OPINIÃO: A ditadura do digital…

– Eis uma questão, recorrentemente, colocada pelos adolescentes nas Escolas portuguesas. De facto, se pensarmos no “choque tecnológico” implementado nos últimos anos, talvez não seja muito difícil imaginar que os velhos cadernos e as canetas que nos habituámos a ver em cima das secretárias acabem por ser substituídos pelas novas tecnologias, que emergem, aos olhos de muitos, como a panaceia para todos os problemas do sistema educativo.

Os computadores “Magalhães” aparecem hoje como a imagem de marca do estudante nacional, mas eles são apenas a ponta de icebergue de um movimento mais complexo que passa, por exemplo, pela gradual substituição do quadro-negro e do insosso giz pelos modernaços quadros interactivos, pelos comandos individuais que permitem a cada aluno ensaiar, a partir da sua carteira, alguns célebres jogos já eternizados em formato televisivo ou ainda, apenas a título de exemplo, pelas Acções de Formação que os docentes têm de frequentar na área das novas tecnologias, tendo em vista o famigerado reconhecimento da sua “competência digital”, desiderato final de qualquer docente que se preze…

Embora reconheça que existe hoje uma tendência muito vincada para todos nos deixarmos levar pela ditadura do teclado e admitindo o contributo válido que as novas tecnologias desempenham nas sociedades actuais, penso que será pertinente reflectir nalguns aspectos que passo a enumerar.

I – As novas tecnologias não são imprescindíveis para que exista um bom ambiente de trabalho e de aprendizagem dentro da sala de aula. O computador, os quadros interactivos e demais acessórios são, apenas e só, mais um dos recursos que o professor e os alunos têm ao seu dispor.

Bem sei que não produz tanto “espectáculo”, mas a simples leitura interpretativa de um texto pode ser tão ou mais válida do que qualquer um dos propalados recursos tecnológicos.

Aliás, segundo creio, o professor é e continuará a ser o principal “recurso” dentro da sala de aula, pelo que essa ilusão de querer transformá-lo num simples motivador dos meninos que vão “descobrindo e desenvolvendo as competências”, pura e simplesmente não faz qualquer sentido. As novas tecnologias, é bom que não se esqueça, não devem constituir, dentro da sala de aula, um fim em si mesmo, mas um meio para que os alunos aprendam e se desenvolvam…

II – Dizia-me recentemente um professor catedrático que “a Escola já não serve, fundamentalmente, para aprender a ler, a escrever e a contar”. Contra-argumentei na altura e volto aqui a reafirmá-lo. No meu entender, a Escola deve servir, fundamentalmente, para aprender a ler, a escrever e a contar, sob a orientação e (não receio dizê-lo) a autoridade do professor.

O resto, as competências de que tantos pseudo-pedagogos falam, virá sempre por acréscimo, será o resultado natural de uma aprendizagem substantivada em conteúdos. Ninguém reflecte no vazio. É preciso possuir conhecimentos, para depois conseguir mobilizar o que sabemos e aplicá-lo à situação concreta.

O conceito de competência, no meu entender, é indissociável de conteúdo. Muitos problemas do actual sistema de ensino entroncam, precisamente, aqui: na substituição dos conteúdos pelas esotéricas competências e na desautorização crescente da figura do docente.

III – Um bom professor deve, antes de mais, dominar cientificamente os conteúdos da disciplina que lecciona. É urgente intervir a montante e não a jusante, onde já pouco há a fazer. A formação contínua dos professores deverá ser recentrada na sua área de leccionação, pois, na actualidade, parece prevalecer a ideia segundo a qual para ser um bom professor de História é preciso saber de tudo (sobretudo Informática…), menos de História.

As teorias pedagógicas, que me perdoem os que não concordarem, afloram naturalmente, quando existe conhecimento, quando existe vocação, quando há vontade de ajudar os outros e o aluno, o professor, demais órgãos educativos e a imprescindível família assumem, verdadeiramente, um papel activo.

IV – Quando analisamos o longo e complexo processo de evolução física e mental do Homem, podemos constatar que a mão desempenhou um papel fulcral na Hominização, pois o (aparentemente) simples facto de o Homem necessitar de agarrar, suavemente, um objecto exige uma estreita articulação/coordenação com o cérebro, factor que possibilitou o seu desenvolvimento.

Na actualidade, existe uma inquestionável tendência para substituir a ideia do lápis e da caneta como prolongamentos da mão, por um novo método, em que nos limitamos a premir um botão (técnica de “picar o teclado”).

Antes, quando, ainda crianças, ouvíamos as histórias que os nossos avós tinham para contar-nos desenvolvíamos a imaginação. Agora, tudo é servido, já totalmente mastigado… Implicações, a longo prazo, desta tendência? Não sei. Mas a verdade é que todos os processos que possam implicar um maior comodismo cerebral deveriam, pelo menos, fazer-nos parar para reflectir, ou não fosse a doença de Alzheimer, já neste momento, um inquietante problema…

V – Talvez a tendência actual saia mesmo vencedora e o velho hábito de escrever à mão, com a folha de papel vazia e a caneta, acabe por ser substituído pelas novas tecnologias. Talvez essa tendência venha mesmo a tornar-se uma marca incontornável dos novos tempos, a par do anunciado fim dos livros em suporte de papel.

A verdade é que, a maioria dos poetas que já li confessam não conseguir libertar qualquer poema em frente ao ecrã e os artistas dificilmente poderão prescindir desse contacto mais directo com os materiais.

Não sei o que virá a seguir, apenas posso perguntar: será que a “ditadura das máquinas” pode humanizar-nos? A minha consciência leva-me a responder que não. O leitor saberá encontrar a sua resposta.

Renato Nunes

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