Artur Fontes

No Outro Tempo. Autor: Artur Fontes

«Fui expulsa de todas as escolas do país por um período, na altura, indeterminad

Helena Cabeçadas

«Para os meus amigos exilados: oxalá possam regressar»

Rawi Hage

Helena Cabeçadas, ainda jovem e com apenas 17 anos de idade, viu-se nos idos anos 60, obrigada a fugir de Portugal, e a exilar-se na Bélgica. Permaneceu 17 anos naquele país europeu, para o qual, poderemos hoje viajar livremente. Por ter tido um tio-avô republicano, o conhecido Almirante Mendes Cabeçadas, viu-se vigiada e perseguida pela PIDE, ainda com 12 anos de idade! Por outro lado, um primo seu, Rui Cabeçadas, era na altura, um dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional, organização de exilados opositores ao regime de Salazar, com sede na Argélia. O nome de família era conhecido daquela polícia. Por esse facto, redobrariam a vigilância sobre aquela jovem que, enquanto estudante liceal, já participava no movimento estudantil em apoio à Comissão Pró Associação dos Liceus, 1962/ 63, a qual, como é fácil de perceber, não era aceite pelo regime da Ditadura. Ainda com 15 anos, Helena Cabeçadas adere ao PCP vindo mais tarde a abandonar esse partido, como o fizeram dezenas de militantes, após a Invasão da Checoslováquia, pelas tropas russas apoiadas pelas do Pacto de Varsóvia, que poriam fim à tentativa de democratização política do regime daquele país, ficando conhecida na História pela “Primavera de Praga”, mas, sobretudo, pelo apoio dado pelo PCP àquela invasão.

Escreve no seu livro “Bruxelas, Cidade de Exílios”: “As greves e o movimento estudantil de 1962 despertaram-me para a política e para a luta antifascista”. (2014:19),

Nesses anos, não havia liberdade de associação. A PIDE atacava os sectores da oposição democrática e aos seus mais activos membros. “O funcionário clandestino do PCP que controlava o sector estudantil foi preso e passou-se para a PIDE, denunciando praticamente todos os militantes (…) Seguiu-se uma repressão feroz. Sucederam-se as prisões, as torturas”. (op.cit.2014:21).

Até 1974, o movimento estudantil foi um elemento importante na luta pela democratização do país. Os estudantes das três Academias, Lisboa, Coimbra e Porto, foram um baluarte de resistência e de politização. O regime, apesar da forte repressão sobre os estudantes, sobretudo, sobre os seus dirigentes “Os que não estavam presos tinham sido expulsos, descido à clandestinidade ou sido enviados para a colónia penal de Penamacor, onde cumpriam o serviço militar”(p.23) e da grande propaganda governamental contra eles, começava a abrir brechas.

A Crise Académica de 1962, teve repercussões no sistema político. “É um tempo de viragem. O regime perde definitivamente as elites estudantis. A geração de 1962 vai-se renovando, e passando o testemunho, através das lutas académicas de 1965, de 1969, de 1972”. (in “100 Dias que Abalaram o Regime”, 2012: 7).

Alguns sectores católicos tomavam consciência da realidade politica e começavam abertamente a questionar o regime. Ainda em 1958, o célebre Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, em carta a Salazar, escrevia: “Temos que ser francos, talvez brutais: o corporativismo português foi realmente um meio de espoliar os operários do direito natural de associação, (…) e com isto se quis comprometer e, na verdade, se comprometeu, inútil mas terrivelmente, a Santa Igreja”(in “100 Dias…,p.73.). Em 1959, uma carta assinada por Lino Neto, denunciava a Oliveira Salazar, a actuação da PIDE “métodos de repressão que uma consciência bem formada não pode tolerar, e que o espírito cristão tem que necessariamente repudiar”, (100 Dias…, p. 71).Esta carta assinada por 45 católicos, entre padres e leigos, acrescentava “ V. Exª, como político, deverá um dia responder perante a História e, sobretudo, como homem e cristão, terá de ser julgado por Deus”.

Esperar-se-ia mais de uma década para que em Portugal um regime livre nos concedesse a liberdade de nos associarmos. Até esse dia, aquele que tomou a forma poética pela pena de Sophia de Mello Breyner o “Meu canto se renova/ e recomeço a busca/ De um país liberto/ De uma vida limpa/ E de um tempo justo”, até esse dia, dizia, muitos opositores foram presos, torturados, perseguidos e exilados. Muitos estudantes foram expulsos das Universidades. Da Universidade de Coimbra, como represália à luta estudantil de 1962, dos cerca de três dezenas de estudantes expulsos, aparecem dois nomes ligados familiarmente a Carregal do Sal: Rui Neves e Alberto Neves, por um período de dois anos!

Nascidos em Angola, estes dois estudantes e irmãos, eram família da Drª Maria Rita.

Como diz Helena Cabeçadas:” em Portugal, ao longo dos séculos, se foi fazendo recorrendo à tortura, à denúncia, à prisão arbitrária e à humilhação sistemática. Tento consolar-me com a convicção de que também se fez com a resistência daqueles que conseguiram, nestes períodos sombrios, ter a coragem de dizer não à violência e à barbárie”! (idem,p.107).

Há sempre alguém que diz NÃO!

Artur FontesAutor: Artur Fontes

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  • João Albuquerque

    Patrícia McGowan Pinheiro descreve bem esses tempos e particularmente os personagens. Vejamos o que disse de Rui Cabeçadas:
    “Advogado, membro fundador da Frente Patriótica e da «Comissão Delegada». Representante máximo do MAR na Argélia. Foi acusado de vários delitos por Delgado. Um dos responsáveis pela prisão dos portugueses em Maio de 1965.”

    Como sempre, tudo boa gente.

    João Albuquerque