O Português está prestes a mudar... mas não o suficiente. Aquilo a que se propõe (Protocolo Modificativo do) Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é uma migalha do que seria uma urgente limpeza de incoerências no que escrevemos. Esteve empatado durante muitos anos e surge agora demasiado apressado, sem ouvidos para diversas entidades que deveriam ser fulcrais na sua elaboração. Não mereceriam estas obras de reparação da Língua Portuguesa aprofundados estudos?

Porqê o “u”?

Presumo que pelo menos tantos quanto os que já foram feitos (e se farão?) sobre a nova localização do Aeroporto de Lisboa e que envolvessem linguistas com soluções práticas e visões inovadoras que originassem protótipos de uma nova escrita do Português que proporcione uma mais rápida e consistente aprendizagem para um estudante do nosso idioma.

Uma dessas incoerências é a má gestão do nosso alfabeto: as letras S, G e X jamais deveriam alterar a sua verdadeira sonoridade na presença de vogais ou sequer fazer a função de outras letras como nas palavras: "avisar", "sugerir" e "existir", que se deveriam naturalmente escrever: "avizar", "sujerir" e "ezistir". Do mesmo modo: "jerir" e "axar" ou mesmo "ezijir" (porque também não pronunciamos a palavra "exigir" como "ecsiguir").

Se escrevemos "compreensão" porque não escrevemos "compensasão"? Temos 4 grafias para o mesmo som "sss": C (com "e" e "i"), Ç, S e SS. Também o C de "Cão" e o Q de "Quando" têm o mesmo som – sem contar com o K, cujo uso em SMS é uma moda frívola e parola pois o Q já faz rigorosamente o mesmo. Se quiséssemos ser realmente coerentes deveríamos até decidir entre o C de "Cão" e o Q de "Quando" – "Qão" ou "Cuando", "Qímiqo" ou "Címico" – e também terminar com U palavras como pratu, garfu, copu, que é como realmente as pronunciamos.

Se o H de "húmido" e o P de "óptimo" vão desaparecer então dever-se-iam também eliminar todas as letras mudas que, até hoje, nos esbanjaram incontáveis instantes de escrita e toneladas de papel & tinta com o seu inútil silêncio. Se inclusão no nosso alfabeto do K, do W e do (regressado) Y se deve ao uso do Inglês então que deixemos também de cercar com "" as palavras desta universal língua ou tombá-las com itálico como se fizéssemos questão de salientar que não pertencem à nossa cultura quando, na verdade, cada vez mais o são. Deveríamos sim, importar caracteres de outras línguas que nos ajudassem a eliminar ambiguidades (como as da fonética de "â" e "ã") ou nos permitissem estabelecer uma melhor ponte com o Português Brasileiro. Num Português limpo poderíamos ter: "sedênsia", "xeqe", "xinezíse", "sicatríx", "ginxar", "gizadu", "sirurjía", "aqeser", "desizão", "qinquajézima", "qiosqe", "jenjíva", "flecsível", "Acsílas", "ausíliu", "talvex", "ezijênsia". E levando mais longe: "vejetarianijmu", "isu", "ixtu" i "aqilu"…

Segindu alguma desta minha lójica pasu a uma versão primária de um posível novu Portugês. São compreensíveis a estranheza qe se sinta ao ler este teistu i a rezistência a uma ipotética mudansa para esta nova escrita mas a Adaptasãu é uma das faculdades Umanas mais puderozas i admiráveis i u ábitu é cura para muita coiza. Já a pregisa é u contráriu… Se us manuais terãu de ser todus reeditadus qe o fosem entãu pur uma maior razãu, qe não optásemus pela inérsia mas sim pela ezijênsia de uma retificasãu muito mais duradoura.

Parese-me inútil u argumentu de qe estaríamus a perder trasus du pasadu na nosa língua pois u mesmu argumentu surjiu conserteza aquandu das alterasões ortugráficas de 1911, 1931, 1945, etc., i já ningém realmente escreve nu mesmu Portugês dOs Lusíadas, pois nãu?

U valor etimulójicu da nosa língua já está mais du qe rejistadu i au atualizar a nosa escrita estariamus a valorizar ainda mais ese patrimóniu i ese pasadu istóricu tal comu oje admiramus um pergaminhu da era dus Descubrimentus ou mesmu uma mueda de 2$50. Quandu surjiu u Euro foi um drama para muita jente. Nu entantu oje-em-dia axamus esas reasões ilariantes. A aprendizajem deste novu Portugês seria mais fásil pur ser mais lójicu. Pasadas 3 pájinas já u lemos fluentemente i nu final de um livru já não u estranhamus. Nãu veju porqe a escrita não deva obedecer à forsa da fonética pois é esa sonuridade qe caracteriza u Portugês pur todu u Mundu.

Juãu D Marqes *

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* texto recebido via e-mail

 

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