ao lado da alminha do Outeiro da Boiça, o teu avô, como era habitual, tirou o chapéu e ajoelhou-se para rezar. Eu ainda o tentei convencer a deixar as rezas para mais tarde; até lhe devo ter furado os tímpanos de tanto o azucrinar com a minha mania das pressas!

Mas o teu avô ajoelhou-se e rezou por todos os espíritos que já não estavam fisicamente entre nós, pediu a Deus que ajudasse todos os Homens, sobretudo aqueles que mais precisavam. Então, como que por magia, bem do meio da pedra, apareceu a minha menininha, beijando muito o teu avô. Agarrou-se a nós a chorar e, quando conseguiu recompor-se, segredou-nos: eu ouvi as bruxas dizerem que as alminhas guardam os segredos mais bonitos de cada Homem, mas apenas alguém verdadeiramente puro, tão puro que aqui parasse a rezar, pensando somente nos outros, poderia libertar-me…”

“– E depois vó? E depois?!” “– E depois foi o Natal, meu netinho! Era véspera de Natal e a lareira iluminava a noite…”

Ano após ano, ao longo da meninice, fui ouvindo, cada vez com maior espanto, a fabulosa narração associada ao Penedo do Algar e às gentes da minha aldeia. Agora, que o Natal está aí mesmo à porta, dou por mim mais uma vez sentado, em casa de meus pais, a recordar esta estória, que continua a preencher-me.

Sempre que aqui regresso e acendo a lareira, quase consigo jurar que pressinto as bruxas paradas em cima do telhado, como outrora, a aguardarem… E isso ajuda-me a recordar que existem lugares que nunca abandonamos; confundem-se de tal modo com aquilo que somos, que, dificilmente, conseguimos descrever-nos sem reconstruí-los por dentro, nos mais ínfimos pormenores, em imagens, cheiros ou sabores.

O Natal faz parte desses lugares; faz parte das pessoas insubstituíveis da nossa vida. E o vazio ocupa-se. Nestes dias em que o frio e o nevoeiro se entrelaçam, saio muitas vezes a deambular pela noite dentro. Sempre que reencontro uma alminha, talvez por influência das recordações que trago escondidas no poço mais fundo da minha existência, paro, persigno-me e aproximo-me, quiçá à espera de libertar os segredos mais bonitos que ainda não destruí.

E, incrivelmente, sorrio, limito-me a sorrir… Existem sorrisos que condensam milhões de palavras; desnecessárias. Depois, já em casa, os candeeiros crivados de teias de aranha conservam ainda as memórias de um tempo, simultaneamente, tão próximo e tão distante.

Sabem…, mãe, pai, avó, avô… talvez seja hoje que as bruxas vão, finalmente, ganhar coragem e levar-me, por cima de todas as árvores, até ao Penedo do Algar, onde já todos vocês devem estar a dançar, à volta de uma enorme fogueira.

Talvez… Mas enquanto isso não acontece, enquanto a última badalada não ecoa, são as estórias do último Natal que ainda me permitem fazer a consoada, como só ela pode ser feita, com toda, toda a família à mesa… antes e depois da última badalada.

E do silêncio que ecoa dentro de nós quando pensamos nessa comunhão. Pela noite dentro, embrenhado na mais profunda solidão, eterna exigência da reflexão, reinvento-me a escrever o Natal possível, depois da maior perda; eis aqui, afinal, o meu Natal recuperado…

Renato Nunes

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