Penalva de Alva está prestes a “suspirar de alívio”

 

… já estão no terreno para gáudio das populações e do presidente da Junta de Freguesia de Penalva  de Alva que, desde o início do mandato, assumiu aquele desafio como a prioridade maior. “Era um objetivo que quase nos cegava”, confessa Rui Coelho.

Correio da Beira Serra – A freguesia assiste hoje à concretização de um sonho antigo. A água e o saneamento básico chegam finalmente à Carvalha, Moita e Formarigo. Só por isso já valeu a pena abraçar este projeto autárquico?
Rui Coelho –
Esta obra é, sem dúvida, aquilo a que nos propusemos quando assumimos este desafio. Como sabe, candidatei-me pela lista “Oliveira do Hospital Sempre” e nunca tinha falado com o professor José Carlos Alexandrino e não sabia quem ele era. Nas primeiras reuniões que tive com ele, aquilo que eu disse foi: estamos aqui para um mandato de quatro anos e aquilo que lhe peço é pôr água e saneamento na Moita, Formarigo e Carvalha. Podemos até nem fazer mais nada. Nem quero fazer nenhuma obra de relevância sem pôr água e saneamento naquelas localidades. A partir daí, tive total abertura e quase um compromisso de trabalhar em conjunto para concretizar a obra. À medida que os problemas iam surgindo eu fazia-os chegar à Câmara Municipal para perceberem que isto não era uma questão de fazer uma grande obra, mas sim uma necessidade para o dia-a-dia das pessoas.

CBS– Eram frequentes as reclamações?
RC –
Sim. Nomeadamente na Carvalha porque se os bombeiros tivessem uma semana com maior número de incêndios, as populações ficavam desprotegidas, porque a povoação é abastecida com água pelo camião cisterna dos bombeiros. Os bombeiros vêm duas vezes por semana abastecer a o reservatório da povoação da Carvalha. Mas, de qualquer modo, o reservatório não oferece as mínimas condições para armazenamento de água. Recentemente, fizemos limpeza no depósito e encontrámos um reservatório que nem vale a pena descrever. Desde aí já tentámos melhorar algumas situações. Construímos um sítio onde os bombeiros podem fazer o abastecimento de forma mais resguardada para impossibilitar a entrada de bichos ou até que alguém faça alguma maldade no tubo.

Alertámos frequentemente a Câmara para estas situações. Por exemplo, em agosto, quando há mais gente, o consumo quase duplica e as fontes – como é o caso da Moita e Formarigo – deixam de ter capacidade de resposta, chegando até a secar. Tem sido muito desagradável porque as pessoas não compreendem porque é que toda a gente tem água e elas não têm água. É assim todos os anos com os mesmos problemas. Pessoas que vêm de Lisboa, ao segundo dia vão-se embora.

CBS – A obra peca por tardia…
RC –
Sim. Tendo em conta as condições que antes existiam, julgo que foram feitas obras de valor bastante elevado que não têm grande impacto na vida das pessoas. Isto é uma questão de justiça para aquelas populações e até para fixar pessoas. Pensou-se que era um investimento muito elevado para um número de pessoas tão reduzido. Mas, o que é facto, é que criando condições é possível que algumas pessoas se fixem. Sei de pessoas reformadas que permanecem em Lisboa e que se recusam a vir para cá, porque não têm as condições mínimas para estarem ali. As pessoas estão habituadas a alguma comodidade e recusam-se a vir para um sítio sem o mínimo de condições.

CBS – A obra vai beneficiar quantas pessoas?
RC –
À volta de 200 pessoas. E no Verão o número quase que duplica.

CBS – Qual o investimento?
RC
– A obra estava orçada em 653 mil Euros e foi adjudicada por 452 mil Euros à empresa Amadeu Gonçalves Cura, de Lagares da Beira.

CBS – A obra já está no terreno. Qual tem sido a reação das populações?
RC –
Já há muito que se falava que a obra ia avançar, mas as pessoas tinham dificuldade em acreditar. Com os novos cortes, as pessoas ainda andavam mais descrentes. Só acreditaram mesmo quando viram as máquinas no terreno e as obras a avançar. Mesmo assim, algumas delas ainda continuam com ceticismo, porque temem que, até ao fim, as obras ainda parem por falta de verba. Só quando virem água nas torneiras é que, finalmente, vão acreditar que têm água e saneamento ao domicílio.

CBS – Qual a previsão para a conclusão dos trabalhos?
RC –
Penso que a obra estará concluída dentro de um ano. As ligações de saneamento vão ser feitas para a ETAR de Penalva de Alva. Vão ser também construídos dois reservatórios de água, um no Formarigo para abastecer também a Moita, outro na Carvalha para abastecer a localidade e, no futuro, poder servir algumas povoações da freguesia S. Gião.

CBS – Com esta obra ficam resolvidos os problemas maiores da freguesia?
RC
– Sim, com esta obra concluída ficamos bem em matéria de condições. Acho que todas as povoações vão poder suspirar de alívio. Claro que temos aglomerados como a Quinta do Mosteiro e Quinta de S. Pedro que têm habitações muito dispersas e onde é muito dificil resolver esse tipo de problemas. As Quintas já têm água, o único problema é o saneamento.

“Não adianta estar a convidar pessoas para nossa casa, quando a nossa casa está desarrumada”

CBS– Penalva de Alva é, por excelência, uma freguesia com potencial turístico. Tem sido aproveitado? RC – Na minha opinião, este potencial paisagístico e natural não tem sido potenciado, mas também não temos feito muito por isso. Nós temos que começar a construir as coisas por uma base. Não podemos apostar no Turismo e atrair pessoas se não temos condições. É preciso, primeiro, garantir estas condições mínimas. Água e saneamento, ponto um. Depois sim, podemos pensar em outros projetos. Já é público o projeto do aldeamento turístico nas Caldas de São Paulo e estamos a segui-lo com atenção e esperamos que se consiga implementar. Estamos também a trabalhar noutros projetos como é o caso da construção de uma pista de pesca desportiva.

Não adianta estar a convidar pessoas para nossa casa, quando a nossa casa está desarrumada. Para uma pessoa dormir temos a Quinta do Forninho e pouco mais. Temos que começar a criar infra-estruturas para que as pessoas comecem a vir à freguesia de Penalva. Parece absurdo, mas não temos um restaurante. É importante perceber que, hoje em dia, estas estruturas têm que se diferenciar. Porque abrir um restaurante só por abrir e para vender umas sandes… acho que não é por aí. Até aqui o problema maior era água e saneamento. Não podia estar a pensar em mais nada, quando vejo crianças de cinco, seis anos em pleno inverno a tomar banho numa bacia… Agora podemos começar a pensar num outro desafio.

CBS – No que respeita à riqueza natural e paisagística tem havido cuidado de preservação?
RC
– Tem havido é falta de cuidado dos políticos a nível do poder central. Esbarramos com facilidade num exagero de burocracias. Há dois anos, tivemos aqui o problema das cinzas e junto da ARH nunca conseguimos uma autorização para uma limpeza, como deve ser, do rio. Nunca nos foi dada autorização para, por exemplo, entrarmos com uma máquina para limpar. Aquilo era uma quantidade de cinza… e era impensável limpar com um balde e uma pá toneladas de cinza. A ARH deveria ter a sensibilidade de vir ao terreno e perceber do que é que estamos a falar. Se calhar, antigamente, as pessoas não tinham sensibilidade para o cuidado que é necessário no uso de maquinaria, mas hoje as pessoas que estão à frente de uma Junta de Freguesia já têm sensibilidade para estas coisas. O rio é o nosso cartão de visitas e claro que não vamos entrar aqui a cortar árvores de forma desmesurada. Tinha que haver uma maior confiança em nós, para podermos desenvolver algum trabalho. Todos os anos fazemos limpeza dos rio com voluntários antes da época balnear começar, mas depois não há retorno para nós fazermos pequenos melhoramentos. Alguns benefícios que temos feito no rio, até são às escondidas da ARH, porque não há autorização para se fazer nada.

CBS– A freguesia prepara-se para ver arrancar uma unidade turística de cinco estrelas. Como encara o projeto dinamizado pelo Professor Francisco Cruz?
RC –
Isto é um projeto que qualquer freguesia gostaria de ter. É ambicioso e com uma dimensão muito boa. Talvez como os habitantes da Moita, Carvalha e Formarigo só mesmo quando vir as máquinas e o aldeamento a crescer é que vou acreditar que é possível. Mas confio no professor Francisco Cruz, acho que é um homem determinado e com objetivos traçados. Espero que consiga colocar o projeto em andamento, porque assim poderemos ter aqui uma alavanca de turismo que nos pode catapultar para passarmos a ser uma referência a nível do concelho no setor do turismo. Faz falta à freguesia e o potencial do termalismo pode ser uma mais valia.

CBS – Mas a população tem estado dividida…
RC
– Sim. Mas vamos tentar encontrar uma solução de consenso que sirva a população das Caldas e que sirva o investimento e a mais valia que esta infra- estrtura traz para as Caldas de São Paulo. Sejamos claros, um investimento destes numa povoação como as Caldas de São Paulo vai dinamizar e revitalizar aquela aldeia. As pessoas aqui deveriam ter o bom senso de encontrar uma solução que minimize o que as tem estado a opor.

“O PDM limita-nos muito”

CBS – Estão criadas condições para que a freguesia trave o processo de desertificação?
RC –
Não. Neste momento temos o grande problema da falta de terrenos para construção. O Plano Diretor Municipal (PDM) limita-nos muito. Para já, estamos situados numa zona de vale, onde os terrenos para construção são muito escassos e os que estão disponíveis não se pode construir. Isto tem levado a que maior parte dos jovens, não é que eles queiram, saiam daqui. Estamos a 10 minutos do centro de Oliveira, mas estamos limitados porque não temos quase espaço para crescer. A Junta de Freguesia tem um terreno, com o qual pensamos poder ajudar a resolver este tipo de problemas, onde podíamos fazer uma urbanização com 10, 12 habitações para a fixação de pessoas. Até aqui estávamos obcecados num objetivo que quase nos cegava. A partir daqui, vamos começar a trabalhar noutras frentes e tentar implementar estas ideias.

CBS – Que condições de saúde, educação e do domínio social estão ao dispor da população?
RC
– Estamos com a escola do Vale do Alva. Temos ainda o Jardim de Infância em funcionamento. A nível de saúde existem aqui alguma lacunas. Embora tenhamos médico uma vez por semana em Santo António do Alva, as pessoas para conseguirem consulta vão quase dormir à porta da extensão. Isto é um problema que afeta todas as freguesias. As pessoas deviam-se reunir e tentar encontrar uma solução. Temos feito démarches para encontrar uma solução que minimize estes problemas. Temos duas instituições, uma delas foi parabenizada no feriado. Mas, o que eu penso é que numa altura de redução de despesas estas coisas deviam ser reorganizadas no terreno, percebendo que existem desperdícios que estão a acontecer e sobreposição de serviços. Devíamos pensar em organizar melhor. Há muita gente que até necessita dos serviços, mas porque tem boas relações com ambas as instituições, acaba por se ir remediando. Isto é um problema. Ninguém quer assumir uma reestruturação na vertente de apoio social. Podíamos ter um serviço diferente se houvesse uma união entre as duas instituições. Temos dois centros de dia e não temos um lar.

CBS – Hoje Penalva de Alva é uma freguesia diferente?
RC –
Pelo menos temos feito todos os esforços para que seja. Talvez pela juventude da nossa equipa, trouxemos novas ideias e novos conceitos e alterações que se impunham. Reestruturámos algumas coisas. Abrimos mais o espaço da Junta de Freguesia que foi remodelado para ter alguma atividade e não estava a ser aproveitado. Temos dinamizado cursos de formação e outros atividades. Quisemos dizer às pessoas que este espaço é da população. Temos uma biblioteca muito boa que ainda não funciona a 100 por cento. Houve ideia da Câmara Municipal de colocar as bibliotecas em rede, mas isso ainda não aconteceu. Há aqui uma indefinição muito grande e como já estamos há dois anos neste impasse, neste momento estamos a ponderar avançar sozinhos e colocar a biblioteca a funcionar. Por agora, a funcionária da Junta da Freguesia é que vai assegurando esse serviço. Queremos que as pessoas usufruam daquilo que temos. Fizemos aqui cursos de informática com pessoas de 60 e 70 anos. Tenho um senhor de 70 anos que está constantemente no facebook. Primamos também por fazer uma política de proximidade. É muito mais fácil três pessoas deslocarem-se às anexas, do que as populações virem até aqui. Vemos a freguesia no conjunto. Gosto muito de estar no terreno e resolver os problemas das pessoas e ouvir a opinião das populações na realização de obras, porque elas conhecem a realidade melhor do que o executivo. Antigamente isso não se passava tanto, geria-se muito de longe.

CBS – Como é que a população da freguesia tem sabido responder à crise?
RC –
Há alguns problemas pontuais, mas não são situações gritantes de dificuldade. No geral, as pessoas são muito proativas e procuram muito a solução para os problemas. As instituições também têm o mérito nessa ajuda às populações.

CBS – Foi o único presidente de Junta de Freguesia que não assinou documento em defesa das 21 freguesias. O caminho da não pronúncia já vingou em Assembleia Municipal, porque tomou aquela posição?
RC –
Temos que perceber que, às vezes, em política não são tomadas muitas medidas por falta de coragem. Nós fomos o único grupo a ter a coragem de defender a pronúncia e de indicar nomes. Fomos interrompidos e ameaçados quando tentámos fazer. Nós disponibilizámos pessoas para a comissão que iria fazer o estudo. Eu não assinei do documento e votei contra a não pronúncia, porque acho que virão a ser cometidas injustiças. Eu não concordo com a lei porque não tem o mínimo de sentido. Mas se a lei for avante teríamos que minimizar os estragos. Se pronunciando-nos teríamos menos freguesias extintas era logo uma vantagem. Segunda vantagem, teríamos um bónus nos financiamentos. Terceira vantagem, pronunciando-nos iríamos ver internamente e decidir as freguesias a extinguir. Eu não posso perceber que vão extinguir Alvôco de Várzeas que está longe de tudo e todos, quando há freguesias ali a cinco minutos de Oliveira do Hospital … Podíamos tentar minimizar e agora ninguém sabe que freguesia vai cair.

“Nas primeiras conversas percebi que estava a lidar com um homem de diálogo”

CBS- Como avalia as relações entre a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal?
RC –
Não conhecia o presidente e os vereadores. Mas logo nas primeiras conversas percebi que estava a lidar com um homem de diálogo e que gosta de ouvir as outras pessoas. Não impõe e gosta de decidir em conjunto. Percebi que era uma pessoa de diálogo e
consenso. Pouco a pouco, fui percebendo que podíamos fazer um trabalho em sintonia. Sinceramente, integrei-me rapidamente e, até agora, ainda não tive uma única situação em que possa dizer que possa ter havido algum mau entendimento. Eu também quando tenho uma ideia, gosto de a levar até ao fim. Houve alguns projetos que no início foram questionadas pela CMOH. Um coisa boa do presidente é que tal, como eu, vem ao terreno ver o que se está a passar. Tivemos a situação do parque de estacionamento aqui em frente, que entendemos prioritária devido ao número elevado de pessoas que frequenta os nossos cursos. Na primeira vez que falei sobre isto ao presidente da Câmara, o professor José Carlos Alexandrino, aconselhado pelos técnicos disse que não era viável. Mas um dia, com um engenheiro isento fomos ao local. A pessoa disse que era perfeitamente possível com a construção de um muro de suporte e o presidente da Câmara não inviabilizou.

CBS – Foi eleito pelo movimento independente “Oliveira do Hospital Sempre”. Como avalia esta experiência?
RC –
Não ganhámos por maioria, mas fizemos um ajuste com a pessoa do PS que entrou, à qual cedemos o lugar de presidente da Assembleia de Freguesia e ficámos nós no executivo. Já tinha sido secretário de uma anterior Junta de Freguesia, pelo PSD. Sinto-me muito bem como independente, não há ninguém por trás a sussurrar. É a nossa decisão. Trabalhamos muito em equipa. É muito raro aparecer isoladamente, normalmente andamos sempre os três, porque lhes reconheço capacidades e foram eleitos tal como eu e a opinião deles é muito importante.

CBS – Equaciona uma recandidatura?
RC –
Muito sinceramente ainda não pensei nesse aspecto. Mas a minha vida profissional tem ficado muito prejudicada com esta atividade. O trabalho da Junta de Freguesia rouba-me algum tempo. Tenho um menino de três anos e reconheço que não lhe tenho dado a atenção que merece. Ainda tenho um ano e alguns meses para pensar.

CBS – A acontecer, será como independente?
RC –
Não sei. Mas sinto-me muito bem como independente. Se calhar se começar a existir este tipo de movimentos será uma mais valia para o poder local, porque as pessoas estão muito descrentes nos partidos.

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