Problema do alcoolismo motiva criação de associação

… a equipa de alcoologia do Centro de Saúde avançou para a criação da Associação de Alcoólicos Tratados, cuja escritura está apenas dependente de uma sede.

São cerca de 224, os doentes alcoólicos acompanhados pela consulta de alcoologia do Centro de Saúde de Oliveira do Hospital e que, vão passar a frequentar a Associação de Alcoólicos Tratados criada no início deste ano. A aguardar apenas por uma sede – a Câmara Municipal já se mostrou receptiva a colaborar com a resolução deste problema – a Associação resulta de um trabalho conjunto, levado a cabo pela equipa de alcoologia do Centro de Saúde e pelos próprios alcoólicos tratados.

“Os nossos doentes alcoólicos têm necessidade de conviver e de ajudar outros alcoólicos não tratados”, referiu ao Correio da Beira Serra o médico responsável pela consulta. Abílio Vales disse não ter dúvidas de que “os doentes não tratados dão muito mais ouvidos e têm mais sensibilidade ao aconselhamento de doentes tratados, do que à própria comunidade médica”. Por este motivo, o principal rosto e presidente da Associação de Alcoólicos Tratados é Jorge Gonçalves, um caso de sucesso extraído da consulta de Abílio Vales.

Ainda numa fase de arranque, a expectativa é de que a Associação surta efeitos positivos junto da comunidade alcoólica, até porque um dos objectivos é de que a mesma possa fazer parte da rede social concelhia.

A acompanhar semanalmente – a consulta acontece todas as quartas-feiras no período da manhã – o percurso dos alcoólicos, Abílio Vales confessa-se preocupado com a incidência da doença no concelho, numa altura em que o número de doentes ronda os cerca de 224. “O número é elevadíssimo e penso que há muitos mais”, referiu, contando que os doentes são provenientes de várias zonas do concelho – há também alguns alcoólicos de concelhos como Seia e Tábua – destacando como freguesias mais problemáticas, Seixo da Beira, Lajeosa, Avô e Lourosa. O médico também estabeleceu uma forte correlação entre o aumento do desemprego e o consumo de álcool. “É um factor preponderante”, defendeu.

Sinalizados por indicação da comunidade médica, assistentes sociais, tribunal, Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, entre outros, os doentes alcoólicos estão na sua maioria associados um perfil: entre os 30 e os 50 anos de idade, sexo masculino, extracto social relativamente baixo e historial familiar ligado ao álcool, indivíduos rurais, empregados fabris e da construção civil, beneficiários do Rendimento Social de Inserção, vítimas de acidentes de trabalho e com longos períodos de baixa médica. “Não é muito comum aparecerem casos em estado pouco avançado”, contou Abílio Vales, destacando o facto de o recurso à consulta acontecer, por vezes, quando os doentes atingem o limite. Contudo, a doença não se fica pelo sexo masculino, já que do total de doentes sinalizados, cerca de 10 por cento são mulheres.

“Cada vez mais, o jovem foge da consulta, porque quer parar de beber e não consegue”

Apesar de os números serem assustadores, Abílio Vales tem plena noção de que “o grosso da gravidade não aparece e continua a beber e a manter a doença completamente escondida”. É aqui que o médico inclui a camada jovem que vem a manifestar picos de consumo de álcool, na ânsia de obterem “sensações diferentes”. “Uma coisa que é diferente é uma bebedeira, a procura de uma embriaguez rápida”, especificou, alertando que “a procura desse estado de embriaguez por parte dos jovens, pode um dia mais tarde, ser um ponto preponderante para eles se tornarem doentes crónicos”.

Apostada num trabalho de prevenção junto dos jovens, a equipa de alcoologia tem como meta: “evitar o aparecimento de jovens a dizer que querem parar de beber e, já não conseguem”. É que, a partir desse momento, “a doença crónica está instalada”. Neste domínio, Vales destaca o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido junto da comunidade escolar e a parceria com o projecto AGIR.

O que é também um constrangimento à actuação da equipa de alcoologia junto da juventude é a constatação de que “cada vez mais, o jovem foge da consulta, porque quer parar de beber e não consegue”. E o resultado: “depois de anos e anos a beber, acabam por nos aparecer ou por acidentes de trabalho, de viação, caídos em valetas ou por uma crise epiléptica. São internados e, nessa altura, é que se descobre a sua doença alcoólica”, explicou Abílio Vales.

Referenciada como uma doença crónica, a patologia acompanhada no Centro de Saúde de Oliveira do Hospital impõe parceria com o Hospital da Fundação Aurélio Amaro Diniz, o Centro de Recuperação de Alcoólicos de Coimbra e a unidade de Medicina 3 dos Hospitais da Universidade de Coimbra. O apoio varia consoante a gravidade da doença em cada alcoólico, sendo que a obrigatoriedade de se manterem abstémios é imposição que serve para todos, porque em caso de novo consumo “a recaída é imediata”.

Incidência: 224 doentes alcoólicos sinalizados pela consulta de alcoologia;

Bebidas preferidas: De início o vinho. Depois de a doença estar instalada o alcoólico procura manter o grau de alcoolemia constante e, pela manhã, usa bagaço ou vinho do Porto e mantém durante o dia o consumo de vinho e cerveja. A juventude prefere o consumo de cerveja e “shots”.

Sintomas de dependência: Costumam aparecer às primeiras horas da manhã e traduzem-se em tonturas, dores de cabeça, confusão mental, debilidade dos membros inferiores, tremores, ansiedade, dificuldade de coordenação dos movimentos e de raciocínio.

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