Imagem vazia padrãoA “dois passos” da cidade, quatro moradores continuam a habitar as casas por onde já passaram várias gerações. Na Quinta da Coitena abundam os animais, escasseiam as pessoas e as condições de habitabilidade. Tome-se o exemplo de Maria Alice Ribeiro que, por estar numa cadeira de rodas desde os 29 anos, diz não saber “como é que Oliveira do Hospital está agora”.

“Não sei dizer como está agora Oliveira do Hospital”

Os moradores resistem à degradação das habitações, desejam mais do poder local, mas dizem não querer arredar pé dali.

O incêndio que no início do mês desalojou uma octogenária da Quinta da Coitena, na freguesia da Bobadela, deu o sinal de alerta para a realidade que marca o dia-a-dia das quatro pessoas – um casal e duas idosas – que continuam a resistir ao passar dos anos e à degradação das suas casas.

Imagem vazia padrãoAo fundo vê-se uma habitação ocupada por uma jovem família. Mas, no trajecto que conduz à sua entrada, sucedem-se do lado esquerdo pequenas casas degradadas, a maioria desabitadas, mas ocupadas por animais. Cães e gatos abundam pelas redondezas e são, de facto, a companhia dos donos. E a burra “Carriça” de Mário Figueiredo ainda lhe vai valendo nos trabalhos agrícolas.

A dois passos da cidade de Oliveira do Hospital e a outros tantos da sede de Freguesia, a Quinta da Coitena – com excepção da habitação ocupada pelo jovem casal – ostenta um cenário de miséria já pouco visto nos dias que correm. Paredes caídas e outras em vias de ruir, pequenos casebres cobertos com chapas velhas pintam um quadro pouco colorido, sobressaindo contudo as três casas ainda ocupadas por moradores que, por intervenção própria têm conseguido manter de pé, destacando-se também as benfeitorias, como a canalização de água, adaptação de casas-de-banho, instalação da luz eléctrica e até de telefone. Continua contudo a faltar o encaminhamento das águas residuais domésticas para a rede de saneamento básico. “Vai tudo para os quintais”, revelou uma moradora.

Moradores desejam mais atenção do poder local

Imagem vazia padrão“Estas casas já têm mais de 160 anos e nunca foram arranjadas”, contou ao Correio da Beira Serra Maria Alice Ribeiro que com 62 anos habita uma das pequenas moradias que, tal como as outras, transitam de geração em geração, mediante o pagamento de uma renda anual que é extensiva a terrenos de cultivo localizados nas proximidades. Numa cadeira de rodas desde a idade dos 29 anos, Maria Alice partilha a casa com o marido Mário Fonseca Figueiredo, reformado com 67 anos, mas foi também nesse espaço que criou os dois filhos que agora já constituíram família. Agora, a habitação divide-se em dois quartos, sala, cozinha e casa-de-banho, mas a moradora lembra-se da altura em que aquilo era apenas “um barracão”. “Fomos nós que dividimos tudo e isto está como está porque o meu Mário vai arranjando”, referiu, lamentando que o problema de saúde que a afectou na juventude a tenha impossibilitado de lutar por uma vida melhor. Conta que gasta muito dinheiro na farmácia e pouco resta para as necessidades da casa. “Entra o ano e sai que eu não compro carne de vaca”, confessou, lembrando o Domingo de Ramos – que vê como um dia de festa – como o último dia em que comeu um bife. Garante não passar fome, mas também não esconde que, por vezes, tem que ficar a dever ao vendedor ambulante que por ali passa todas as terças-feiras. Por agora, a necessidade mais premente da esposa de Mário Figueiredo é mesmo uma cadeira de rodas que lhe permita sair à rua sem medo, porque – como disse – sem a ajuda de alguém que “toque” a cadeira que possui, acaba por se virar porque não se consegue equilibrar.

Tal como acontece com a septuagenária que mora mais abaixo, o casal não considera estar abandonado na Quinta da Coitena, porque também – como contou Maria Alice – nunca pediu nada a ninguém. De tempos a tempos vão recebendo uma ajuda em géneros alimentícios por parte da Segurança Social e até a cadeira de rodas com que se move em casa lhe foi doado pelos serviços de acção social. Quanto ao facto de os senhorios nunca terem feito melhorias nas casas, contam que tal significaria um acréscimo nas rendas e lembram, com amargura, o processo que mantiveram em Tribunal por os proprietários pretenderem despejar os inquilinos daquelas casas. Porque, a única certeza dos quatro moradores da Quinta da Coitena é de que, enquanto puderem, querem permanecer nas casas onde nasceram, foram criados, constituíram família e criaram os filhos. Pese embora, a resignação a que se sujeitaram os quatro moradores da Coitena, não deixam de criticar a postura dos responsáveis políticos que “nunca” por ali passam, nem sequer dão ordens para – como disse uma moradora – mudar a lâmpada do poste de iluminação pública. Já para não falar do contentor do lixo que – segundo referiu – insistem em manter do lado oposto da principal via de acesso à Bobadela, obrigando os moradores a atravessar a estrada.

“Não lhe sei dizer como está agora Oliveira do Hospital”

Imagem vazia padrãoDo referido processo judicial resultou – como contaram os moradores – a decisão de que mais ninguém pode residir naquelas habitações e que à morte do último habitante, cessa o arrendamento, passando terrenos e casas para a posse dos proprietários. Os actuais moradores ainda se lembram da altura em que as rendas eram pagas por medidas de milho, que com o passar dos anos foram convertidas em dinheiro. O valor é simbólico – uma moradora paga cerca de 60 euros por ano – mas a realidade é que actualmente, para além de Mário Figueiredo, já pouco uso dão aos terrenos porque “as forças vão faltando” e cultivam apenas o essencial para casa.

Têm perfeita consciência de que vivem num mundo “à parte”, uma realidade que facilmente constatam com um olhar sobre os prédios que sobressaem na cidade. O carteiro fica-se pela entrada da quinta, onde se encontram as respectivas caixas de correio e, por ali, só passam os carros do jovem casal de que são vizinhos. Valorizam o facto de estarem num local sossegado, onde não são habituais sinais de vandalismo e sempre vão recebendo as visitas de familiares que, de hora em quando, os levam até à cidade. Menos sorte tem Maria Alice que, por estar entregue à cadeira de rodas só vai à cidade de ambulância e quando é necessário tratar de algum assunto relacionado com a saúde. “A mim faz-me muita confusão quando saio daqui para fora. E, se me perguntar, não lhe sei dizer como está agora Oliveira do Hospital”, rematou.

Liliana Lopes

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