O CBS foi entrevistar o mais jovem presidente de Câmara do país. Com 31 anos, Ricardo Alves confessa-se preocupado com o problema da desertificação que atinge Arganil, mas promete empenho na criação de emprego e habitação. São duas políticas que o autarca do PSD considera fundamentais para “travar a desertificação”

‘O problema mais delicado que temos de enfrentar é o da desertificação’

Correio da Beira Serra – Encontra alguma espécie de vantagem ou desvantagem em ser o mais jovem presidente de Câmara do país?
Ricardo Alves –
Eu sempre disse que ser jovem é um ponto importante em termos daquilo que é a nossa capacidade para criar algumas rupturas. Julgo que temos uma energia diferente para enfrentar os problemas. Por ser o mais jovem autarca do país… tenho sentido simpatia quer por parte dos organismos da administração central, quer por parte de outras organizações. Penso que com isso o concelho também ganhou alguma visibilidade.

Imagem vazia padrãoCBS – Em traços gerais, qual é a análise que faz destes três anos do seu mandato?
RA –
Dois anos e meio! Acho que acima de tudo temos a consciência de estarmos a cumprir aqueles que eram os nossos objectivos em termos de estratégia de desenvolvimento para o concelho. Em primeiro lugar resolvemos o problema financeiro, que era uma situação extremamente preocupante. Hoje em dia a Câmara municipal tem uma saúde financeira muito razoável face ao quadro dos municípios portugueses e uma boa imagem junto de fornecedores e empreiteiros.

Por outro lado, o primeiro ano foi também marcado pelo planeamento das grandes linhas estratégicas para o concelho, em relação a um conjunto de projectos que considerávamos da maior relevância e estamos já numa fase de execução. Estamos a construir dois centros educativos – um em Coja e outro em S. Martinho da Cortiça –, a que se sucederá a remodelação da Escola EB 1 de Arganil. Portanto, há uma aposta forte na educação. Nós temos três objectivos estratégicos: melhorar a qualidade de vida, desenvolver produtos turísticos competitivos e fortalecer a estrutura económica. A questão do ambiente também nos preocupava e está a ser feito um trabalho importante, através da construção de novas estações de tratamento de águas residuais (ETAR) em parceria com as Águas do Mondego. A ETAR de Arganil está construída e vamos também construir as ETAR de Coja, Vila Cova de Alva e Barril do Alva – as obras arrancaram este ano – e, depois, temos também as ETAR de Pomares e de S. Martinho da Cortiça. Ainda no campo da qualidade de vida, desenvolvemos o projecto para a reabilitação da antiga Cerâmica Arganilense. É talvez o projecto mais ambicioso deste mandato. Esta primeira fase, que são 4,5 milhões de euros, começa com a construção das piscinas aquecidas municipais. O processo está já em fase de análise das propostas, para arrancarmos com a obra ainda este ano.

Temos também investido muito em matéria de acessibilidades, reforçando as ligações entre Pombeiro da Beira e S. Martinho da Cortiça, que são duas freguesias que têm que fazer o seu futuro com base em parcerias comuns. Fizemos a ligação da estrada 342 à 344 e algumas ligações urbanas em Coja.

No campo do turismo, para além da criação de um centro interpretativo de Arte Rupestre de Chãs d´ Égua, da beneficiação de praias fluviais, estamos a apostar muito nas ligações. Neste momento, com o apoio do Governo estamos a desenvolver o acesso principal ao Piódão, através de uma intervenção de 13 quilómetros e a ligação entre a Mata da Margaraça até Monte Frio, o que permite a ligação entre uma aldeia de xisto, que é a Benfeita, e a aldeia histórica do Piódão.

Estamos a desenvolver também o Plano Estratégico para o turismo, que é coordenado pelo professor Augusto Mateus, porque entendemos que o concelho tem uma grande potencialidade nessa área, e é importante coordenar as acções públicas com as acções privadas, de forma a criar-se aqui um cluster nesta área do turismo. Temos excelentes condições naturais para receber visitantes.

Do ponto de vista do desenvolvimento económico, estamos neste momento já em construção com o Centro Empresarial e Tecnológico de Arganil, que vai permitir a criação de 15 empresas no sector dos serviços, com condições especiais para jovens empreendedores, e uma unidade tecnológica, que resulta de uma parceria entre a Câmara municipal, a Universidade de Coimbra e duas empresas locais na área das energias renováveis e que estará pronto até ao mês de Setembro.

Paralelamente a isso, estamos também a desenvolver esforços no sentido de ampliar a zona industrial da Relvinha e conseguimos captar um investimento luso-italiano que se vai instalar em breve no concelho e temos vários pedidos para a instalação de indústrias.

Portanto, julgamos que neste momento o balanço é positivo e estamos a fazer aquilo com que nos comprometemos.

CBS – Tenciona recandidatar-se?
RA –
Ainda não é o tempo para fazer essa avaliação. Temos sentido da parte dos munícipes um apoio e um incentivo para prosseguirmos o nosso trabalho. Temos tido uma gestão aberta com as instituições e com as pessoas mas, na altura própria, anunciaremos essa decisão. Neste momento, estamos é preocupados em cumprir aquilo com que nos comprometemos.

CBS – Falava há pouco no turismo… acha que o futuro do concelho de Arganil assenta muito nesse sector?
RA –
Não só no turismo, mas é uma enorme oportunidade. Penso que temos que concentrar aqui esforços no sentido de procurar em conjunto com as dinâmicas locais e com aquelas que venham a surgir, ter um destino de qualidade, um produto turístico, e conseguir que as pessoas se mantenham por aqui alguns dias. Para isso, e para além das potencialidades naturais e paisagísticas e do património que temos, é preciso gerar aqui animação e conseguir uma forte participação dos privados. É nisso que nós estamos a apostar, porque isso pode criar postos de trabalho e criará certamente riqueza.

CBS – E em termos de intermunicipalidade, na área do turismo. Não acha que seria importante concertar acções com outros concelhos vizinhos?
RA –
Sim. Nós estamos neste momento a trabalhar muito fortemente nos concelhos de Arganil, Tábua e Oliveira do Hospital num projecto integrado de valorização dos açudes, das praias fluviais e, também, até em matéria de tratamento de águas residuais, porque o turismo e o ambiente são indissociáveis. Estamos a trabalhar numa perspectiva integrada para receber visitantes. É um passo importante esta vontade comum destes municípios.

Imagem vazia padrãoCBS – O PS acusou-o recentemente de apenas ter concretizado 45 por cento dos investimentos inscritos em Orçamento, o que na óptica da oposição não corresponde “nem a metade do que o próprio PSD se propôs fazer….
RA –
Em primeiro lugar, acho que deve existir memória. Basta ver os números de execução dos planos de actividade do PS nos últimos oito anos para facilmente se perceber que dificilmente chegam a este valor. Por outro lado, essa crítica é uma falácia uma vez que do conjunto de obras que estavam previstas no plano de actividades de 2007, esta execução de 45 por cento diz respeito a execução financeira. Em termos de execução física, as obras, algumas delas, já se tinham iniciado. Como a Câmara municipal paga a 60 dias, muitas das obras que se iniciaram depois do dia 1 de Novembro, os primeiros autos só serão pagos em 2008. Portanto, se do ponto de vista da honestidade política for considerado aquele conjunto de obras que estavam previstas no plano de 2007, facilmente se chegará à conclusão que a maioria delas já estão todas a ser executadas. Portanto, o que importa, do ponto de vista político, são os resultados no terreno.

CBS – Quais acha que são actualmente os problemas mais prementes do concelho de Arganil?
RA –
Eu acho que o problema que nós temos talvez mais delicado e que temos que o enfrentar, recorrendo à inovação e à competitividade, é um problema que afecta um pouco os concelhos todos da região e que é a desertificação. De facto, aquilo que se sente é que os concelhos perdem população e, portanto, acho que esse é o grande desafio. Nós temos que conseguir – e quando digo nós, não é só o concelho de Arganil – criar emprego e habitação. São duas políticas fundamentais para travar a desertificação e, depois, procurar paulatinamente ganhar população.

CBS – Não acha que no campo da inter-municipalidade e no âmbito da cooperação entre municípios vizinhos, a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Oliveira do Hospital (ESTGOH) pode ser um factor importante no combate à desertificação, nomedamente em termos de resposta ao nível da formação dos jovens estudantes de Arganil?
RA –
Acho. A ESTGOH tem que ser um projecto regional. Temos que deixar de ter esta cultura de querermos tudo para os nossos concelhos. Acho que a ESTGOH é um projecto de muito mérito e entendo que as forças vivas da região se devem rever nele. Temos as maiores expectativas quanto ao êxito desta escola.

CBS – Tem havido alguma cooperação institucional, contactos, entre a ESTGOH e o município de Arganil?
RA –
Sim, tem havido contactos, há um número significativo de pessoas do concelho a estudarem na ESTGOH e, portanto, registamos com muito apreço o trabalho que tem sido desenvolvido pela ESTGOH e esperamos que também crie melhores condições para prosseguir a sua actividade.

CBS – E em termos da Eptoliva, que tem aqui um pólo em Arganil, e que é outro exemplo de inter-municipalidade….
RA –
A Eptoliva tem desenvolvido um trabalho importante no campo da formação profissional e, por isso, é um projecto que deve ser acarinhado pelos três municípios e pelos seus parceiros, no sentido de prestar a melhor formação possível na área profissional, procurando centrar-se naquilo que são as necessidades reais do mercado de trabalho da região.

CBS – Há rumores de que o pólo de Arganil poderá encerrar…
RA –
Não, não há nenhuma intenção do município de Arganil sobre essa matéria.

CBS – Como é que comenta os protestos que surgiram quando se começou a discutir que os utentes do Centro de Saúde de Oliveira do Hospital poderiam vir a ser encaminhados para a futuro Serviço de Urgência Básica (SUB) de Arganil?
RA –
Com naturalidade. Julgo que esse tipo de protestos é compreensível. Eu não quis, em momento nenhum dessa contestação, contribuir para acicatar os ânimos ou reclamar aqui qualquer vitória do concelho de Arganil em termos de saúde.

O concelho de Arganil tem uma estrutura nova em termos de centro de saúde, tem condições técnicas e meios humanos para ter um serviço de urgência básica e o governo decidiu que esse SUB, com funcionamento durante 24 horas, seria criado em Arganil. Portanto, estamos prontos a receber os utentes dos concelhos que ficarem abrangidos por este SUB. Agora, compreendo perfeitamente a situação de Oliveira do Hospital e partilho das preocupações do senhor presidente da Câmara, porque o entendimento que nós todos temos é que há aqui questões de natureza regional e de acessibilidades que prejudicam os rácios que são defendidos pelo ministério da Saúde, mas mantemos serenamente a nossa satisfação por receber este SUB, porque temos todas as condições para o receber.

CBS – Como é que está esse processo? Está para breve?
RA –
Sim, julgo que está tudo encaminhado para muito rapidamente começar a funcionar.

CBS – Não acha que os autarcas desta região – incluindo, porventura, também o presidente da Câmara de Arganil – têm uma visão de território muito restrita aos seus concelhos, lidando mal com a intermunicipalidade….
RA –
É natural que cada presidente queira o melhor para o seu município. Isso é perfeitamente normal. Agora, o que eu acho é que existe aqui uma consciência nova dos autarcas de que devem trabalhar em conjunto e que devem estar atentos àquilo que são os novos desafios, porque hoje em dia a nossa competitividade já não é bem entre os nossos concelhos mas é entre regiões. Portanto, acho que a criação da Associação de Municípios do Pinhal Interior Norte é absolutamente decisiva do ponto de vista daquilo que é a equidade e a coesão territorial. Estamos a trabalhar 14 municípios, já nos entendemos sobre muitas matérias, nomeadamente as acessibilidades, e sobre aquilo que de facto defendemos. Acho que essa visão, quase paroquial, dos nossos municípios começa a esvanecer-se e as pessoas começam a perceber que tem que haver um espírito de parceria para toda a região. O que é importante é que a nossa região tenha municípios que primem pela excelência e que sejamos todos bons.

CBS – Como é que classifica o relacionamento e a postura do Governo perante o município de Arganil?
RA –
Temos tido um relacionamento que se enquadra num bom espírito de cooperação institucional. O governo tem respondido de forma afirmativa a algumas solicitações que temos feito. Da nossa parte, isso também tem acontecido e, neste momento, o que posso dizer é que relacionamento entre o município de Arganil e o Governo é de boa cooperação institucional, aliás, como deve ser. Não posso dizer que o concelho de Arganil esteja a ser prejudicado pelo governo, porque de facto não é isso que acontece.

CBS – Há aqui uma questão recente que gerou alguma polémica e que tem que ver com o facto de uma decisão algo inédita. Trata-se do facto de a Câmara municipal de Arganil ter indeferido a instalação de uma nova superfície comercial no concelho do grupo Jerónimo Martins, com a argumentação de que esse investimento poderia ajudar a asfixiar o comércio local. É assim?
RA –
Temos que fazer uma avaliação de acordo com o tempo em que vivemos e aquilo que nós considerámos foi que nem a localização que era pretendida, mas especialmente a questão do comércio local, poderiam ficar prejudicadas pela entrada de uma nova superfície, até porque já temos duas médias superfícies no concelho.

Entendemos também que nesta fase, em que há quebras importantes sob o ponto de vista do consumo e em que há dificuldades de escoamento dos produtos por parte dos comerciantes, não seria a melhor altura para a entrada de uma outra média superfície. A comissão que avaliou essa situação – é constituída pela Câmara, por a Assembleia Municipal, pela ACIC, pelo Instituto do Consumidor e pela delegação regional do Ministério da Economia –, aprovou por unanimidade essa decisão.

Liliana Lopes
Henrique Barreto

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