Tem capacidade para 50 utentes e acordos de cooperação para apenas 12, mas a falta de apoios da Segurança Social não impede o lar de idosos de Ervedal da Beira de iniciar a sua actividade no segundo dia do novo ano.

“O lar é uma necessidade, não uma megalomania de alguém”

A obra – um investimento de um milhão e 300 mil euros – vai ser estriada por 46 utentes, porque “as necessidades impõem-se à própria falta de apoios”. Imagem ActivaDeveria abrir portas ainda em Dezembro, mas pelo facto de se avizinhar o Natal que é, por excelência, a festa da família, reservou-se a abertura oficial do lar de idosos do Centro Social e Paroquial de Ervedal da Beira, para o segundo dia de 2008, ficando o dia 1 reservado a uma visita que os familiares dos utentes farão pelas instalações, a convite da instituição.

A obra há muito que era urgente na Cordinha, uma zona referenciada como “totalmente a descoberto” em matéria de lar de idosos. Terá sido esta percepção que, há cerca de 12 anos, levou a actual direcção da Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) a encetar esforços no sentido de dar resposta de lar à zona da Cordinha. A ideia foi sendo sucessivamente protelada, por se considerar que o ante-projecto existente e pensado para 50 utentes era “ambicioso”. “A Segurança Social dizia que se fosse só para 25 utentes havia financiamento”, recordou ao Correio da Beira Serra, António José Duarte elemento que integra a direcção da IPSS desde a sua constituição. “A grande questão” – explicou o actual presidente da direcção, padre Luís Costa – “é que há 10 anos a resposta de 25 utentes era manifestamente insuficiente”. “Esta foi a melhor opção”, considerou, notando que se trata de uma obra para toda a Cordinha e não apenas para a freguesia de Ervedal.

O sonho é antigo, mas foi com a presidência de Luís Costa que a direcção da IPSS arregaçou as mangas e colocou a obra no terreno, num investimento de um milhão e 300 mil Euros. Os trabalhos iniciaram-se em Janeiro de 2006 e o equipamento está pronto a receber os primeiros utentes, embora com um ano de atraso, justificado com as habituais “obras a mais”. O que não se esperava era que da Segurança Social não houvesse, até ao momento, qualquer comparticipação, a não ser os 12 acordos de cooperação que, acabaram também por ficar aquém das expectativas da instituição. “Por palavra foram-nos garantidos 25 acordos, mas por escrito ficou apenas a comparticipação económica para equipamento fixo e móvel e acordos de cooperação em conformidade”, contou o padre Costa. Regozija-se pelo apoio de 150 mil euros cedido pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital e por donativos de particulares, de entre os quais se destaca a verba de 100 mil euros atribuída pelo empresário e benemérito António Lopes. “Embora sejam migalhas” – contou – foram de crucial importância as verbas resultantes dos peditórios realizados em cada uma das localidades da Cordinha. “Cada terra tem aqui o seu pedacinho”, referiu.

“Tinha que se fazer”
Depois da obra feita, Luís Costa e António José Duarte têm quase certeza de que os apoios da Segurança Social não mais virão. Mas, o futuro é promissor e o presidente da direcção garante que “a casa está preparada para que, a seu tempo, se pague”. Recorda que já há muito tempo que não é pedido dinheiro à Segurança Social, mas antes apresentadas duas candidaturas ao PARES. Costa e Duarte reconhecem o esforço financeiro que a direcção se vê obrigada a fazer – foi contraído um empréstimo junto da Caixa de Crédito – mas justificam-no com uma questão de necessidade. “Tinha que se fazer”, vincou António Duarte. Já o Padre Luís Costa fez questão de deixar claro que “o lar é uma necessidade, não uma megalomania de alguém”.

O novo edifício prolonga as instalações do Centro de Dia e ocupa o edifício do Solar Marquês Sá da Bandeira, pertença da Câmara Municipal que cedeu o direito de superfície àquela IPSS para o fim explícito de lar de idosos. Dotado de 28 quartos, quatro salas de convívio, áreas de serviço, consultório médico, lavandaria, gabinetes de acção social e administrativos, uma cozinha e refeitório com capacidade para dar resposta a 90 pessoas, o novo lar de idosos do concelho é – segundo Luís Costa – um equipamento de referência. “A obra é muito técnica e será de referência durante muito tempo. Está preparada para que, daqui a 10 anos, esteja perfeitamente actual”, contou o responsável, dando o exemplo do recurso a determinados sistemas, como o aproveitamento de águas pluviais para abastecimento dos autoclismos e aproveitamento de energias. Explicou também que toda a estrutura é suportada por cabos de aço, impedindo qualquer tipo de movimentação, mesmo em caso de ocorrência de sismos.

“A Sul e a Norte as realidades são diferentes”
Imagem vazia padrãoA nova valência vem – segundo Luís Costa – pôr cobro a “um desequilíbrio notório” que se verificava no concelho. “Admito que o nosso concelho tem uma cobertura de lar acima da média de outros concelhos, mas não podemos vê-lo todo como uma harmonia. A Sul e a Norte as realidades são diferentes”, considerou. Garante não recear qualquer tipo de concorrência entre os vários lares do concelho, incluindo os privados. “Fazemos um excelente serviço e esta é a nossa melhor publicidade”, referiu, acrescentando que a IPSS que dirige prima pela “qualidade” e é por isso que sempre se continuará a bater. Tem noção clara do que é a realidade da Cordinha, razão que o leva a considerar que “pelo menos 500 idosos, de uma forma ou de outra, poderão vir a subscrever uma casa deste tipo”, e diz-se mais preocupado com aqueles que não procuram o lar do que com os que o procuram. Por este motivo, já encetou um trabalho ao nível do voluntariado com o objectivo de detectar casos de idosos que realmente careçam do serviço da IPSS. “É para aí que queremos caminhar”, confessou.

Para além do apoio a idosos, a nova valência do Centro Social e Paroquial de Ervedal da Beira vem igualmente contribuir para a empregabilidade na Cordinha. No total, será criada mais uma dezena de postos de trabalho, com a particularidade de os mesmos serem ocupados por pessoas da Cordinha.

“Monumentos da Vida”
Utentes, funcionários, técnicos e membros a direcção integram uma exposição de fotografia patente numa das salas de convívio do lar de idosos de Ervedal da Beira. O tema é “Monumentos de Vida” e o seu autor – um estrangeiro residente na Cordinha – apresenta em fotografia os rostos expressivos de quem mais sabe da vida: os idosos.

Liliana Lopes

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