Será que eu podia dizer livremente o que penso? Claro que podia, mas não era a mesma coisa!

‘Podia…mas não era a mesma coisa’

 

Será que eu podia viver com “coluna vertebral? Claro que podia, mas não era a mesma coisa! Vêm estas interrogações – inspiradas num conhecido anúncio comercial – a propósito de um país amordaçado em que continuamos a viver, e onde são cada vez menos os que ousam dizer a verdade que lhes vai na alma.

Optam antes por dizê-lo no conforto da esquina, ao ouvido do companheiro de café e, mais recentemente, na internet. A edição online do Correio da Beira Serra e de outros jornais electrónicos, são disso bom exemplo.

Nota-se – e o mais preocupante é o fenómeno estar a contaminar as gerações mais novas – que há cada vez mais falta de “coluna vertebral” entre as pessoas, que facilmente cedem ao discurso do “Ámen”. Hoje, as pessoas preocupam-se cada vez mais com a vida alheia e são peritas na maledicência sob o anonimato… é uma espécie de escape para o esquecimento dos problemas pessoais que cada um tem.

Este país de pobretanas, em que a diferença entre ricos e pobres se acentua cada vez mais, e onde as desigualdades sociais continuam a ser apenas um bom “road-book” para campanhas eleitorais, está indignado com os salários faraónicos dos “putos” da PT. Está indignado com as mordomias instaladas à volta de um Estado que desde sempre foi um autêntico POLVO.

Mas alguém se revolta? Não! O país está apático, e uma significativa percentagem dos seus cidadãos, muito empenhada em cultivar essa grande quinta virtual, chamada FarmVille. Criam animais, plantam morangos, tulipas, cenouras… por ano consomem várias horas num mundo virtual que lhes dá o conforto que a vida real não oferece.

Há dias, um jovem licenciado sem emprego, que desenvolveu comigo uma relação profissional, perguntava-me o seguinte, a propósito de uma interessante conversa que mantínhamos sobre trivialidades:

– “Ó senhor Henrique, o senhor sabe lá a trabalheira que dá dizer a verdade?”.

Nunca tinha ouvido uma frase assim e apontei-a de imediato no meu “moulesquine”. Mas esta frase tem muita profundidade.

E porquê? Porque no país em que vivemos, a mentira está a ser institucionalizada como uma espécie de “password” para trepar na vida.

No Haiti – e face à tragédia –, os haitianos recorrem à violência para conseguirem um pedaço de pão. Em Portugal, vale tudo para conquistar um lugar ao SOL.

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