Principais empregadores das confecções dizem estar a “navegar à vista”

Oliveira do Hospital está a braços com uma profunda crise que abruptamente se abateu sobre o sector da indústria de confecções. Só no espaço de pouco mais de três anos, encerraram cinco grandes empresas que lançaram no desemprego mais de 600 trabalhadores.

O ano de 2009 está a ser o mais complicado, já que as estimativas apontam para que o encerramento da JAMMO, HBC e Fabriconfex, tenha deixado cerca de 400 pessoas sem emprego.

Num sector em que o tecido produtivo assenta na mão-de-obra intensiva, a situação é dramática e tem vindo a agravar-se com os chamados efeitos colaterais da crise internacional.

Davion com encomendas até meados de Fevereiro

“A situação está difícil para o nosso sector. Temos dificuldade em competir com os preços de outros mercados como Marrocos, Tunísia e Turquia”, desabafou ao Correio da Beira Serra um dos administradores da empresa de confecções Davion, que é responsável pela manutenção de 230 trabalhadores e cujos principais clientes estão em Espanha, França e Inglaterra.

Mário Brito considera que é “muito difícil competir com estes países” derivado aos baixos custos da mão-de-obra. Ciente de que “começa a ser difícil”, Brito defende que as empresas do sector “têm que se unir para minimizar os custos e para poderem ser competitivas, pois – conforme sublinha –, apesar de a situação não ser fácil de concretizar, “será essa a solução, porque mais dia menos dia, vai ser difícil às empresas ultrapassar este momento”.

Para o administrador da histórica Davion, 2009 “foi o ano mais difícil” de sempre, sobretudo em consequência da “quebra de encomendas” e da “redução de preços”. “Sempre conseguimos encomendas para manter o trabalho contínuo, mas neste momento fazemos as perspectivas do funcionamento da empresa a dois meses. Não pode ser como antes, em que programávamos o trabalho a médio prazo. Agora, as encomendas aparecem de um dia para o outro”, explica o responsável por aquela unidade industrial, que se encontra em actividade ininterrupta desde 1992.

Sem baixar os braços, Mário Brito antevê que “no próximo ano, possa haver ainda mais contenção ao consumo”. Por isso – defende – a solução “é tentar não perder dinheiro e encontrar encomendas para manter a empresa a laborar”.

Como é que isso se faz, perguntou o Correio da Beira Serra. “Temos que ser flexíveis e estar preparados para, no momento, dar resposta àquilo que o cliente necessita e em prazos muito curtos. É essa flexibilidade que os trabalhadores têm que entender”, explica Mário Brito, adiantando que neste momento a Davion tem encomendas até meados de Fevereiro.

Elegendo as “dificuldades de tesouraria” como o maior obstáculo da empresa, o jovem empresário desafia o Governo a intervir no sector porque – segundo frisa – “ou há benefícios fiscais e redução de impostos, ou vai ser muito difícil sobreviver porque os encargos com os impostos são muito elevados”.

Empenhado em atrair novos clientes – “as encomendas não caem do céu”, sublinha -, Brito diz ter “esperança de que tudo se possa ultrapassar”, mas é reservado quanto ao futuro. “O futuro é uma incógnita. Infelizmente não há alternativas de emprego e não vejo que sejam as empresas que se mantêm em laboração a assimilar as pessoas” que têm vindo a perder o seu posto de trabalho.

“Navegação à vista”

Para um dos administradores daquela que é a mais antiga empresa de confecções em laboração no concelho e, simultaneamente, a que mais gente emprega – estamos a falar de 300 postos de trabalho –, o diagnóstico da situação também não é muito animador. “Estamos a navegar à vista”, afirmou ao Correio da Beira Serra Carlos Silva, da empresa “Irsil – Silva e Irmãos”, salientando que “o momento é muito delicado. Houve um ligeiro aumento da procura, mas não conseguimos prever o futuro. Estamos com algum trabalho, mas não sabemos o que o início de 2010 pode trazer”.

Para o gestor da empresa que em 45 anos de actividade “nunca teve salários em atraso”, e que encontra em Espanha o seu principal mercado, o que é necessário, neste contexto de crise, “é reinventar a maneira de olhar para as coisas e de abordar os clientes”. Porém, como reconhece, “é muito difícil falar em boas perspectivas”.

Argumentando que actualmente a Irsil “até está a viver um período de normalidade”, Carlos Silva recorda no entanto que a empresa que comercializa a conhecida marca Enrico Silvanni já se viu forçada a suspender a actividade por algum tempo devido ao cancelamento de encomendas. Para já, existem encomendas até Fevereiro, mas Silva também não deixa de salvaguardar que “de repente pode acontecer um cancelamento, como já aconteceu este ano e também no final de 2008”.

Para atravessar o actual momento, Carlos Silva, que salienta que os trabalhadores da Irsil “têm sido e excepcionais e sentem que a empresa é deles”, pede “cooperação” e uma “ginástica muito grande”.

Dirigente do Sindicato dos Têxteis e Vestuário do Centro defende que “é preciso trazer Oliveira do Hospital para o centro das preocupações”

Quem está muito preocupada com toda a situação é Fátima Carvalho, dirigente do Sindicato dos Têxteis e Vestuário do Centro (STVC). “Não podemos ficar a olhar para a desgraça sem fazer nada. É preciso trazer Oliveira do Hospital para o centro das preocupações e é necessário fazer um trabalho mais contínuo no sentido de se encontrarem soluções”, afirmou ao Correio da Beira Serra a sindicalista que mais tem acompanhado os problemas que têm vindo a surgir no sector das confecções.

Defensora de que é necessário “uma união de todas as forças da terra e do próprio Governo”, Fátima Carvalho entende que “as coisas estão muito lentas e o que está a ser feito não chega”. Aquela dirigente sindical diz verificar que “da parte do presidente da Câmara há uma nova atitude”, mas também adverte que agora “é preciso fazer-se porque o tempo urge”.

Presidente do NDEIB e Câmara Municipal querem “regime de excepção” para empresas de Oliveira do Hospital e da região

Contactado também por este jornal para se pronunciar sobre a crise que se está abater sobre o sector que mais mão-de-obra emprega no concelho de Oliveira do Hospital, o presidente do Núcleo de Desenvolvimento Empresarial do Interior e Beiras (NDEIB), Fernando Tavares Pereira, mostra-se “altamente preocupado”, e esclarece que a estrutura empresarial a que preside já está a finalizar um projecto, em conjunto com o presidente da Câmara, para apresentar ao Governo. Tavares Pereira advoga que o Governo tem de encontrar “um regime de excepção” para as empresas de confecção de Oliveira do Hospital e da região, “à semelhança do que aconteceu no Vale do Ave”. ~

O director do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) de Arganil, Paulo Teles Marques, também é peremptório ao afirmar que “o momento é muito difícil e Oliveira do Hospital é o concelho mais problemático” da área de actuação do IEFP.

Neste momento, o concelho de Oliveira do Hospital tem cerca de 800 pessoas inscritas no desemprego, mas ainda não contabilizados os mais de 300 trabalhadores da HBC e da Fabriconfex, cujos salários estão por enquanto a ser assegurados pela Segurança Social.

Fora das estatísticas encontram-se também “cerca de 200 pessoas” que estão a frequentar acções de formação promovidas pelo IEFP.

“Se um dia há crise nas confecções, há crise em todo o concelho”

Sublinhe-se que os primeiros alertas para a possibilidade de o sector poder vir a entrar em colapso, já são antigos e remontam ao início dos anos 90. “Se um dia há crise nas confecções, há crise por todo o concelho”, advertiu o antigo presidente da Câmara, César Oliveira, numa entrevista concedida ao Correio da Beira Serra. Em Setembro de 1991 – e após uma visita ao concelho – o histórico líder do PCP, Álvaro Cunhal, também não fez um diagnóstico melhor ao antecipar que o “made in China é uma praga que pode destruir a frágil indústria têxtil em Oliveira do Hospital”.

Ainda mais recentemente, em Março de 2006, um dos principais empresários do sector na região, Carlos Andrade, da AMMA, em Arganil, foi muito pragmático ao frisar que “a médio e longo prazo o sector não é viável”. “Na Europa desenvolvida não há indústria de confecções”, sentenciou.

O problema é que, decorridos todos estes anos, o tecido produtivo de Oliveira do Hospital continua a repousar excessivamente na indústria de confecções, e não se prevê que a situação possa ser invertida a curto prazo.

Henrique Barreto/ Liliana Lopes

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