“Uma sociedade onde impera o medo não é uma sociedade livre. Esta é uma das causas da fraqueza da nossa democracia.

O jovem Edmundo

O Estado Democrático deve ser independente dos partidos. Deve estar ao serviço dos cidadãos”.

A frase, proferida num artigo de opinião no “Público”, é de Edmundo Pedro – um militante de causas nobres que, no passado fim-de-semana, foi ao congresso do Partido Socialista desafiar José Sócrates a ter uma atitude “pró-activa” no combate ao clima de medo que se instalou no seio dos partidos políticos e, muito concretamente, no próprio PS.

Este medo, explica o jovem Edmundo – o antigo preso político do Tarrafal anda na casa dos 90 anos, mas a sua juventude expira muita mais confiança do que essas pescadinhas de rabo na boca que cada vez mais infestam a lota da política portuguesa –, tem uma explicação: “está relacionado com a defesa dos empregos e dos cargos” ocupados por gente medrosa, e que há muito trocou a sua liberdade pela segurança.

Como bem diz Edmundo Pedro – é aliás uma verdade de La Palisse –, os “carreiristas entram nos partidos, muitas vezes sem convicções, para obter proveitos materiais”. O fenómeno é nacional, mas se o analisarmos numa perspectiva local, verificamos que a radiografia é muito fácil de examinar a olho nu.

Deixo-vos um desafio mental: quem é quem, hoje, na cena política local? Muitos deles são os tais “carreiristas” que se aproveitaram da âncora dos partidos da chamada esfera do “bloco-central” para se projectarem numa sociedade, em que os cartões de militante são uma espécie de número da sorte à medida da ambição e da ganância de cada um.

É por isso que eu admiro este Edmundo Pedro. Aos 90 anos, tem a coragem de pôr o dedo numa ferida que já muita gente viu – embora com medo de ver! –, mas que continua a gangrenar.

Com uma lucidez invulgar, este antifascista que “malhou com os ossos na prisão”, também nos lembra a pesada herança que muitos teimam em conservar. Pois, conforme recorda, “a autolimitação da liberdade vem do tempo da Inquisição. Foi prolongada e aprofundada durante meio século de ditadura”. E o medo, diz Edmundo, citando José Gil, autor do livro “Portugal Hoje – O Medo de Existir”, está “na pele da maioria dos oliveirenses – dos portugueses, queria eu dizer! –, mesmo de forma subconsciente”.

Henrique Barreto

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