“O meu pai pôs-me atrás de um balcão com nove anos”

… em que o progenitor – o conhecido comerciante José Marques de Assunção – lhe comprou uma bicicleta, avisando-o de que assim podia fazer os recados mais depressa.

“Tem a sabedoria dos velhos e a alegria dos novos”, afirmou Nuno Teixeira, um docente da disciplina de Português da Escola Secundária de Oliveira do Hospital (ESOH), referindo-se ao colega Álvaro Assunção, que este sábado, dia 22, foi homenageado enquanto “pedagogo e artista”, num jantar realizado no hotel S. Paulo, pelo Rotary Club..

Alvo de grandes elogios, a homenagem ao conhecido professor, licenciado em Geologia, foi “um dos pontos mais altos” na história do clube rotário de Oliveira do Hospital, actualmente presidido por um “compagnon de route” de Assunção na arte de declamar poesia – José Vieira.

“Nunca foi um político… mas sempre fez política”

“Nunca foi um político, mas sempre fez política”, sublinhou um outro colega da ESOH, Paulo Albernaz, que ficou com a incumbência de apresentar o vasto currículo académico e cultural do filho de um dos mais prestigiados comerciantes de Oliveira do Hospital, José Marques de Assunção.

Num discurso cheio de eloquência e com muita ironia à mistura, o bem disposto padre Borges, também ele um antigo colega de Álvaro Assunção, recordou algumas estórias do passado, lembrou o facto de aquele docente ter conseguido a proeza de colocar 15 alunos a tirarem uma licenciatura em Geologia na Universidade de Coimbra, e sintetizou a relação entre ambos da seguinte forma: “… com o Álvaro Assunção é fácil. Eu confesso-me a ele e ele confessa-se a mim”.

O antigo director da Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTGOH), Francisco Neves, não controlou a emoção, quando pediu a palavra para falar de uma pessoa que o antigo presidente da câmara, Carlos Portugal, lhe apresentou há 7 anos. “Gosto deste homem”, desabafou Neves, sem deixar de salientar o empenho com que Assunção desempenhou funções na sua passagem pela ESTGOH.

“Técnicas de balcão”

Numa sala cheia de gente amiga e conotada com variados quadrantes políticos– notou-se, porém, a ausência da câmara municipal –, a única filha do homenageado, Catarina Assunção, teve o condão de contagiar o pai e os amigos com as suas emocionadas palavras. “Fico muito satisfeita em saber que as pessoas conhecem as coisas boas dele”. Notando que estava ali um poeta, um autor e um grande actor”, Catarina relevou o facto de o pai nunca ter saído de Oliveira do Hospital, salientando que “a vida dele podia ter sido outra”.

Com a espontaneidade e o peculiar semblante que o caracterizam e distinguem, Álvaro Assunção foi peremptório ao afirmar que “a nossa escola contribuiu muito” para que ele estivesse ali a ser homenageado. Numa altura de grande tensão entre professores e a ministra da Educação, o homenageado teceu grandes elogios ao corpo docente da Escola Secundária de Oliveira do Hospital, e até conseguiu pôr um brilhozinho nos olhos dos colegas quando criticou, de forma implícita, a forma como o governo vem lidando com aquela classe profissional.

Frisando que, paralelamente à escola, o pai e a mãe foram decisivos na sua formação, Assunção recordou os tempos da sua meninice e o dia em que o pai lhe comprou uma bicicleta, advertindo-o no entanto que o velocípede sem motor era para o “Varito” deixar de fazer os recados a pé. “O meu pai pôs-me atrás de um balcão e a varrer o armazém com nove anos… se calhar, hoje, era proibido”, disse, com orgulho, o homenageado, sem deixar de ironizar que ainda hoje utiliza a “táctica de balcão” para vencer os dias mais difíceis.

Auto-retratando-se como um amante da liberdade, Álvaro Assunção, que na escola onde lecciona tem mais de 30 colegas que já foram seus alunos, explicou que nunca andou nas lutas anti-facistas, apesar de ter privado, em Coimbra, com muitos conspiradores do regime, como César Oliveira, de quem era amigo íntimo, Manuel Alegre e Alberto Martins.

Com muita poesia – António Gedeão (Rómulo de Carvalho, foi professor de Físico-Quimica de Álvaro Assunção, em Coimbra), Miguel Torga, Tarquínio Hall e o francês Jacques Prévert, foram alguns dos autores com poemas declamados –, o presidente dos rotários, José Vieira, tinha a satisfação da justeza da homenagem estampada no rosto. Pois, para ele, “o professor, pintor e declamador é daquelas pessoas que contagia pela amizade”.

Henrique Barreto

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