Pinhal da região pode ficar “cheio de cadáveres”

– Como está a situação do nemátodo do pinheiro (NMP) a nível nacional?
Actualmente está em curso um Plano de Acção Nacional para a erradicação das árvores nos pontos confirmadamente infectados e das árvores em declínio. Já se tornou pacífica a ideia de que a doença está espalhada mais ou menos por todo o país e a grande preocupação é a de preservar a sanidade do pinhal existente.

A Autoridade Florestal Nacional assinou protocolos com grande parte das Organizações de proprietários florestais para a execução dos trabalhos que já estão em curso em alguns locais.

– E a nível local?
Julgo que todas as Organizações de Produtores Florestais (OPF) da região estão envolvidas e a trabalhar neste projecto. Os trabalhos incluem a prospecção e marcação das árvores em declínio, doentes devido ao nemátodo ou não, pelo risco que representam como focos infecciosos e também o abate das árvores caso os proprietários não o façam. Estão identificadas as freguesias prioritárias, onde se identificaram árvores contaminadas pelo NMP, nomeadamente S. Gião, Lagares e Lourosa, no concelho de Oliveira do Hospital, mas além destas infelizmente existem outras em que a quantidade de árvores mortas salta à vista, nomeadamente no concelho de Tábua onde o pinhal se encontra seriamente atacado e é difícil vermos uma mancha de pinhal sem árvores mortas.

– Há alguma possibilidade de acontecer uma catástrofe, que leve a que a maior parte dos pinheiros tenham de ser abatidos?
Infelizmente sim, mas apenas se nada for feito. A conjugação de uma série de factores leva-nos a pensar que a progressão da doença aqui na região Centro seja mais rápida e mais difícil de travar do que noutros sítios. Por exemplo, em Setúbal, a floresta tem características muito diferentes da nossa, a exploração florestal é uma actividade muito mais profissional, e para além disso o pinheiro-bravo não é tão importante como cá, existindo outras espécies que ocupam grande parte do território, como o pinheiro-manso ou o sobreiro.

Na Zona Centro temos grandes áreas cobertas de pinheiro-bravo e as parcelas são tão pequenas que a maioria dos proprietários não as conseguem gerir devidamente, porque a rentabilidade que delas retiram é tão baixa que não permite os investimentos necessários. Temos portanto que pensar que o futuro da floresta passa pela diversificação das espécies florestais e por uma gestão muito mais activa do que até aqui, combinando a floresta de produção com a protecção de espaços com grande valor ecológico, apostando nas espécies autóctones. Uma coisa é certa, o pinhal vai sofrer mudanças dramáticas no espaço de poucos anos. Se ninguém cortar as árvores a progressão da doença vai ser muito rápida e a paisagem vai ficar cheia de cadáveres. Proprietários, Estado e OPF todos juntos não são demais para combater este problema.

– Muitas pessoas queixam-se da falta de informação sobre o NMP. Não será também a falta de interesse da população pelo ambiente e pela nossa “segunda casa “, que levam a este estado alarmante e preocupante em que se encontram os pinhais da região?
A informação sobre a floresta e o ambiente, de um modo geral, é difícil de passar. Existe um desconhecimento muito grande sobre as leis que regem a actividade florestal e que permitem ou proíbem a plantação desta ou daquela espécie, em que condições é que se podem fazer fogueiras ou não, etc. Actualmente por exemplo, todo o trabalho de abate de pinhal tem que ser devidamente autorizado, devido à questão dos sobrantes, e vemos todos os dias empreiteiros a trabalhar no pinhal e nenhuma fiscalização a acompanhar os trabalhos. A forma utilizada para estes casos é a notificação por Edital, que todas as juntas de freguesia recebem mas a que nem todas deram a devida importância e que quase ninguém pára para ler. As primeiras informações que circularam sobre a nova legislação, que obriga os proprietários de árvores em declínio ao abate e tratamento dos sobrantes são de Abril de 2008, o último Edital publicado é de Março de 2009 e já identifica as freguesias prioritárias. Actualmente existe um outro que enquadra todas as freguesias.

A CAULE começou ainda em Abril a fazer sessões públicas de sensibilização, fizemos um total de 22 sessões nos concelhos de Oliveira do Hospital, Tábua, Arganil, Penacova e Seia, em algumas destas sessões apareceram muito poucas pessoas e menos ainda se convenceram de que os avisos eram a sério. O resultado é que ninguém cortou árvores nenhumas. As árvores mortas nos povoamentos representam sempre um risco grave de pragas ou doenças, portanto, retirá-las é uma das regras mais básicas da gestão florestal. O número elevadíssimo de árvores mortas em pé que encontramos demonstra bem o abandono a que a floresta está sujeita. Os proprietários não têm disponibilidade, nem física, nem financeira, de gerir convenientemente as suas propriedades, por isso, na minha opinião, o Estado faz exactamente o que deve, substitui-se ao proprietário. Infelizmente para alguns, usa o valor da madeira para “cobrar” o trabalho, o que levanta algumas questões e dá origem a tensões. Na minha opinião, o Estado deu início aos trabalhos demasiado tarde, tudo isto devia ter começado em Outubro/Novembro, e esse atraso deu origem a falta de tempo para uma informação adequada aos proprietários do que se ia passar. Agora tentamos no dia-a-dia corrigir essas dificuldades.

Ainda relativamente à falta de informação, julgo que este é um assunto que merece mais tempo de antena por parte da comunicação social. Acho que ainda não se aperceberam da dimensão ecológica, económica e social que a floresta de pinho representa para o nosso país, o que também simboliza o afastamento da sociedade civil em relação aos valores que o interior do país, o mundo rural, representam. O “ambiente” é um assunto muito falado, muito querido, mas muito mal compreendido. Nem tudo o que é verde é bom, e o meu grande receio é que a floresta de pinho-bravo, venha a ser substituída por eucaliptais mal instalados e por espécies invasoras como a mimosa nas situações de abandono.

Estas espécies evoluem demasiado depressa para se manter a atitude passiva que tem pautado a política florestal. Já temos situações em Oliveira do Hospital, por exemplo no Vale do Mondego/Foz do Rio Seia, em plena Rede Natura 2000, fruto dos incêndios, em que as mimosas tomaram conta da paisagem e dificilmente se conseguirá alterar a situação, só com investimentos muito grandes que os proprietários, compreensivelmente, não estão dispostos a realizar. Nesta região quase toda a gente acaba por ser proprietário florestal, fruto de heranças que originaram uma divisão extrema das parcelas. Portanto, quando se responsabilizam os proprietários florestais, temos que ter consciência de que somos praticamente todos nós. Portugal é o país da Europa em que o Estado detém a menor percentagem do território sob a sua gestão directa e é também o país em que os proprietários prestam menos contas ao Estado acerca das actividades desenvolvidas nas suas propriedades.

A doença do nemátodo do pinheiro 

O nemátodo da madeira do pinheiro (NMP), organismo de quarentena obrigatória, foi detectado em Portugal há cerca de dez anos, na zona da Península de Setúbal, obrigando o Estado e os proprietários florestais locais a tomar medidas extraordinárias de erradicação das árvores afectadas e fiscalização dos transportes de madeiras. Infelizmente as acções tomadas revelaram-se insuficientes e actualmente registam-se focos em várias zonas do país, entre as quais numerosas freguesias dos concelhos de Arganil, Tábua e Oliveira do Hospital. Por precaução, todo o território nacional está considerado como Zona Afectada e a exportação de madeira de pinho não tratada (em toro, em tábua ou em palete) está embargada devido ao risco de dispersão pela Europa.

O NMP é um verme microscópico da família das lombrigas que se propaga através de um insecto, denominado longicórnio-do-pinheiro, entre Abril e Outubro, meses em que o insecto se desloca através do võo, com o nemátodo instalado no seu organismo. É através destes insectos que o nemátodo passa para as árvores e uma vez instalado no pinheiro, leva-o inevitavelmente à morte, no período de três a quatro meses, por vezes menos. A única forma conhecida de controlar a doença é a remoção dos pinheiros mortos ou debilitados, onde o insecto põe os ovos, preferencialmente de Novembro a Março, enquanto as larvas do insecto se desenvolvem. A eliminação dos sobrantes (ramos, bicadas, etc.) através de queimas ou estilhaçamento é fundamental pois também estes podem conter larvas no seu interior, desta forma controla-se a população do insecto-vector da doença e eliminam-se os focos de infecção.

Os sintomas são semelhantes aos das outras pragas e doenças que assolam o pinheiro-bravo, pelo que a confirmação da doença só é possível através de análise em laboratório. Depois das árvores serem cortadas devem ser encaminhadas para unidades industriais autorizadas a fazer o tratamento.

Estas acções, nomeadamente, a remoção das árvores e eliminação dos sobrantes, são da responsabilidade dos proprietários, notificados por editais publicados em Novembro de 2008 e em Março de 2009, ou do Estado, quando os proprietários não cumprem o estipulado por lei, revertendo neste caso o valor do material lenhoso para o Fundo Florestal Permanente.

Luís Fernandes, Pedro Patto,
Tiago Duarte, Rita Tavares
Alunos do Grupo de Área de Projecto, 12ºA
(Escola Secundária de Oliveira do Hospital)

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