"O Planeamento é a organização da esperança"

Abundantes foram as vezes em que vociferei aqui contra a alienação cívica portuguesa, cuja dimensão confrangedora pode ser diagnosticada aquando de momentos eleitorais.

O prometido é de vidro

Propulsionada por aquilo que de mais grosseiro e obtuso existe na política: a manipulação cognitiva do povo, que iludido, unta com o seu voto, figuras que desconhece (quase) em absoluto. Ao ler na íntegra o relatório da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, (www.sedes.pt) divulgado há pouco mais de uma semana, somos levados no essencial a admitir que aquele está impregnado de razão. Oferecendo um cariz percuciente, fará justiça a um país que há muito meteu a cabeça no sítio dos pés, e vice-versa, numa lógica de gestão dos despojos da coisa pública, que pouco se importa com o futuro, na senda do adágio popular: “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”.

Sem audácia para brandir. A pátria está murcha e os portugueses acabrunhados. Passada a ilusão de chegarmos ao céu (com a entrada na União Europeia) voltámos ao purgatório, e corremos o risco do inferno. Temos um dos piores índices de analfabetismo da Europa. Temos um dos índices de produtividade mais baixo da Europa. Temos um número assustador de falências empresariais. Temos um dos índices mais altos de corrupção do Mundo. Temos um défice público estupidamente alto. Temos uma taxa caricatural de crescimento económico. A nossa taxa de desemprego continua a aumentar de mês para mês. Temos os gestores mais improdutivos da Europa. O nosso sector primário é inexistente. O nosso sector secundário é pouco concorrencial. O nosso sector terciário é ineficiente. A nossa média de salários está muito abaixo da média europeia. Os nossos impostos estão muito acima da média europeia. Tivemos 3 governos diferentes em dois anos. Temos uma das taxas mais baixas da Europa na frequência e conclusão de cursos universitários. Temos o índice de obesidade infantil mais alto da Europa. Somos o 23º país dos 25 da União Europeia. Somos o país que mais anti-depressivos consome per capita. Constatada assim a penumbra… precisamos de nos escudar como país. E sem complacência açoitada: “darmos nação ao Estado, darmos povo à nação e darmos homens ao povo”.

Mas. Se deixámos que os abusos de posição dominante de alguns quadros da sociedade portuguesa, se agravassem quando os mesmos dominantes se assumem como os próprios árbitros do processo. Se formatámos uma classe de novos dirigentes políticos obtusos e servis, que querem falar por mim, por si, como se fossem visionários em terra de cegos. Se a obediência às mesmas regras do jogo, trouxeram ao país, uma acaciana classe política, uma justiça imperceptível para os cidadãos, um Estado-Social de faz-de-conta e uma comunicação social panfletária, é urgente despertar. É preciso mudar. Mas esta mudança tem necessariamente de passar por cada um de nós, exercer a cidadania, ser mais exigente com quem nos governa, não calar as desigualdades e agir localmente.

Aqui neste espaço tenho ao longo deste ano e meio, apelado a que exista no nosso Concelho capacidade de criação de um pensamento crítico, enraizado nas circunstâncias, independente no propósito, e que de certa forma possa fiscalizar o poder politico. Creio que mais tarde ou mais cedo esta plataforma de cidadania vai produzir efeitos. Mas pelo caminho… deixemo-nos de tretas, de carreirismos políticos e encaremos a sério os problemas.

Existem ainda empresários que investem, que correm riscos, que tentam competir num mercado global e que não vivem de pagar salários de miséria e fazer batota com a Segurança Social. Existem agricultores que investem e modernizam, sem ficar sentados à espera do subsídio que nunca é suficiente. Existem trabalhadores sérios, competentes, empenhados em fazer melhor, aprender e progredir profissionalmente. Se ainda existem. Basta fazer um furo no ovo e pôr a cabeça no seu devido lugar!

Se o desenvolvimento local se inscreve (e actualmente, cada vez mais), na busca de um outro desenvolvimento, em que os fluxos adensam os lugares, e é de lá, onde a vida acontece, que se criam novas redes sociais capazes de aprofundar a democracia económica e ramificá-la para uma escala geográfica maior. Haja alguém que consiga provar, que há na nossa pequena escala municipal, efectiva predisposição política, para a mobilização local e a oferta de oportunidades?

Considero. Que são facilmente demonstráveis os inúmeros obstáculos e resistências a processos dessa natureza, a começar pela nossa cultura política, marcadamente clientelista e centralizadora. O que demonstra bem, como a componente estratégica, marginal durante as primeiras décadas de poder autárquico – hoje entendida pela maioria dos cidadãos como crucial – não encontra abrigo no nosso terreno autárquico. E isto tem de provocar uma insuprível tentação para descortinarmos em conjunto, as suas causas. Por mim, invoco a primeira: Há muito tempo que depois do esgoto, o nosso concelho precisa de ideias.

P.S. A subscritora destas crónicas quinzenais assumiu recentemente o compromisso cívico de se ligar a um partido político, pelo que passou a correr o risco de os respectivos escritos periódicos serem qualificados como contrários à independência crítica. Desenganem-se, pois, todos quantos me tentarem enclausurar como porta-voz de uma qualquer coisa que me ultrapassa.

Lusitana Fonseca

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