Vou puxar a brasa à minha sardinha, com vossa licença…

“Miradouro da Esperança”

Inaugurado em 1992 pelo então Secretário de Estado da Agricultura, Álvaro Amaro, o “Miradouro da Esperança” continua a desempenhar a missão para que foi construído: suster uma inestética barreira, sita na rua principal do meu sítio. Como lhe acrescentaram um passadiço com protecção física, mais ou menos a três quartos da altura, baptizaram- no de mirante, sinal de que dali se descortina horizonte suficiente para saciar a vista, o que não corresponde à verdade. Digamos que tem as “vistas curtas”, para o outro lado da rua, para cima, para baixo e para o alto…

Nunca questionei os autores da ideia sobre o pomposo título; os senhores desse tempo, no meu sítio, lá saberão da sua importância nacional, a ponto de merecer a honra presencial de um membro do Governo na hora de cortar a fita. Adiante – importa a obra que alindou o espaço, e o resto pertence às manigâncias político-partidárias –, nada a acrescentar perante a evidência da pompa e circunstância da inauguração, a que associo um pouco da “Procissão” de António Lopes Ribeiro, poema magistralmente interpretado por João Villaret: “…Na nossa aldeia, que Deus a proteja, já passou a procissão…”!

Nesse recuado ano, os anseios de alguns dos meus conterrâneos manifestaram-se através da construção de um paredão e do vocábulo esperança! Certamente profetizaram renovado futuro, e nada melhor do que a rigidez do betão para exprimirem, simbolicamente, sentimentos e desejos legítimos. Infelizmente, a aldeia desertifica-se de ano para ano e não se adivinham tempos de fartura. Essa “esperança” evaporou-se…

Por lá, no meu sítio, há casas reconstruídas por quem se apaixonou pela terra, e muitas, imensas casas decrépitas – retrato em sépia de uma realidade confrangedora. O “meu” rio, que agora transborda, no estio abandona-se no leito, mal se espreguiça, e deixou de ser a grande atracção turística pela ausência de caudal capaz de arrastar toda a espécie de porcaria para bem longe das margens. Junta-se ao Mondego perto de Penacova e perde a identidade a caminho do mar. Hoje fui visitá-lo de perto – assusta o turbilhão das águas revoltas! Junto à “ponte”, a roda de alcatruzes, continua quieta e presa ao eixo, que a há-de mover quando for o tempo de enfeitar a paisagem – utilidade prática é de somenos valor porque não há sementeiras a necessitarem dos seus serviços. No “coração” da aldeia, a última filial dos Grandes Armazéns do Chiado morre devagar, e o mesmo acontece ao palacete da família Nunes dos Santos, fundadores dos célebres armazéns consumidos pelo fogo em 1988. A escola vai encerrar e os alunos serão transferidos para a vila vizinha, a escassos três quilómetros, segundo se diz.

Com vida própria, a sede da Associação Filarmónica é a imagem de um povo capaz de grandes gestos de solidariedade – até na manutenção da própria Banda de Música! A Casa do Povo foi transformada em Centro de Dia e, agora, nas traseiras, ergue-se obra de vulto que irá melhorar as condições da instituição – nem tudo é mau lá no Barril de Alva, de onde venho… E pronto, disse, mas continuo pensativo e insisto na dúvida: sempre gostaria de saber se alguém já lobrigou do “miradouro” algum tipo de esperança….

Carlos Alberto (Vilaça)

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