No reino do (in)sucesso…

Era um dia quente de Verão, desses que fazem antever um Setembro em que “ardem os montes e secam as fontes”. Subitamente, o senhor Director transpôs a porta e permaneceu em pose durante alguns momentos, apenas e só a fingir contemplar. Tratava-se de um homem alto e espadaúdo, um dos presumíveis mentores do programa turístico “Allgarve”, recentemente indicado pelos amigos da situação para o cargo de Director.

Firme e resoluto, como todos os nomeados, deu dois passos em frente e exigiu: “– Abanem as cabeças, a dizer-me que sim e sorriam”. Rapidamente, todos os candidatos a professor abanaram servilmente as cabeças e escancaram as bocas o mais que conseguiram, mostrando as credenciais.

“– Tu aí – apontou o Director para um dos presentes, enquanto continuava – Tenta abanar as orelhas…” – e os outros candidatos, olhando fixamente para o interpelado, assistiram, em plena luz do dia, ao milagre das orelhas a abanar.

“– Porreiro, pá! És mesmo tu que procuramos. Vais dar umas cenas de História e Geografia. Ficas já a conhecer o teu horário, é só ires ali ao lado ter com o engenheiro Leopardo, antigo professor, reconvertido por este governo a técnico auxiliar dos desgraçados que acabam de chegar.

Entretanto, os outros já podem sair”. E dito isto atirou: “– Leopardo, pá, anda cá!” Algo atónito, o recém-escolhido ainda ripostou: “– Mas senhor, eu vinha arranjar a entrada, lá em baixo e, como não encontrei ninguém, vim subindo…”

Claramente agastado, por ter sido contrariado, o senhor Director sentenciou: “– Não posso perder mais tempo. Estás contratado.” Logo depois, Leopardo chegou. Homem de cabelos brancos, ainda de outra geração, já entrara na casa dos oitenta, estando agora a aguardar que o deixassem reformar-se.

As pernas e os braços já mal se dobravam, e quanto ao resto é melhor nem dizer nada. Assim que conseguiu recompor o fôlego, tartamudeou: “– É o novo professor? Dou-lhe os meus sinceros pêsames… desculpe, ia dizer parabéns. Dê-me, por favor, o seu certificado de habilitações e vamos tratar das papeladas, ali à secretaria.”

“– Certificado?! Qual certificado? Mas eu já disse que vinha arranjar a entrada e com esta maçada toda já passou a manhã e nada.” “– Ah! Não é licenciado – vociferou o velhote, meio agastado com todo aquele movimento – É bacharel, com toda a certeza – continuou, enquanto agarrava o braço do novo ungido, na esperança de que assim talvez não tropeçasse.

“– Ouça lá – gritou o senhor Director ao ouvido do antigo professor agora transformado em auxiliar – este não é licenciado, nem tem outros estudos para ser professor, que também não são precisos. Telefone lá para cima e veja lá se, até domingo, lhe arranja um canudo. Imprima-se aí um desses portefólios que circulam pela Net e já está reconhecida, validada e homologada a certificação. Ele vai orientar os mafarricos nessas cenas das Histórias e das Geografias.”

“– Mas, se ele não tem nenhum certificado, como é que eu vou justificar esta contratação perante os outros candidatos. Eu não quero mentir, que na minha família ainda há vergonha. Não se esqueça, senhor Director, que eu ainda tenho de afixar ali à entrada…”

“– Uma coisa é mentir, outra é faltar à verdade e, já agora, aprenda, escreva e afixe: o candidato Almíscar Sarrabulho adequa-se à especificidade dos fregueses da nossa Escola. Passou, com distinção e louvor, na entrevista de selecção feita pelo próprio senhor Director, Doutor Godofredo Frade Mamede. É assim, discurso conciso, objectivo e transparente. Percebeu?!”

“– Mas, senhor Director – investiu o ungido, ainda atordoado com a surpresa daquela escolha – eu não estudei muito… apenas concluí o antigo quinto ano…” “– Isso não importa. No teu tempo ainda se reprovava. Ah! Cambada de incompetentes, esses parasitas do antigamente! Nem sabem o quanto atrasaram este país. O dinheiro e o tempo que se perderam em reprovações! Tu, com o teu quinto ano, fazes agora um trabalho mais eficaz do que muitos pós-doutorados. Já vi que chegasse para saber da tua qualidade. O meu sexto sentido para estas coisas é infalível.”

E ausentou-se de novo para o seu gabinete, enquanto deixava o auxiliar Leopardo a tratar das miudezas, que, afinal, ele tinha trabalhos mais importantes para fazer.

Nesse dia, ao longo da tarde, o senhor Director ungiu os treze professores que ainda lhe faltavam para completar o puzzle. Alguns chegavam-lhe já recomendados pelos amigos lá da terriola:

“– Eh pá! Tenho aqui um primo que acabou agora o curso e é um ás da Matemática. Vê lá que o tipo consegue contar até mil… Ainda por cima faz de morto como poucos. Cá na terra, nunca se meteu nas politiquices, mas se for preciso tanto dá para a direita, para a esquerda, para o meio ou para o que vier a calhar, que lá boa orientação tem ele, que nunca se deixou apanhar quando ia roubar as cerejas do Hortênsio…”

Claro está que, quando as referências eram assim tão claras e objectivas nem havia possibilidade de discussão. Os candidatos chegavam, a fila formava-se – afinal, as formalidades, por muito que custe, têm de ser sempre cumpridas… – e, logo depois de umas entrevistas de arremedo, o senhor Director anunciava, bem lá do alto da sua inquestionável sapiência de nomeado, que o Doutor Zé das Burras, por simples coincidência natural da sua terra natal, era o ilustre seleccionado, tendo demonstrado que reunia todas as condições legalmente exigidas para o cargo.

Ora, nem mais! Que no reino das nomeações todos se conhecem, quase todos foram nomeados e quase todos anseiam avidamente nomear. No reino das nomeações, o mérito alicerça-se nesse respeitinho de quem avança curvadinho, eternamente pronto a afocinhar.

Algumas semanas depois, as aulas começavam. Logo pela manhã, os autocarros iam despejando os pimpolhos, arrancados das mais remotas aldeias da região. Então, quando as portas dos armazéns se abriam, os veteranos do sistema rompiam velozmente à frente e, numa espécie de ritual, olhavam os relógios, para exclamarem logo de seguida: “– Eh pá! Bora lá conhecer os maganos dos stôres novatos…” – e, de imediato, invadiam as salas dos neófitos.

A sala H, para os que estão menos habituados a estas andanças, juntava os “dinossauros” de História, Geografia, Língua Portuguesa e Filosofia. Assim que o espaço começava a encher-se, os discípulos iam rodando à volta das mesas. Num ápice, aglomeravam-se oitenta ou noventa curiosos: afinal, ainda se dizia que não era possível dar uma aula a trinta míseros alunos numa sala e, imagine-se, noutros momentos chegaram a reclamar quando cerca de setecentas escolas foram fechadas.

O tempo demonstrara que meia dúzia de compartimentos eram a panaceia ideal para todos os problemas… Ali, na sala H, havia muitos computadores Magalhães, com ecrãs enormes, jogos, muitos jogos, imagens, muitas imagens, sons, muitos sons… Tocava-se de raspão num ecrã e aparecia, por exemplo, Sócrates a saltitar, enquanto o guia filosófico dava duas cambalhotas no ar, fazia uma careta e, no fim, esbracejava: “– Sócrates foi um filósofo grego, um amigo da sabedoria, criou o método da maiêutica e morreu no século IV a.C., tomando voluntariamente a cicuta.”

Mas o pessoal já não ouvia bem a história da maiêutica, lembrava-se antes da maionese para barrar as batatas fritas, a própria palavra cicuta parecia-lhes sonoramente mais curta e, imediatamente, ria-se, ria-se muito, enquanto aguardava, ansiosamente, que o “magano” das Histórias e das Geografias saltasse para o trampolim e falasse das conquistas feitas pelos portugueses no século XV.

Eis então que o “magano”, com a tala enfiada na boca para estar sempre a sorrir, requisito fulcral para ser nomeado e depois reconduzido, desatava a emitir uns grunhidos desconexos, enquanto a rapaziada se ria, ria muito com aquela figura grotesca.

Estava, sem dúvida, a ser uma tarde bem passada. Eis quando o “magano” das Histórias e das Geografias, já a arfar por todos os lados, desferia o golpe final: “– Os portugueses conquistaram muitas terras espalhadas pelo Mundo…” – ouvindo isto, a “magana” da Língua Portuguesa apressava-se a operacionalizar ali uma articulação interdisciplinar: “– Oh pessoal da pesada! Luís de Camões – e, com os olhos fechados, dava o triplo salto mortal para trás – escreveu os Lusíadas… – e já quando, desesperada, se tentava equilibrar, batia com a cabeça em cheio na parede.

Gargalhada geral, como se pode imaginar. Era, sem dúvida, uma tarde bem passada e a rapaziada ia atingindo rapidamente as competências ministeriais, sobretudo no que se refere à propalada articulação do corpo com o espaço.

Os mais novatos, aqueles que ainda vinham habituados à sala tradicional, em que era obrigatório estar sentado, em silêncio, a ler, escrever e contar, estranhavam a princípio aqueles métodos originais, mas, à medida que o tempo ia passando, tudo se acomodava e ao fim de algumas semanas já não conseguiam imaginar outra forma de brincar às escolinhas.

Ali, testes não havia, repreensões e choradeiras muito menos, que ninguém ficava reprovado. Os orientadores bem se esforçavam por repetir que, um dia, bem lá no futuro, quando todos os meninos já fossem velhinhos, as classificações agora alcançadas iam determinar quem ficava com as melhores profissões e os salários mais chorudos. Mas, na verdade, nem os professores, nem os discípulos acreditavam nessas “estórias”, pois no reino do (in)sucesso as regras do jogo eram bem diferentes.

Entretanto, enquanto esse futuro longínquo não chegava, pela manhã, desfolhavam-se as revistas (daquelas mais pequenas, em formato económico, que a ordem era sempre para poupar) e conhecia-se, detalhadamente, os arrufos do Futebol e o que ia acontecer nas novelas das quatro, das oito, das dez e das onze.

Depois, assistia-se ao milagre dos arrivistas políticos e quejandos carreiristas a darem cambalhotas, enquanto os “maganos” dos orientadores faziam acrobacias arriscadas e diziam coisas ridiculamente engraçadas. Assim passavam os dias até que, ciclicamente, ao fim de alguns anos, o pessoal ia para a Universidade comprar outro canudo dourado para pendurar nas salas dos papás.

Nas Faculdades, já era possível tirar vários cursos ao mesmo tempo, que isso de passar cinco anos a dedicar-se, em exclusividade, a uma só ciência eram tempos do antigamente. Súcia de néscios, que tanto atrasaram este país!

De seguida, para arranjar uma boa teta, daquelas que não secasse, era só falar com os senhores directores que governavam o país e fazer tudo para ser nomeado. Afinal, nem era preciso procurar muito, pois eles estavam em todos os sítios: nas escolas, hospitais, tribunais, câmaras municipais, juntas de freguesia… Depois, bom, depois de ser nomeado era o sucesso garantido, desde que, para ser reconduzido, se continuasse a conjugar a fórmula da excelência, que é como quem, neste nosso tempo, diz subserviência.

Perante tudo isto, não compreendo como é que ainda se diz que se está a fazer um mau trabalho, quando se quer acabar com as reprovações ou com os concursos nacionais de professores, com essa treta da lista de graduação, com a média e o tempo de serviço publicitados, assim transparentes e objectivos para que toda a gente possa ver e perceber!

Quem dera que tudo isso (e muito mais) acabe rapidamente e chegue o zénite deste futuro folcloricamente tecnocrático [socrático]. A minha esperança é que, talvez aí, os nossos filhos, apesar de tudo, ainda vislumbrem o mal que lhes causámos e saibam atenuar alguns dos dramáticos efeitos que nós desencadeámos, por tanto abanarmos as orelhas, neste reino das nomeações em que, cada vez mais, vivemos…

Renato Nunes

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