“O saneamento foi sempre uma guerra que travei com o anterior executivo”

 

Para o presidente Junta esta é uma vitória depois da “guerra” que travou com o anterior executivo municipal. No último mandato à frente da Junta de Lagos da Beira José António Guilherme, eleito pelo PSD, não encontra prejuízos nas mudanças ocorridas na Câmara Municipal,tendo até a registar os benefícios que daí decorrem.

Correio da Beira Serra – Exerce o último mandato na presidência da Junta de Freguesia de Lagos da Beira. Como avalia o trabalho realizado?
José António Guilherme –
Em meu entender e de todo o executivo da junta, acho que temos vindo a fazer um trabalho positivo. Durante três mandatos estive à frente de uma equipa excelente. Tenho que reconhecer, porque para se ser um bom presidente, também tem que se contar com uma boa equipa e eu tive sempre essa felicidade. Só neste último mandato é que tive um novo elemento (feminino) devido à lei da paridade, mas também escolhi muito bem.

CBS – Quais as principais diferenças que encontra na freguesia e que sejam decorrentes da sua passagem?
JAG
– Muitíssimas e no que respeita a acessibilidades então nem se fala. A estrada que liga Oliveira do Hospital a Lagos antes era muito estreita e degradada, mas agora está ótima. O acesso à Zona Industrial esteve durante muitos anos dependente de promessas de vários mandatos e foi concluído no mandato anterior. Todas as acessibilidades e caminhos foram bastante melhorados.

CBS – Nos anteriores mandatos partilhou a cor política do executivo municipal, situação que não acontece no presente mandato. Encontra prejuízos nessa realidade?
JAG –
Não. Acho que até foi positivo em muitos aspetos. Tenho um relacionamento muito bom com o atual executivo. Há até uma relação de amizade com o presidente e os vereadores. Apesar de termos sido eleitos por cores políticas diferentes nunca vi retaliações. De maneira alguma fui mal recebido pelo presidente da Câmara. Antes, muitas vezes íamos à Câmara e quase que passávamos por mendigos e até chegávamos a ser mal recebidos. Não quero dizer com isto que não me atendessem as minhas reivindicações. Felizmente, que isso mudou. Neste momento nós temos um valor que nos permite fazer um orçamento e trabalhar.

CBS- Está-se a referir à transferência de verbas às freguesias instituída pela Câmara Municipal?
JAG
– Sim. Isso acho que foi uma mais valia para todas as juntas, porque sabemos à partida com o que podemos contar. Isso permite fazer uma relação das obras que é preciso fazer na freguesia e o respetivo orçamento. Antigamente, não podia fazer isso. Fazia um orçamento sem pensar no que iria acontecer.

CBS – As fossas séticas sempre foram o problema maior da freguesia? Qual o ponto da situação em matéria de rede de saneamento básico?
JAG
– Isto foi sempre uma guerra que eu travei com o anterior executivo. Foi sempre uma preocupação da Junta em relação às fossas de Lagos, Chamusca e Póvoa das Quartas. Quando foi para aprovação de adesão à AZC, eu fiquei preocupado porque diziam que só fariam ETARS em localidades com mais de 300 habitantes, situação que me preocupou por causa da Chamusca e Póvoa. Na altura o presidente da Câmara disse-me que no início trataríamos de Lagos da Beira que, depois, logo se resolviam os casos da Chamusca e da Póvoa. Optei por me abster na votação porque entendi que a nossa freguesia não estava a ser beneficiada.

Felizmente que as coisas mudaram. O saneamento básico tem sido uma das principais bandeiras do presidente da Câmara. As coisas parece que estão no bom caminho. Na sede de freguesia, já foi construída a Estação Elevatória que vai ligar, em breve, à ETAR da Lajeosa. Penso que dentro de um mês, as coisas estarão solucionadas. Na Avenida Carvalho Monteiro, a estrada que liga a Oliveira do Hospital também não tinha saneamento e neste momento o problema já está solucionado. Penso que na Póvoa também vamos ter a situação resolvida com a construção de uma ETAR. Já foi feito levantamento do terreno e há disponibilidade de um senhor o ceder para esse efeito. Vai-se fazer uma ETAR, cujo modelo até desconhecia, em que vai ser feito um poço e um depois um tanque que leva plantas purificadoras de água. Na Chamusca é que está mais difícil. Andámos com técnicos da Câmara a ver um terreno, mas o proprietário tem criado complicações.

CBS – Há um ano a freguesia foi brindada com a abertura da Biblioteca Museu Tarquínio Hall. Um projeto antigo que tardava em sair da gaveta…
JAG –
Foi uma luta muito grande. O Dr. Tarquínio deixou-nos o espaço com usufruto da esposa e das filhas. Encetámos várias negociações com os herdeiros para comprarmos usufruto da casa e cumprirmos a sua vontade expressa em testamento de aqui criarmos uma Biblioteca Museu. Também mostrámos interesse em adquirir o quintal, que era número separado, mas os herdeiros começaram por nos pedir muito dinheiro e eu entendi que não podíamos dar aquele valor. Lá chegámos a acordo com o valor e depois a complicação foi arranjar o dinheiro.

CBS – O anterior executivo municipal também não facilitou…
JAG –
Pois não. Foi uma luta que tive que travar com o anterior presidente da Câmara para disponibilizar verbas para comprarmos o que hoje aqui temos. Fizemos aqui um investimento na ordem dos 120 mil Euros e a Câmara apoiou quase tudo. A conclusão das obras também não foi fácil e acabou por ser o atual presidente da Câmara a desbloquear a verba que faltava para podermos acabar os trabalhos e abrir o espaço. A Biblioteca Museu está sempre aberta e é frequentada por muito jovens que se vêm servir da internet. Também temos aqui a escola de música e o espaço serve ainda de sede da nova Associação de Solidariedade Social criada para gerir o legado de Virgílio Hall da Fonseca.

Obras do Centro de Dia deverão arrancar ainda este ano

CBS – Já há então novidades acerca da aplicação do legado (335 mil Euros e dois apartamentos em Armação de Pêra). A obra de cariz social sempre vai avançar?
JAG –
Neste momento o valor já subiu para os 350 mil Euros devido aos juros. Inicialmente pensámos criar uma fundação, mas a ideia não chegou a ser aprovada a nível governamental. Em conjunto com o vereador da ação social, José Francisco Rolo, decidimos avançar para a constituição da Associação de Solidariedade Social Professor Virgílio Hall da Fonseca. Os estatutos já foram criados, foi feita escritura, criada uma comissão instaladora e até já temos projeto para construção de um Centro de Dia. Inicialmente, pensámos que 350 mil Euros e dois apartamentos davam para muita coisa e começámos por pensar em construir um lar. Mas, o que é certo é que gerir um lar fica muito mais caro e quando nos falaram em um milhão e meio de euros só para a construção de um lar, desistimos. Optámos por criar um Centro de Dia, com apoio domiciliário e jardim de infância. Espero que, ainda este ano, se comecem as obras no espaço ao lado da Biblioteca Museu. O professor Virgílio também nos deixou um terreno com 16 mil metros quadrados e inicialmente pensámos em lá implantar o Centro de Dia, mas não autorizaram por estar localizado em área de Reserva Agrícola Nacional.

CBS – O legado de Virgílio Hall da Fonseca é suficiente para suportar os custos da construção do Centro de Dia?
JAG –
Sim. O projeto está orçamentado para um valor mais elevado, mas quero ver se falo como arquiteto para cortamos num ou outro aspeto. Se com o dinheiro deixado conseguirmos pagar a obra, com os apartamentos vamos conseguindo algum fundo de maneio. Neste momento, o município está a fazer alguns arranjos para se alugarem os apartamentos, como forma de fazer face às despesas que se têm, porque lá os condomínios também são caros. Neste momento, não será a melhor altura para vender e até lá será um fundo de maneio para a associação desenvolver a sua atividade.

CBS – No futuro, haverá possibilidade de ampliação do edifício para a vertente de lar de idosos?
JAG
– Não. O espaço onde vai ser feito o Centro de Dia não permite ampliação. É uma pena muito grande que não possamos usar aquele terreno de 16 mil metros quadrados. Vamo-nos cingir ao Centro de Dia, Apoio Domiciliário e Jardim de Infância, havendo também a possibilidade de acolhermos a valência de Centro de Noite agora muito em voga.

CBS – Como é que olha para o contributo dado pelos dois irmãos Hall à freguesia?
JAG –
Foi a única família da freguesia que deixou alguma coisa à nossa terra. É um contributo muito importante e que contribui para a melhoria da qualidade de vida.

CBS– Lagos da Beira, em particular Póvoa das Quartas, já fez parte da rota de unidades hoteleiras emblemáticas do concelho e da região. O espaço foi vendido, mas continua fechado. Esta a par dos projetos previstos para o espaço… gostava de voltar a ver a Estalagem de Santa Bárbara a acolher turistas nacionais e estrangeiros?
JAG
– Aquilo, de facto, é uma pena estar fechado. Nós chegamos ali e temos um cenário natural que é qualquer coisa de maravilhoso. Ainda me recordo da inauguração daquela pousada, veio cá o presidente da República, Américo Tomás… foi um dia de muita chuva. É uma perda para a nossa freguesia. O espaço albergou ali muita gente nacional e estrangeira e, quem ali passava ficava maravilhada com o espaço e a paisagem. A unidade foi comprada por um senhor de Seia, mas até ao momento encontra-se fechada.. Aquilo era um dos cartões de visita da nossa freguesia. É uma pena. Já falei algumas vezes com o proprietário e a ideia dele é aumentar o número de quartos para rentabilizar o negócio, mas de momento não sei qual o ponto da situação.

CBS – Como avalia as condições de vida em Lagos da Beira? Quais as respostas ao serviço da população?
JAG –
Temos a Escola primária e jardim de infância. O apoio à infância sempre foi uma preocupação nossa e por esse motivo, hoje a Junta de freguesia trabalha num cubículo. Antes não tínhamos ATL, nem refeições para as crianças do Jardim de Infância e os pais estavam a levar as crianças para a cidade. Foi então que decidimos ceder a nossa sala de reuniões para ATL e refeições, para conseguirmos que as crianças não saíssem da freguesia. Fizemos isso em boa hora, porque o jardim de infância funciona bem e tem perspetivas para assim continuar. Dada a proximidade com a cidade, a freguesia não dispõe de outros serviços, como de saúde, CTT ou outros. Mas acabamos por ter tudo aqui ao pé e a população já está assim habituada.

“Devemos ser um por todos e todos por um”

CBS – Lagos da Beira tem perdido população?
JAG-
Sim. em 10 anos perdemos mais de 100 pessoas. Antes tínhamos 911 e agora não chegamos a 800 habitantes. A nossa freguesia tinha todas as possibilidades de se expandir, mas infelizmente o PDM limita muito a construção. Ainda assim, continuamos a contar com muitos jovens na freguesia.

CBS – Como olha para o processo de extinção de freguesias? Dada a proximidade com a sede de concelho teme pelo futuro de Lagos da Beira, enquanto freguesia?
JAG
– Para mim esta lei é uma aberração. Por ocasião do Livro Verde nós estávamos em situação de extinção. Agora, não há certezas de nada. Acredito que não encerrem esta freguesia porque fazemos fronteira com o concelho de Seia e o distrito da Guarda. Temos três localidades e acho que isso era matar a nossa cultura e identidade. A minha Assembleia de Freguesia já rejeitou essa possibilidade. Penso que a Assembleia Municipal também vai rejeitar e concordo, porque acho devemos ser um por todos e todos por um. Vamos aguardar e se a unidade técnica decidir pela agregação, quando precisarem de votos que venham cá dar a cara e pedir o voto ao povo.

CBS – Qual tem sido o impacto do desemprego na freguesia? Há situações de carência económica? JAG – É uma preocupação. Há jovens e menos jovens afetados pelo desemprego. Às pessoas com idades entre os 40 e 50 anos que se encontrem desempregadas vai ser muito complicado conseguir novo posto de trabalho. Vai ser uma das coisas que eu vou pedir ao presidente da nova associação, para que na hora de recrutamento de pessoal dê preferência aos desempregados da freguesia. Os casos de pobreza vão acabar por surgir. Alguns ainda têm os pais vivos que fazem cultivação e dali fazem as refeições. A minha preocupação é mais daqui por um ano ou dois. A Junta está atenta e quando damos conta de algum caso encaminhamos para a Câmara Municipal que tem apoiado algumas famílias.

CBS – A freguesia tem algum associativismo, mas recentemente revelou-se preocupado com a crise diretiva que paira sobre a Associação Desportiva de Lagos da Beira…
JAG –
Costumo dizer que sinto orgulho em ser presidente da freguesia, porque Lagos da Beira tem gente muito ativa. Na localidade sede de freguesia, o associativismo está morno. Mas nas outras localidades está bastante ativo. Um associação que temos apoiado bastante é a dos Amigos de Lagos da Beira, um Grupo Musical que está com muitas atividades e tem levado longe o nome da freguesia. De facto, na Associação Desportiva de Lagos da Beira as coisas não têm corrido tão bem. Não tem havido disponibilidade das pessoas para criar uma direção. Em tempos até chegou a existir uma equipa de futebol e eu até estava na direção quando fomos campeões distritais do Inatel. Ao longo dos anos as pessoas vão-se cansando e, antes, a malta jovem também não tinha tantos atrativos como tem hoje e viam a associação como um ponto de encontro.

CBS – O campo está a ser usado pela camadas jovens do FCHO…
JAG
– Sim, por via de um protocolo. E até foi uma mais valia para o espaço e até para a freguesia..

CBS – Acredita que venha ser apetrechado com relvado sintético? JAG – É uma promessa do presidente da Câmara e espero que cumpra. Regozijo-me quando passo ali ao fim de semana e vejo tanto miúdo a jogar à bola. Mas se não se criarem condições para os miúdos se fixarem, eles vão para outros lados. É uma oportunidade de fixar a juventude.

CBS – Uma novidade em Lagos, são as lombas…
JAG –
Sim é verdade. Se às vezes respeitássemos as velocidades dentro das populações não havia necessidade de nada disto. E eu contra mim falo. Às vezes arrepiava-me e chegaram a haver alguns acidentes. Muitas pessoas fazem desta estrada uma auto estrada. Fizemos tudo de acordo com a lei. Recordo-me do meu colega de Vila Franca da Beira fazer essa reivindicação porque já tinham ocorrido vários acidentes mortais na estrada que atravessa a freguesia. Se calhar também nós iríamos chorar e temos que prevenir essa situação. Colocámos quatro lombas. A população agradece e até já me vieram pedir para colocar outra junto à Associação Desportiva.

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