“As complicação da Segurança Social”, o pesadelo de Marques, do Lar de Avô, que teme acabar imóvel numa cama por falta de dez mil euros para uma cadeira

Sentado numa cadeira eléctrica, totalmente comandada pelos dedos, um dos poucos elementos sobre os quais ainda mantém controlo, uma voz límpida e uma mente lúcida, António Marques vai contando as suas agruras. A vida deste homem, 51 anos, é assim. Depende completamente desta tecnologia, devidamente adaptada à sua condição de saúde e de um ventilador, alimentado a bateria. Sobrevive no lar de Avô, concelho de Oliveira do Hospital, onde conta com a estima dos funcionários. Sem o pequeno veículo estaria literalmente confinado a uma cama, só podendo mexer os dedos. António precisa agora de uma máquina com rodas que custa dez mil euros para compensar a degradação contínua do seu estado de saúde. Mas a Segurança Social de Coimbra, diz, “está a protelar o problema e a transformar a sobrevivência” deste paciente “para além dos limites do tolerável”.

_DCS0007 (Medium)Sofre de Distrofia Muscular de Becker. Uma doença neuromuscular caracterizada por crescente perda de massa muscular e fraqueza, por degeneração do musculoesquelético, liso e cardíaco, que acompanha António desde os primeiros dias de vida. Sem lhe oferecer outra alternativa que não fosse uma vida imóvel numa cadeira e uma máscara para respirar.

O que mais aflige este doente é o actual dispositivo, já com onze anos, não oferecer as condições necessárias para o estado avançado da doença. As deslocações têm de ser cada vez mais curtas, as avarias são frequentes, o desconforto e as dores insuportáveis. “O meu grande receio é que ela avarie de vez e não me deixe outra solução que não seja ficar confinado a uma cama”, lamenta, enquanto vai respirando de forma artificial, recuperando de mais uma das duas consultas semanais em Coimbra. A actual cadeira não compensa, por exemplo, eventuais perdas de equilíbrio, numa enfermidade em que uma queda pode ser fatal. Este veículo, de resto, segundo os especialistas, já deveria ter sido trocada há algum tempo._DCS0016 (Medium)

Sem meios para dispor dos 10 mil euros necessários para a compra, António Marques tem enfrentado um braço de ferro com a Segurança Social de Coimbra vai para mais de um ano. A instituição, explica António, “teima em lhe criar problemas, apesar das prescrições médicas”. “Falta sempre um papel qualquer, nunca nada está bem. Agora inventaram que tenho de ser eu a procurar orçamentos de várias cadeiras. Pensam que tenho condições. Não foi a eles que lhes caiu em casa este azar…”, lamenta, explicando que tem colegas nas mesmas condições que já receberam cadeiras adaptadas no valor de 17 mil euros. “A mim fazem-me isto”, conta quase sem conter a emoção. O CBS tentou falar com o centro de ajudas técnicas da Segurança Social de Coimbra, mas sem êxito.

Os primeiros sinais de que algo não estava bem com António Marques surgiram logo nos primeiros anos de vida. Os sinais foram aumentando. Caía _DCS0009 (Medium)com frequência, não conseguia acompanhar os colegas. Aos 12 anos uma cadeira de rodas tornou-se inevitável. Conseguiu estudar até ao actual sexto ano. Mas teve de desistir. O prognóstico não foi bom. Os médicos davam-lhe uma esperança de vida de 30 anos. Já passaram há muito. “Já ganhei 21 à dita cuja”, conta tentando sorrir. No que lhe resta, espera pelo conforto de uma nova cadeira. O próximo passo será abrir uma conta solidária no banco para tentar angariar os fundos necessários. “Tenho de tentar qualquer coisa, não é verdade?, pergunta. Os serviços sociais da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital que ainda deram qualquer apoio, talvez por desconhecimento, também deverão em breve ser confrontados com este problema.

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