O sonho

Na hora marcada, 9h30, partimos os dois no Toyota Starlet. Próximo de Midões, pedi autorização para fumar um cigarro.

– “O problema é seu. Se se quiser matar, mate-se”, respondeu Mário Alves. Sempre com os olhos postos na faixa de rodagem, Alves lança-me a primeira pergunta: – “Onde é que paramos?

– “Em Tábua”, respondi-lhe. Começámos por visitar a Biblioteca Municipal João Brandão e depois fomos dar uma espreitadela ao pavilhão multiusos que está já em fase de conclusão no concelho de Tábua.

– “O nosso pavilhão municipal chega perfeitamente para as necessidades. Isto é esbanjar o dinheiro dos contribuintes”, observou o presidente da câmara. Deixei-o falar…

Acendi mais um cigarro. – “Porra… você anda sempre aí a falar do amianto nas escolas e dos esgotos, mas também se farta de poluir o ambiente”, repreendeu-me o presidente. Esbocei um sorriso…

Por sugestão minha, entrámos na variante de Tábua – em construção – e fomos ver o Ninho de Empresas de Mortágua. Mário Alves olhou demoradamente para o edifício e dirigiu-se à placa da obra. –”Xiça, a União Europeia comparticipou isto com 432 mil euros?” –”Ó presidente, então, a câmara daqui meteu um projecto e sacaram a massa”, expliquei.

– “Ah, nós em Oliveira estamos a pensar em alugar um espaço só por descargo de consciência. Se quer que lhe diga não acredito muito nessa modernice das incubadoras de empresas”, opinou. Tentei – sem sucesso – convencer Mário Alves a deslocarmo-nos até ao concelho de Cantanhede. – “Vamos antes a Arganil, pode ser que o Ricardo pague o almoço”. Anuí à sugestão e sugeri que passássemos pelo Centro Empresarial e Tecnológico de Arganil ainda antes de almoço. – “Ó Barreto, isto qualquer dia é mais um elefante branco como aquele que lá temos em Lagares da Beira. Eu cá prefiro gastar o dinheiro a dar condições de vida às populações, fazendo estradas e alcatroando os caminhos. Os tractoristas têm os mesmos direitos que os automobilistas”. Repliquei a argumentação de Mário Alves, mas verifiquei que ele não me deu grande atenção.

– Ó presidente, podíamos ir ver também o Centro Escolar de S. Martinho da Cortiça”, sugeri. –”Já vi isso… você há-de ver é o que vamos construir em Oliveira do Hospital e por muito menos dinheiro”. Comecei a sentir algum incómodo na conversa, sobretudo porque percebi que as minhas opiniões eram o mesmo que “chover no molhado”.

Logo por azar, a secretária do presidente da Câmara de Arganil disse que ele estava numa reunião com um secretário de Estado em Lisboa. Tivemos que ir comer ao Zé das Bifanas. Depois de um café com um cheirinho, partimos – sem grande vontade de Mário Alves – para Seia. – “Já não vinha aqui há anos”, confidenciou-me o meu companheiro de viagem, ao mesmo tempo que ligava o pisca para ir abastecer nas bombas de gasolina do Pingo Doce.

Ali perto, aproveitámos para visitar as instalações da Escola Superior de Telecomunicações e Turismo. – “Está a ver. Em Oliveira a nossa escola está no quartel dos bombeiros e, aqui, têm todas as condições. Os gajos do PS são assim…, argumentou Mário Alves.

– “Mas ó presidente, não será antes porque o Eduardo Brito disponibilizou o terreno a tempo e horas?” – “Lá está você com as suas politiquices”. Calei-me…

– “Vamos ver o Centro de Interpretação da Serra da Estrela, ou já que fomos para a Região de Turismo do Centro não lhe interessa”? – “Vamos lá ver essa coisa. Com essas obras todas esse tipo vai é deixar a câmara na falência”. Como o tempo ainda sobrava, aproveitámos também para fazer uma visita aos museus da cidade, mas Mário Alves disse-me que nós – jornalistas – só sabemos valorizar o que é de fora.

– Bem, vamos até Oliveira do Hospital, que ainda tenho que ir ver as obras do silo, que é só pedra para rebentar e nunca mais saímos dali.

Apanhámos a estrada nacional 17 – “sempre quero ver quando é que esses papagaios que andam para aí a falar nos IC´s os constroem. É só propaganda”, vociferou Mário Alves, saindo ligeiramente da faixa de rodagem.

Propôs-me que fossemos ver as obras da estrada Oliveira do Hospital/Felgueira Velha e dirigimo-nos à Ponte do Salto por Travancinha. De repente, quando saímos do concelho de Seia e entrámos no de Oliveira do Hospital, o Toyota parecia desgovernado e o ruído era imenso. Acordei estremunhado e, por breves segundos, tentei perceber o que é que se estava a passar… tinha tido um sonho!

Henrique Barreto

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