Por causa de 74 lugares subterrâneos

… e são poucos os que acreditam na “faraónica” solução do parque de estacionamento subterrâneo – com 74 lugares – como forma de resolver o problema.

O crescimento desordenado e a passividade com que se tem vindo a encarar o problema, transformaram Oliveira do Hospital numa área urbana que, apesar da sua pequeníssima dimensão, vive actualmente uma situação tão problemática como a que se observa em cidades de muito maior densidade populacional. Estacionar um automóvel em Viseu, por exemplo – estamos a falar de uma cidade com cerca de 100 mil habitantes –, é hoje porventura uma tarefa mais fácil do que conseguir um lugar em Oliveira do Hospital.

É certo e sabido que os portugueses tem o hábito de querer levar o automóvel até onde for possível levá-lo. Mas também o fazem porque não existem incentivos, nem políticas educacionais que promovam as boas práticas.

Na periferia – e a cinco ou dez minutos a pé do centro nevrálgico da cidade –, há centenas de lugares de estacionamento que poderiam ser criados e o seu uso incentivado. São, no entanto, espaços mortos e sem utilidade.

Na primeira requalificação urbanística da cidade – realizada entre 2004 e 2005 –, privilegiou-se a construção de rotundas, mas descurou-se a questão do estacionamento. Teria sido a altura ideal para minimizar o problema, mas à boa maneira portuguesa “varreu-se o lixo para debaixo do tapete”.

Quantos automóveis entram diariamente na cidade?

A Câmara Municipal de Oliveira do Hospital – pouco habituada a utilizar instrumentos de planeamento de gestão urbana –, não sabe, hoje, quantos automóveis entram diariamente na cidade. Não sabe, sequer, quantos espaços de estacionamento dispõe para oferecer. Serão mil, dois mil? Ninguém sabe. É uma área onde reina uma grande anarquia. Cada um que se safe!

Todavia – e este é um dos grandes desafios que se colocam ao executivo camarário que vier a governar o concelho na aurora da segunda década do século XXI –, é urgente começar a perspectivar como é que se vai gerir o espaço público.

Em primeiro lugar, é pertinente que através de um recenseamento de tráfego se perceba qual o número de automóveis que entra diariamente na cidade em épocas consideradas normais e nas chamadas quadras festivas, que quase fazem duplicar a população.

Face a esse estudo, o poder local – sempre com uma visão de futuro –, terá de encontrar soluções que correspondam às necessidades.

Oliveira do Hospital continua à espera dos parquímetros

 

Essas soluções, passam desde logo por uma inventariação dos locais onde seja possível criar – e delimitar – estacionamentos, sendo que se deve ter sempre presente que a melhor política – é essa a que se pratica nas cidades que lutam diariamente pela qualidade de vida –, é a de desincentivar a utilização do automóvel no centro da cidade. Isso é uma questão que já faz parte dos manuais de desenvolvimento sustentável.

Não é, hoje, admissível – e sob vários pontos de vista, incluindo o da saúde – que o funcionário da repartição de finanças, o vereador da câmara ou o jornalista do Correio da Beira Serra, tenham os seus carros estacionados quase todo o dia à porta dos locais de trabalho. Aqui bem perto – em Seia e Arganil, por exemplo –, as autarquias locais há muito que introduziram os parquímetros a preços simbólicos e com resultados palpáveis. Em Oliveira do Hospital o poder local falou timidamente sobre o assunto, mas também é fácil de perceber que não será agora em ano de eleições que um projecto desses vai ganhar eficácia.

Mais 74 lugares de estacionamento não resolvem o problema

Por aqui, continua-se a privilegiar o automóvel em detrimento do peão e, não menos grave, promove-se a sua utilização em pleno centro histórico. Na 5 de Outubro – também conhecida como rua dos correios – os peões têm um passeio, desprotegido, onde nem duas pessoas anorécticas se cruzam sem que uma delas entre na faixa de rodagem. Os automóveis, esses, têm o espaço necessário à sua dimensão. É uma aberração urbanística!

Mas como temos tendência para complicar o que por vezes é simples, bem como arranjar problemas onde não existem, o mais grave de tudo é a construção desse estacionamento subterrâneo, onde a edificação de cada lugar fica ao erário público em aproximadamente 10 mil euros.

Devassou-se a principal sala de visitas da cidade – o largo Ribeiro do Amaral –, e com um objectivo tão mesquinho: arranjar 74 lugares de estacionamento.

Aquele silo-auto – o futuro o dirá – nunca resolverá os problemas de estacionamento da cidade e, em tempos de crise, gastar mais de 2 milhões de euros num espaço – onde porventura bastava uma intervenção cirúrgica –, é um facto que contraria a mais elementar regra de investimento público: a relação custo-benefício, que tanto vem defendendo o próprio.

Henrique Barreto

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