É um sonho, mas como disse Gedeão “o sonho comanda a vida”.

O sonho e a realidade…

A cidade de Oliveira do Hospital está enclasurada e tem sido vítima da falta de visão e de estratégia do poder local. Vivemos numa cidade acanhada e com traços de um provincianismo confrangedor. Nem sequer um plano rodoviário municipal temos, que é um instrumento de gestão cada vez mais indispensável. Cada um quase constrói onde lhe apetece e, hoje, é cada vez mais difícil rasgar novas vias de comunicação internas que nos unam a alguns núcleos populacionais que certamente contribuiriam para que ganhássemos outra escala e uma outra densidade urbana.

É um sonho, mas para mim ir de Oliveira do Hospital a Nogueira do Cravo – ou vice-versa – deveria estar à distância de uma boa avenida com boa iluminação. O mesmo se aplicaria a todas as freguesias periféricas à cidade, porque o que está em causa é alargar horizontes e promover a mobilidade dos cidadãos. Vivemos numa cidade onde não existe cultura urbana. As pessoas saem das fábricas e nem sequer um passeio têm. Andam no meio da estrada. É uma espécie de “Tudo ao molho e fé em Deus”…

Se um dos meus filhos quiser ir a pé mostrar o património histórico da Bobadela a uns amigos, por exemplo, tem de percorrer três ou quatro quillómetros na berma da estrada e sujeitar-se a variadíssimos riscos. É um absurdo! Mas se um jovem da Bobadela quiser vir ao cinema, o problema coloca-se em sentido contrário. Quem é que, por exemplo, ousa ir à Catraia de S. Paio a pé? No entanto, a distância é idêntica à que demora a percorrer a Sá da Bandeira, em Coimbra, da baixa até à Praça da República. Depois dizem-me que não há público para a sala de cinema e que aquela Casa da Cultura só dá prejuízo. Saiba o poder local estimular as pessoas, e vamos ver se as coisas não se invertem.

Nesse aspecto, acho que devemos pôr os olhos em Viseu para perceber como é que Fernando Ruas transformou a outrora provinciana cidade de Viriato numa das mais interessantes cidades do interior do país. Ali, tudo está próximo porque o prestigiado autarca do PSD tem sido incansável em fazer respirar a cidade com novas vias que a colocaram em interacção com toda a sua periferia. O resto apareceu depois, mas apareceu porque o desenvolvimento foi influenciado e estimulado.

Nos meus tempos de adolescente – é preciso recuar mais de vinte anos atrás – lembro-me que Abraveses era um bairro distante de Viseu onde as pessoas alugavam ou construíam as suas casas especialmente por uma questão de preço. Hoje, é uma vila com vários milhares de habitantes e que já está “conectada” com Viseu.

Já alguém um dia ousou pensar quais seriam, por exemplo, as dinâmicas que se poderiam gerar com um projecto intermunicipal – e aqui o sonho é maior – que promovesse a mobilidade das pessoas que habitam nos municípios vizinhos de Seia e Tábua? Com os três concelhos juntos, estamos a falar de cerca de 70 mil habitantes.

Mas o nosso cantinho é em tudo idêntico à divisão da propriedade rural portuguesa. Cada um tem o seu quinhão, as propriedades estão pulverizadas por inúmeras parcelas e – como dizia César Oliveira – “as pessoas preocupam-se é com aquilo meu”.

Assim está a grande maioria dos nossos autarcas, que andam de quatro em quatro anos preocupados com questões comezinhas mas muito propícias à atracção do voto.

Se continuarmos com esta ambição tacanha, jamais teremos capacidade de atracção populacional e, como diria Camões, tudo fica como dantes: uma apagada e vil tristeza.

Tenham um Bom Natal!

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