‘O concelho não aguenta mais este poder autárquico’

Correio da Beira Serra – Quais são as principais diferenças entre a sua candidatura e a do PSD?
José Carlos Alexandrino –
Penso que são candidaturas completamente antagónicas. Não há uma diferença principal. Há um fosso enorme na forma como nós pensamos e encaramos o município. Na minha opinião, a candidatura do PSD é centralizadora, centrada num homem só. A minha, é uma candidatura com um líder à frente dela, que sou eu. Depois, a minha candidatura assenta no desenvolvimento do concelho, em áreas completamente diferentes, enquanto que a do PSD é mais do mesmo… é mais do que tem vindo a acontecer neste concelho.

O meu projecto é plural, abrangente, e quer ter comparticipações de todas as pessoas. Não é um projecto autista, que assenta num homem só. Esta é uma diferença substancial na forma de se encarar o concelho.

CBS – E relativamente ao movimento de eleitores independentes “Oliveira do Hospital, Sempre”?
JCA –
Penso que nos tocamos nalgumas coisas e temos algumas semelhanças. De qualquer maneira, também há diferenças entre nós e na forma como encaramos o concelho. Somos duas pessoas diferentes, mesmo sendo os dois José Carlos, cada um tem a sua experiência. No entanto, essa candidatura provem do próprio PSD, enquanto que a minha é uma candidatura independente debaixo da bandeira do PS, porque eu não sou filiado em nenhum partido e, por isso, há aqui uma diferença substancial entre nós.

CBS – Se for eleito presidente da Câmara – todos sabemos que é difícil a qualquer dos candidatos obter uma maioria absoluta –, admite uma coligação com José Carlos Mendes?
JCA –
Eu não gostaria de fazer cenários prováveis. Esses cenários poderão ser construídos a partir do dia 11 de Outubro. O que eu quero dizer e reafirmar, é que eu farei sempre (uma coligação), seja com quem for, onde estiverem os interesses do concelho de Oliveira do Hospital. Se assim for, estou disponível para conversarmos e encontrarmos soluções, para construirmos um futuro diferente para os nossos jovens e para os habitantes de Oliveira do Hospital. É verdade que nos aproximamos muito mais da forma de pensar de José Carlos Mendes do que do PSD. Sem dúvida nenhuma que não me vejo a fazer uma aliança com o PSD, por uma razão extremamente simples: a forma como têm feito política demonstra que não é possível fazer alianças com eles.

CBS – E no caso de derrota, assegura o lugar de vereador?
JCA
– Em primeiro lugar, esse é um caso que não se põe porque eu vou ganhar as eleições. Na minha opinião, o nosso projecto é o melhor para o concelho. O concelho não aguenta mais este poder autárquico. Portanto, o que quero dizer é que reafirmo a minha disponibilidade para servir o meu concelho e os seus interesses.

CBS – Tem feito algumas promessas arrojadas, como são os casos, por exemplo, da criação do parque tecnológico experimental no Pólo Industrial da Cordinha, ou a criação de uma agência de desenvolvimento intermunicipal para os Vales do Alva e Alvôco. Explique-nos a sustentabilidade destas propostas.
JCA –
Não sou um homem que tenho a mania que sabe tudo, sou um homem de boas práticas que gosta de falar com quem sabe. E quanto ao Parque Tecnológico tenho feito contactos, por exemplo, com a Universidade de Aveiro, e – através do meu mandatário João Nunes, um jovem investigador com muito valor – com um departamento da Universidade de Coimbra, para discutir a estrutura deste parque tecnológico. Este projecto terá que estar ligado ao ensino superior e às boas práticas das universidades, como a Escola Superior de Tecnologia e Gestão que também será convidada para participar.

Nós não podemos pensar que vamos ter parques industriais como antigamente, em que se faziam uns lotes e umas estradas ao meio e cediam-se às empresas. Tem que haver uma ruptura com isso. Na minha opinião precisamos de formas diferentes de criar esses parques. Esses parques tecnológicos vão ter uma estrutura que vai ser montada pela própria câmara, e onde as empresas também se vão instalar. A esse chamar-lhe-emos parque tecnológico experimental porque precisamos de criar algum “know-how” para depois alargarmos a experiência ao concelho. Também pensamos fazer zonas industriais com essas características diferentes, mistas e com zonas de serviços aqui na zona central de Oliveira do Hospital e outra na zona sul. Ainda não definimos as localizações porque precisamos de ter conhecimento do PDM e do que é que ele prevê. No caso do da Cordinha, o espaço está aprovado e sabemos com o que é que podemos contar.

No que respeita à agência de desenvolvimento para os vales do Alva e Alvôco, eu não consigo perceber como é que desperdiçaram tanto tempo, quando há verbas comunitárias e temos zonas tão bonitas que poderiam ser a nossa marca do concelho. Não consigo perceber quem não teve uma ideia sustentável para desenvolver aquilo. Já fiz alguns contactos com o candidato do PS à Câmara Municipal de Seia, mas ainda não fiz com o de Arganil…este projecto terá que assentar numa agência intermunicipal porque há interesses comuns.

Penso que é fundamental termos uma parceria, candidatarmo-nos aos quadros comunitários e criarmos uma zona demarcada até aos vales do Alva e Alvôco. Os projectos intermunicipais têm uma maior comparticipação e é assim que devemos encarar o futuro. Num mundo cada vez mais global, ainda continuamos cada um com a sua quinta …temos que trabalhar em conjunto. Eu também estou disponível para esse trabalho em conjunto. Reconheço que esta é uma incapacidade deste executivo, que não foi capaz de o fazer, quando até tem relações privilegiadas com Arganil. Não foram capazes de criar e inovar. E não é apenas no Turismo, é em muito mais do que isso. São as próprias margens do rio e os produtos da zona do vale do Alva. É preciso termos um turismo de qualidade e penso que Oliveira do Hospital tem que arranjar uma marca decisiva que se venda. E, temos que pôr à frente dessa agência, gente que perceba disto e não afilhados políticos e gente que é para fazer, mas não faz. Nós queremos fazer e temos ideias de como é que isso se faz.

CBS – A sua candidatura tem insistido muito na criação de emprego. Por sua vez, o actual presidente da Câmara vem dizendo que não é à autarquia que compete criar empresas. Explique-nos, com algum pormenor, em que é que se baseia para estar tão ciente de que vai mesmo criar emprego…
JCA
– Reconheço que quando foi fácil fazer essa criação de emprego, este poder – e vi o senhor presidente responder-me por várias vezes na Assembleia Municipal – remetia sempre para os empresários o que era dos empresários e, para o município, o que era do município. Perdeu-se tempo e oportunidade.

Em Oliveira do Hospital há já 12 anos que não se instala uma empresa. E, isto é sintomático: é porque o município não foi capaz, ou não quis – e não sei porquê – ouvir a oposição. Conheço alguns presidentes de câmara, alguns deles do PSD, e percebi que aqui há uns anos eles estavam preocupados em trazer empresas para os respectivos concelhos, enquanto que o nosso, aqui, achava que isso era um problema dos empresários. Mas na verdade não é, porque os problemas dos munícipes dizem respeito à Câmara Municipal. A Câmara representa os interesses dos munícipes, tal como o governo representa os interesses de todos os portugueses. Não houve esse entendimento por parte do poder que lá está, que não teve essa visão.

O presidente da Câmara e a sua equipa têm que estar concentrados nos desígnios do concelho. E esta é outra grande diferença entre mim e o poder que lá está instituído, por uma razão muito simples: eles estão concentrados naquilo que não é o essencial, enquanto que eu concentrar-me-ei naquilo que é o essencial e nos grandes desígnios e nas grandes obras do concelho. Para a pequena obra teremos as juntas e as delegações de competências. Esta é também uma nova forma de ver o poder autárquico e de dar dignidade às juntas.

O desenvolvimento empresarial é a minha primeira prioridade. Candidato-me sobretudo com esta lógica…entrei na corrida à Câmara a pensar nos nossos jovens e na sua fixação no concelho. É difícil bater às portas, negociar e trazer pessoas, mas penso que com a construção dos IC 6, 7 e 37 nós vamos alavancar Oliveira do Hospital deste atraso, deste marasmo e vamos desafiar o futuro. Vamos trazer a Oliveira do Hospital o centralismo que já teve e perdeu.

A minha maior bandeira será a capacidade de atrair empresas diferentes. Para isso, temos que ir à procura delas e criarmos-lhes condições. Temos que trabalhar em parceria com organismos do próprio Estado. Eu sou um homem de diálogo e sou capaz de bater às portas e falar com esses agentes de que necessito para me ajudarem, porque eu não tenho a mania que sei tudo. O meu compromisso é de trazer riqueza para o concelho. Acredito que esta crise vai passar e a economia vai-se relançar com mais força.

CBS – Neste périplo que tem feito pelo concelho, quais são os principais problemas que vem detectando?
JCA
– Como deputado da Assembleia Municipal tinha a obrigação de conhecer alguns problemas com que hoje me deparei. Tive melhor conhecimento deles agora, por ser candidato. Sem dúvida nenhuma, que o que a mim me assusta são os problemas ambientais, sobretudo o saneamento básico. É uma vergonha o estado em que o concelho se encontra…ter esgotos a entrar no rio Alva que é de uma beleza extraordinária. Tome-se o exemplo de Aldeia das Dez, Travanca de Lagos e tantos outros sítios, onde são visíveis problemas de saneamento básico e abastecimento de água.

Neste momento, estas questões ambientais estão na mão das Águas do Zêzere e Côa (AZC) e tenho que saber em que ponto é que estão as coisas, o que é está a ser feito, o que poderá vir a caminho e o que é que tenho que acabar. Estas são algumas dúvidas que eu tenho.

Mas tenho a certeza de que quando for eleito, este é um dos combates que terei que fazer. Devo participar também na qualidade do abastecimento da água. Sei que na zona da Cordinha, a AZC tem as tubagens todas colocadas, mas ainda continuamos a ter água de má qualidade…não sei onde é que estão os problemas. Ainda temos lixeiras a céu aberto, mas o saneamento é a maior vergonha deste concelho. Nunca poderemos ter um concelho de qualidade enquanto tivermos estes problemas de saneamento básico.

CBS – Vamos falar de questões concretas como a ESTGOH. Concorda com a instalação da Escola no antigo Centro de Negócio de Lagares da Beira?
JCA
– Na minha opinião o problema da ESTGOH é complexo e já deveria ter sido resolvido pelo actual governo e por esta Câmara Municipal. Penso que andar por detrás das pessoas a candidatar um projecto, sem dar conhecimento a ninguém, não é o melhor caminho para nos levar a uma solução.

Neste momento há, pelo menos, duas hipóteses para a ESTGOH ficar no concelho: existem os terrenos que foram comprados pela Câmara com esse objectivo – sinceramente ainda não sei se o terreno é de facto o indicado para acolher um projecto desta grandiosidade –, e há o problema da ACIBEIRA para ser resolvido e a possibilidade de a ESTGOH ser lá instalada. Esta é uma decisão que cabe não só à Câmara, mas ao presidente do Instituto Politécnico de Coimbra e ao Ministério da Ciência e do Ensino Superior. Acho que são estas três entidades que devem decidir o que é melhor para Oliveira do Hospital.

Portanto, aceito que a Escola possa ser construída nos terrenos existentes que foram comprados pela Câmara, ou até noutra zona da cidade, mas também não posso deixar de admitir, só por razões de carácter eleitoralista, a instalação na ACIBEIRA. O que entendo é que, em primeiro lugar, devem ser analisadas as vantagens e as desvantagens de cada solução. Se ganhar as eleições, como espero, vou promover uma ampla discussão sobre esta questão, e serei breve na decisão. Mas primeiro é preciso chegar-se a um consenso sobre qual é a solução que melhor serve os interesses do concelho, que tem que ser visto como um todo. Num projecto desta natureza, não podemos andar a brincar às escondidas nem em jogos eleitorais. A ESTGOH é decisiva para construir o futuro de Oliveira do Hospital, e não pode é sair do concelho.

CBS – Para além da ESTGOH, tem alguma ideia em concreto para a ACIBEIRA?
JCA
– Em primeiro lugar, aguardamos que alguns departamentos do ensino superior nos dêem algumas ideias relativamente àquele espaço, quanto à possibilidade da instalação de um ninho de empresas naquele elefante branco do concelho.

Contudo, o essencial é que se resolva o problema da ACIBEIRA. Eu como presidente, comprometo-me a resolver o problema da ACIBEIRA, seja através de um ninho de empresas, ou pela venda a um conjunto de empresários. Já fui contactado por empresários que manifestaram esse interesse. Neste momento, não podemos assumir nada, mas temos ideias claras sobre aquilo.

A verdade é que a ACIBEIRA não pode continuar assim. Nestes 16 anos, a Câmara já deveria ter encontrado uma solução, mas foi sempre parte do problema.

CBS – Na área da Educação, sintetize-nos algumas das propostas da sua candidatura?
JCA –
A Educação é a minha área, é uma área que me diz muito e onde eu me sinto muito bem e sou especialista. Eu sou contra o fecho de algumas escolas onde o número de alunos seja insuficiente. Defendo, por exemplo, que as escolas do Seixo e de Vila Franca continuem abertas, porque com o tecido empresarial que vamos trazer para Oliveira do Hospital, vamos ter mais gente a trabalhar. Se vamos ter mais gente, vamos ter mais miúdos, que vão dar mais vida às aldeias. E, as escolas vão ver aumentar o seu número de alunos. Temos é que criar condições melhores naquelas escolas, para que os alunos tenham as mesmas oportunidades que os colegas que frequentam as escolas integradas. Acho que houve falta de visão, porque já o professor César Oliveira que construiu as escolas básicas integradas fez uma ruptura em termos educativos…percebemos agora que esta câmara não dialoga com os encarregados de educação, como no caso de Senhor das Almas. Se houvesse visão ter-se-ia candidatado a construir um centro escolar em Nogueira do Cravo para toda aquela zona envolvente. Não houve essa visão e hoje há estes problemas.

Também fui muito crítico em relação à recuperação daquilo que chamam de Centro Escolar de Oliveira do Hospital. Já que havia verbas disponíveis no QREN, eu entendia que deveria ter sido construído um centro escolar de raiz na zona escolar. Não percebo que se chame centro escolar a um espaço, onde as crianças têm que ir almoçar a outras instituições fora. Isto não tem condições. Isto é organizar a Educação para o passado e não para o futuro como deveria acontecer. O que falta neste concelho, em muitas áreas, é desafiar o futuro.

CBS – Como é que interpreta o facto de o PCP de Oliveira do Hospital ser hoje um dos principais adversários políticos da sua candidatura?
JCA –
Não comento. O PCP saberá das linhas com que se cose e, sobre isso, não tenho nada a dizer.

CBS – Em quem é que vai votar no próximo dia 27 de Setembro?
JCA –
Vou votar no PS. Como sabem, na área da Educação, sou um homem que muito contestei as políticas educativas. Nesta matéria, o governo foi um bocado autista, não ouviu os professores e fez alguns disparates, nos quais eu não me revejo. De qualquer maneira, quando me dão como alternativa o PSD e a Manuela Ferreira Leite … recordo-me bem de quando ela foi ministra da Educação, e acho que ela foi uma ministra de má memória que nunca recebeu os sindicatos. E eu fazia parte de um sindicato da área da UGT e tenho memória e, por isso, voto no PS, achando que ele pode repensar e alterar algumas coisas na Educação, para que os alunos tenham cada vez mais qualidade nas suas escolas.

HB/ LL

LEIA TAMBÉM

“A minha luta ainda é de tentar que o sr presidente caia nele e veja que só foi eleito para ser presidente e não para ser dono da Câmara”

António Lopes admite em entrevista ao correiodabeiraserra.com que a solução política que defendeu  “não foi …

“O senhor presidente da Câmara diz que cumpre a lei, mas neste momento está em incumprimento claro”

O empresário a quem o município de Oliveira do Hospital não autoriza o arranque das …