Enquanto passava férias na sua casa de Oliveira do Hospital, o Correio da Beira Serra entrevistou Carlos Martins, que assegura que mal recebeu o convite de Rui Costa para ingressar no Benfica, nem sequer hesitou.

“Se calhar no Sporting continuavam a ver-me como o menino de onze anos”

No dia 1 deste mês, depois de assinar um contrato válido por cinco temporadas, Carlos Martins cumpriu o ritual de erguer a águia “Vitória” em pleno estádio da Luz, como se brindasse aos deuses a honra de vestir a camisola do seu novo clube.

Depois de uma época brilhante em Espanha, ao serviço do Recreativo de Huelva, o retorno a Portugal pela “porta grande “ que o Benfica lhe abriu de par em par, permite todos os sonhos.

Foram intensos os momentos de conforto anímico nesta última semana; também aqui, em Oliveira do Hospital, rodeado pela família e amigos, recebeu inúmeras provas de simpatia.

Carlos Martins estima a “sua” cidade, o “porto de abrigo” onde recupera energias.
Agora, espera-se, será a assunção plena da sua genialidade, enquanto jogador de futebol, que fará crescer o orgulho dos oliveirenses, seus conterrâneos.

“Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida” – dirá, numa analogia ao poema do Sérgio Godinho, porque nesta terça-feira, no seu novo clube, é dada a partida para a época que se aproxima.

– “Assinei um contrato por cinco anos – diz – que espero cumprir até ao fim, o que seria bom sinal; se tal não acontecer, é porque fui para outro clube melhor, fora de Portugal. Estou feliz com a decisão que tomei, muito feliz mesmo”.

De si, já foi (quase) tudo dito, pelo menos o que é acessório à sua carreira de futebolista em Portugal e na vizinha Espanha; está por contar o essencial sobre si próprio, enquanto cidadão, e, numa projecção à distância, um dia espera “… ficar ligado ao futebol, ainda não sei como, mas gosto de sentir a adrenalina do jogo, do cheiro da relva… ainda é cedo para pensar nisso; quando chegar à idade da reforma não sei se pensarei da mesma maneira, logo se vê”.

A família é a sua prioridade, em breve será pai, haverá outras preocupações; por isso, ficar junto de quem é mais chegado nos afectos sossega-lhe o espírito. As raízes continuam na “sua” cidade, como repete várias vezes:

– “É para Oliveira do Hospital que venho sempre que posso, fico na minha casa, perto da família, sinto-me muito bem por cá. A cidade é acolhedora, as pessoas são simpáticas – é a “minha” cidade, a que mais amo”.

Não tem uma ideia precisa de, em criança, ser partidário deste ou daquele clube, “mas o meu pai diz que eu gostava do Benfica; em miúdos dizemos que somos de todos os que ganham…”.

O que se sabe, é que foi o pai, adepto do Sporting, o mentor da sua ida para Alvalade em 1993. A partir desta data, o seu percurso é sobejamente conhecido…

O coração não está pintado de “verde”, mas reconhece que a sua permanência no Sporting o marcou como homem e como jogador:

– “O meu coração é “profissional”, fui para onde me querem bem e desejam. Estou no Benfica com muito orgulho, as pessoas queriam-me lá, por isso o meu desejo é retribuir toda essa confiança que estão a depositar em mim, trabalhando o máximo”.

“Sempre acreditei no meu valor, se calhar não estava a pensar em regressar a Portugal tão cedo, mas o futebol é assim mesmo, muda-se quando menos se espera; quando recebi o convite do Rui Costa para fazer parte dos planos do Benfica para a próxima época não hesitei, e… cá estou”!

Afiança não ter havido nenhum contacto de outro clube português, de Espanha sim “… falou-se no Valência, isso foi público, e havia mais interessados nos meus serviços, mas depois do telefonema do Rui Costa, a melhor opção, para mim e para a minha família, era o Benfica”.

O campeonato da Europa de Futebol ainda está na memória dos portugueses pelo despertar de um sonho quando as ambições eram mais do que legítimas. Carlos Martins, numa primeira fase, integrou os trabalhos da selecção nacional, daí que esperasse fazer parte da convocatória final, o que não aconteceu, mas acredita que “Scolari escolheu os melhores no momento em que o fez”, por isso, só lhe resta “trabalhar para merecer a confiança do próximo seleccionador”.

– “Com que opinião ficou da nossa selecção”?
– “Gostei bastante, as coisas infelizmente não correram como desejávamos, paciência, tivemos algum azar, mas há outros jogos e outros torneios à nossa espera, e eu, como qualquer outro jogador, quero fazer parte da equipa nacional e vou trabalhar para isso”.

Porque o guarda-redes da selecção, Ricardo, foi acusado de algumas falhas que ditaram a derrota de Portugal no jogo com a Alemanha, ficou a pergunta “provocatória”:

– “Se fosse o treinador da equipa portuguesa, o Ricardo seria a sua escolha?
“Claro, porque não? O Ricardo não joga sozinho. Não podemos dizer que o Ricardo falhou e esquecer os outros, que não marcaram golos. A selecção é um todo, não foi por jogarem mal que fomos eliminados, há tantos factores a ter em conta… o futebol (também) é isso”!

Carlos Martins, nos últimos anos em que esteve no Sporting, foi perseguido por lesões que lhe criaram problemas e suscitaram alguma especulação. No Recreativo de Huelva afirmou-se por inteiro, como homem e atleta.

– “Não há segredo nenhum para a época ter corrido como correu, nunca deixei de ser o que sempre fui, não mudei nada. Em Portugal, quando se cresce numa instituição, como aconteceu comigo no Sporting, chegamos aos seniores e vêem-nos sempre como os meninos que acabaram de chegar. Se calhar continuavam a ver-me como o menino quando lá cheguei com onze anos. As coisas no Sporting não me aconteceram tão bem como queria, com regularidade, apesar de ter passado momentos inesquecíveis e realizado grandes jogos, mas continuo a ser a mesma pessoa, a pensar com a mesma cabeça; o ano passado, felizmente, foi diferente, correu tudo bem. Há momentos que não conseguimos explicar…”

… – “Refere-se à sorte”?
– “Para tudo na vida é preciso ter sorte, claro. Isso das lesões de que tanto se falou, são estórias mal contadas, mas já passou, não vale a pena estar a mexer no assunto…”.

Depois de Coimbra, ao entrar no IP3, Carlos Jorge Neto Martins começa a sentir-se “em casa”, está mais perto de Gavinhos, onde nasceu, e de Oliveira do Hospital, o seu refúgio:

“Chego aqui e tudo muda, deixo de ser o Carlos Martins e passo a ser o Jorge, “refaço-me” por completo. É aqui que busco forças para ultrapassar os maus momentos que, espero sejam poucos daqui para a frente”.

“Daqui para a frente” haverá atenções redobradas, sobretudo dos adeptos do clube da Luz.

Uma mensagem à “…nação benfiquista…”:

– “Saberei honrar a instituição Benfica. Não prometo golos, mas deixo a garantia do meu profissionalismo, como sempre fiz, e a certeza de que a minha contratação não foi em vão”.

A força dos seus remates, em tempos, justificava a hipérbole com que viu secundado o nome de baptismo: “pé canhão”!

Agora, espera-se que os dois “pés disparem tiros certeiros”!

Texto e Fotos: Carlos Alberto

 

Nota da redacção:
A realização desta entrevista foi feita com duas condições, impostas pelo jogador Carlos Martins. Em primeiro lugar, o nosso entrevistado acedeu ao convite, mas solicitou ao CBS que requeresse a devida autorização junto do Sport Lisboa e Benfica, uma diligência que este jornal fez com sucesso. Como segunda condição, Carlos Martins impôs que a sua entrevista estivesse bloqueada a comentários. O CBS aceitou as condições e esta é a razão pela qual os leitores estão impedidos de comentar a entrevista do agora jogador do Benfica.

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