Em entrevista ao Correio da Beira Serra, Maria José Freixinho não fecha a porta a uma recandidatura, mas não deixa de advertir que – conforme aconteceu consigo própria nas autárquicas de 2005 – “um candidato que não é autarca, não pode aparecer a seis meses do acto eleitoral a anunciar-se como candidato".

“Tenho 36 anos e a expectativa de contribuir directamente para o bem-estar do meu concelho”

Correio da Beira Serra – Qual é a avaliação que faz do trabalho autárquico do actual executivo?
Maria José Freixinho –
O tempo que passou equivale a metade do mandato e, de facto, nesta altura seria de esperar que a realização em termos de obra fosse superior àquela que já se concretizou. Esperava-se que surgissem obras e o concelho mudasse o seu rosto e, isso, não aconteceu. Mas, é claro que, porventura, também não havia essa expectativa, uma vez que o partido que ganhou as eleições não apresentou programa eleitoral. O que é certo e, porventura, por uma questão de estratégia eleitoral, é que se estejam a reservar os dois últimos anos de mandato –porque tem outro impacto – para a concretização de obras que possam, de alguma forma, orientar o sentido de voto para daqui a dois anos.

CBS – Partilha da opinião de alguns políticos de que o presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital (CMOH) se vai aproveitar dos cinco milhões de euros para fazer campanha eleitoral?
MJF –
É inegável que o momento em que se concretizará a disponibilidade dessas verbas de concessão gradual ao executivo em permanência para a concretização de determinados projectos vai, de facto, aproximar-se do acto eleitoral ou do finalizar deste mandato. Ainda assim, eu pessoalmente e os colegas que me acompanham no executivo camarário no papel da oposição votámos favoravelmente. E isto porquê? Porque penso que mais do que lógicas eleitoralistas, nós temos que pensar no bem-estar dos oliveirenses e, se com a contracção de um empréstimo e a disponibilização de cinco milhões de euros para o erário camarário, conseguirmos dotar Oliveira do Hospital de melhores condições para os seus cidadãos e desenvolvimento para todos nós, isso é fundamental. É isso que eu entendo como relevante, independentemente, dos dividendos políticos que isso poderá trazer para o executivo em permanência.

CBS – Considera que a contracção seria, então, mais oportuna no início do mandato?
MJF –
Se calhar teve que haver uma mudança de mentalidade. Nós sabemos que o discurso do senhor presidente da Câmara sempre foi no sentido de ter contas certas e não ter preocupações a esse nível. Sempre foi sua política, o pagar atempadamente e fazer uma gestão muito cuidadosa, mas não, com horizontes tão longínquos como nós desejávamos. Nesta altura, parece-me que houve uma mudança de mentalidade derivada da contestação que sempre lhe foi feita com esse tipo de modelo que não traz desenvolvimento. É preciso, de facto, avançar, termos objectivos mais alargados e horizontes mais ambiciosos.

CBS – O empréstimo, nesta altura, não a surpreendeu…
MJF –
Penso que era inevitável. Para orientar os quatro anos de mandato e na posição do executivo em permanência, eu certamente que teria tomado essa decisão mais cedo.

CBS – Onde é que detecta as principais falhas deste executivo? Quais as matérias que considera mais vulneráveis: educação, acção social, sector económico, cultura…?
MJF –
Nós temos um problema prévio que, antes de ser resolvido, será sempre o busílis da questão oliveirense e, que é exactamente a questão das acessibilidades. O concelho é geograficamente o último do distrito de Coimbra, mas, sob um outro ponto de vista acaba por ser um epicentro. Estamos equidistantes de Coimbra, Viseu e Guarda. Nós podemos funcionar como um centro estratégico e de desenvolvimento. É claro que não podemos viver de pretensões, temos que as concretizar. Não há dúvida de que as acessibilidades estão a cortar aquilo que falta para Oliveira do Hospital e a impossibilitar que o concelho reconquiste o protagonismo que sempre teve no distrito de Coimbra. Podemos pensar que a administração central tem competências nessa área e Oliveira do Hospital não pode resolver sozinha a questão dos Itinerários Complementares (IC) 6 e 7. É verdade. Mas, o que também é certo é que tem que haver um modelo activo que eu julgo que, muitas vezes, não tem caracterizado os executivos que têm passado por Oliveira o Hospital. Parece-me que há passividade a mais em relação à reivindicação de medidas e de investimento, nomeadamente no âmbito das acessibilidades. Temos sido demasiadamente silenciosos e expectantes e pouco pró-activos.

CBS – Deveria ter-se aproveitado a presença do secretário de Estado Adjunto das Obras Públicas e das Comunicações para, de outra forma, apelar mais à concretização deste anseio…
MJF
– Um apelo é sempre legítimo fazer. Embora, eu pense que não é em dias solenes, como o dia do feriado municipal em que temos um convidado no nosso concelho que devemos ser mais incisivos. Protocolarmente, acho que não é correcto proceder-se dessa forma. Penso é que a autarquia deve sensibilizar de forma incisiva e incansável a administração central, nomeadamente, as pessoas que compõem o gabinete do secretário das Obras Pública no sentido de a essencialidade de que é para Oliveira do Hospital e para a região a concretização de mais um troço do IC6, entre Catraia dos Poços, até Vendas de Galizes.

CBS – Já foi anunciada a sua concretização, para breve, até ao Nó de Tábua. Não está confiante?
MJF –
Eu sou uma pessoa de fé e, que acredita na boa vontade dos homens e mulheres que se dedicam à causa pública. Por isso, continuo a confiar, caso contrário, não exerceria o papel que exerço. Imagino e estou segura que o senhor engenheiro Paulo Campos está determinado em concretizar essa ambição, ainda no seu mandato, a todos os oliveirenses. Acho que lhe daria muita satisfação poder fazê-lo, não por ser da terra, mas, por fazer a justiça de dar ao concelho e à região um pouco da modernidade que a tantos concelhos e regiões do país já foi dada: criar acessibilidades que possam despoletar desenvolvimento para a população e para a região.

CBS – Detecta outras áreas onde sejam urgentes intervenções rápidas?
MJF –
Temos um projecto que se tem revelado de essencial importância, que é o facto de termos ensino superior em Oliveira do Hospital. Somos um concelho do interior, relativamente ruralizado e, portanto, é de facto interessante constatar que temos todos os níveis de ensino, desde o pré-escolar ao ensino superior. Essa é uma mais valia que não podemos descurar e, portanto, a questão da construção das futuras instalações da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Oliveira do Hospital (ESTGOH) e, do empenho que tem que haver com a concretização daquela que é também a ambição de todos os oliveirenses, é, de facto, um projecto premente.

CBS – Qual a solução que defende: construir a ESTGOH na cidade ou em Lagares da Beira?
MJF –
A solução tem que ser a construção inevitável, através da reivindicação de medidas contemplativas por parte da administração central. Sabemos que a primeira versão do PIDDAC não nos contempla a esse nível e, portanto, eu própria tive oportunidade, na última reunião camarária em que participei de propor que tomássemos uma posição, no sentido de, antes da versão final do PIDDAC, esclarecer, mais uma vez, a essencialidade das medidas que nós entendemos prementes, como seja a construção das futuras instalações. Sabemos que a construção é faseada, mas venha uma verba para que se iniciem as obras. Muito sinceramente, para a comunidade estudantil, para o corpo dirigente, professores e pessoal auxiliar, o essencial era que a obra aparecesse e fosse uma realidade. Na minha opinião, se outro destino não for dado àquelas instalações da Acibeira, o reaproveitamento do património poderia ser, de facto, uma solução. No entanto, entendo que a escola faz mais sentido na cidade. Concebo a escola e penso que a projecção para o futuro seria mais adequada se fosse concebida na cidade. A cidade tem condições para absorver a comunidade estudantil e para lhe prestar serviços mais facilmente, do que em Lagares da Beira.

CBS – Sabe que a CMOH está a envidar esforços junto do Instituto Politécnico de Coimbra para que se avance com um projecto que possa até beneficiar dos apoios do QREN…
MJF –
Estou eu e o executivo dispostos para colaborar e dar contributos no sentido da concretização desse projectos, se assim se entender que é o mais viável e, o mais facilmente realizável, num período de tempo que, nós desejamos, sempre curto. Essa é uma pretensão que o próprio presidente da Junta de Freguesia de Lagares da Beira já teve oportunidade, a nível pessoal e em intervenção na Assembleia Municipal, de dizer que há todo o acolhimento e vontade por parte da Junta de, de facto, contemplarem esse projecto e poderem colaborar no sentido da sua exequibilidade.

CBS- Foi conhecida a sua posição relativamente à versão final da Carta Educativa (CE) e a sua discordância pelo facto de no documento não estar prevista a construção de um novo edifício para acolher os alunos do 1º CEB da cidade. Esta é uma falha grave do documento, se se tiver em consideração que as benesses da União Europeia começam a ter já os seus dias contados?
MJF –
Considero a matéria importante e posso dizer-lhe que ainda recentemente, não pelas funções autárquicas que exerço, mas na condição de encarregada de educação, participei numa reunião onde tomei conhecimento de uma realidade que eu desconhecia: é que há uma turma, aqui na escola do 1º Ciclo, que está a funcionar numa sala adaptada, que tem medidas inferiores às demais salas, não tem janelas rasgadas a cerca de 90 cm e que, portanto, funciona com pouca luz natural. E, isto, numa altura em que sabemos que duas turmas do quarto ano estão já a funcionar na sede do agrupamento. Isto que eu chamei, na altura, de "efeito dominó", que era o estarmos a retirar turmas do seu espaço habitual para acolher outras, tentando evitar o desdobramento, teve os seus custos. Sabemos que a Câmara Municipal – como está previsto na Carta Educativa – tem a pretensão de criar novas salas, ampliando estas instalações, mas o que me parece é que a CE, apesar de bem elaborada tecnicamente, perdeu a oportunidade de contemplar um projecto que, estando lá, poderia ter sido candidatado. Penso que Oliveira do Hospital merecia uma escola do primeiro ciclo da cidade com outras potencialidades que não tem. Esta escola já não consegue responder à necessidade oliveirense e, eu penso, que, por isso, se exigiriam outras soluções para suprir as carências que são sentidas.

CBS – Apesar de ter sido a número três da lista com que o PS concorreu às últimas autárquicas, nota-se que no seio do executivo camarário o vereador José Francisco Rolo acaba por ser o protagonista da oposição. Há falta de trabalho de grupo entre os vereadores do PS que integram o executivo?
MJF –
O protagonismo é fácil de explicar. O doutor José Francisco Rolo (JFR) é um homem que já vai no seu segundo mandato e tem uma experiência que eu estou, agora, a iniciar. É natural que ele esteja mais familiarizado com algumas questões que já vêm sendo abordadas do mandato anterior e, fruto da sua própria formação e da área profissional em que exerce, é uma pessoa que está muito sensibilizada e é conhecedora de determinados projectos de candidatura que são objecto de intervenções repetidas nas sessões de Câmara, o que eu acho que é muito bem feito, permitindo sempre que o concelho se possa fazer valer de determinados programas em seu próprio benefício. Por outro lado o doutor JFR tem responsabilidades partidárias que eu não assumi, como seja a presidência da concelhia do PS. Isso faz com que o nível de exigência para com ele seja superior àquele que eu tenho. Ainda há uma outra questão que tem a ver com a forma como JFR faz eco das suas medidas e a postura que eu tenho que se traduz numa posição de não sentir tanta necessidade, por uma questão de formação, de personalidade, de fazer eco ou de me justificar junto dos eleitores. Se calhar está mal e as pessoas podem perguntar: então mas se faz, se diz, se propõe, porque é que não dá a conhecer? Eu não tenho a preocupação, por exemplo, de guardar as propostas para o dia das reuniões públicas de câmara, em que eu sabia que era fácil, porque temos connosco os senhores jornalistas que farão notícia daquilo que entenderem ser relevante. Não tenho essa preocupação. Quando vou para uma reunião de câmara, reúno os elementos e exponho as ideias que entendo. Isso justifica, associado a um protagonismo natural que o doutor JFR, nas suas funções partidárias tem, de ser questionado quando todas as forças políticas se têm que manifestar relativamente a algum assunto, de ser entrevistado nessa qualidade. Acaba por ser um homem muito mais alvo da curiosidade pública e, funcionará bem como uma imagem do partido socialista local.

CBS – Mas, foi eleita como a número um da lista do PS…
MJF –
E sou. E fui eleita a segunda do concelho, depois de o senhor presidente da Câmara. Tenho as minhas responsabilidades e assumo-as. Quanto à parte final da questão anterior, relativamente ao trabalho de grupo, entendo que não tem funcionado tão bem quanto possível exactamente, porque falha desde o início uma reivindicação que eu desde cedo fiz, que foi a de os três vereadores da oposição disporem de um espaço dentro do edifício camarário onde lhes fosse permitido trabalhar: analisar dossiês, preparar conjuntamente reuniões de Câmara, elaborar propostas, atender munícipes, falar com autarcas… enfim, ter um espaço para nós exercermos na plenitude as nossas funções e, que nos responsabilizasse também. Dou-lhe um exemplo muito concreto: numa das reuniões de Câmara mais recentes foi apresentado para aprovação o projecto de requalificação do jardim central da cidade e de mais artérias não contempladas na primeira intervenção feita na cidade. Como há-de imaginar o projecto implica vários dossiês e é um projecto imenso que numa sessão de Câmara é impossível avaliar. Nós não tivemos quaisquer elementos prévios para nos pronunciarmos. Fomos confrontados com o projecto, embora com uma avaliação sumária das implicações do que se pretende e o nosso sentido de voto é derivado de uma apreciação muito breve que não nos faz chegar ao fundo da questão. E depois, mais tarde, na execução da obra, se formos confrontados com um pormenor "a,b,c ou d" é natural que não o conheçamos porque não nos é possível apreender a complexidade de projectos que somos chamados a votar. Havia o hábito que era conhecido socialmente de os vereadores do PS se reunirem no café da cidade antes de se dirigirem para o edifício camarário para prepararem dentro do que lhes era possível essa sessão. Eu, desde o início, referi aos meus colegas que não o faria. Não porque não frequente esses espaços, porque os frequento ocasionalmente, mas porque entendo que não é digno das funções para que fomos eleitos recorrermos a esses espaços para o fazer. E, por isso, a reivindicação que foi feita e que não foi atendida até ao momento, a meu ver mal é reveladora do tal défice democrático que tantas vezes é apontado ao senhor presidente da Câmara. De facto é uma lacuna lamentável.

CBS – Em 2005, apareceu no PS como uma espécie de "SOS eleitoral". Estaria novamente disposta para uma recandidatura em 2009?
Imagem vazia padrãoMJF –
Nós somos, já dizia São Tomás de Aquino e Aristóteles, animais políticos e sociais e, portanto, vivemos em comunidade e, por isso, temos obrigações perante ela. Há uma doação e uma entrega. Eu tenho essa perspectiva. Sou filha de um autarca e sempre concebi a minha existência a favor dos outros, paro meu bem próprio e da comunidade onde me insiro. Tenho essa vocação. E, há dois anos, quando fui chamada a exercer um papel difícil, que era ser candidata à Câmara do concelho que eu adoptei, onde eu resido e onde trabalho, naturalmente que o fiz com grande espírito de entrega. Não há dúvida nenhuma, sobretudo quando se sabe que se exigem enormes sacrifícios pessoais e eu vivia, simultaneamente, uma situação de gravidez que desaconselha totalmente esse tipo de batalha. Foi, de facto violento, mas fi-lo por amor ao próximo, num espírito de entrega e dedicação que me é natural, porque é assim que eu sou e me apresento. É natural que nós que militamos sejamos chamados a assumir determinadas responsabilidades. Se fosse eu a escolher noutro momento, noutra oportunidade, sim. Mas, soube não virar as costas aos meus correligionários, no momento em que entenderam que eu poderia assumir esse encargo que também o foi. E, portanto, com esse espírito de solidariedade o fiz e não me arrependo absolutamente. Fui muito compensada por todos aqueles que se associaram a mim, que me acompanharam e que foram às centenas. Tivemos de facto uma equipa numerosa, 23 candidaturas como eu costumava dizer, uma em cada Assembleia de Freguesia, à Assembleia Municipal e à Câmara Municipal e, portanto, reunimos um número de pessoas de grande valor à minha volta e, isso foi, de facto, altamente compensador de todos os sacrifícios que me foram exigidos.

CBS – Voltava a fazê-lo?
MJF –
Voltaria a fazê-lo, sem dúvida. Se entendesse que estaria a ser útil ao concelho, antes de mais, e que poderia ser, dentro do partido, apontada como a solução para servir o concelho.

CBS – Se isso se verificasse em 2009, estaria disponível para uma recandidatura?
MJF –
Isso eu não posso adiantar, ultrapassando estruturas que têm responsabilidades e indicam os candidatos.

CBS – E perante um cenário de ser convidada pela estrutura local?
MJF –
Entendo que não devo fazer esse tipo de ensaio. A estrutura tem que se pronunciar no momento próprio e a pessoa que for visada terá também de avaliar a sua vida pessoal e profissional e manifestar se tem ou não disponibilidade para avançar.

CBS – Mas também não descarta essa possibilidade?
MJF –
Não posso. Na política não se pode dizer nunca. Isto é um chavão, mas é mesmo assim. Se lhe disser hoje que não, posso vir a arrepender-me da resposta que lhe estou a dar, porque poderá ser precipitada. Eu tenho 36 anos, enfim, tenho a expectativa de poder vir a viver anos suficientes e, quem sabe, a contribuir directamente para o bem-estar do meu concelho, que é isso que me move.

CBS – O que é que acha que correu mal nas autárquicas de 2005, já que apenas obteve 4.614 votos? Contava com este resultado?
MJF –
… e penso que os 4.614 votos não são assim tão poucos e a análise é fácil de se fazer. Um candidato que não é autarca, que era o meu caso, não pode aparecer a seis meses do acto eleitoral a anunciar-se como candidato. Não pode! Os partidos sabem que têm que trabalhar mais cedo e preparar os seus candidatos de maneira a permitir estabelecer-se um trabalho de campo que permita que o candidato seja conhecido, esclareça a população acerca dos seus propósitos e dos seus projectos. E o que nós temos é um candidato que é anunciado em Abril e vai começar um trabalho de campo já não com o sentido de esclarecer as populações, mas antes de mais, de preparar as 23 candidaturas. Isso leva o seu tempo! Estávamos, em Agosto, a entregar listas. De Agosto até Outubro é que se dá, propriamente o período de dedicação à causa eleitoral, onde tentámos esclarecer a população e percorrer o concelho. Parece-me demasiado curto o período em que tivemos oportunidade de nos apresentar.

CBS – Temia, à partida, por este resultado?
MJF –
Tinha consciência. Não vou dizer que não. É claro que tudo é possível. Tínhamos que apostar na vitória e eu sempre o fiz, convicta de que as coisas poderiam ter acontecido. Agora, naturalmente, que sou inexperiente nas lides autárquicas. Assumi-o na altura e fui convidada por uma estrutura que o sabia e nunca escondi isso de ninguém. Não tenho vergonha de o assumir. Mas, o que é certo é que não sou ingénua. E, o facto de eu ter avançado só faz com que a minha entrega, a minha doação tenha sido mais valiosa do que aquilo que se possa pensar. Porque, de facto, foi uma candidatura consciente das dificuldades que, num período tão curto, seriam dificilmente transponíveis. Aparecemos atrás da linha de partida. Mas, foi legítimo que nos tivéssemos apresentado. Fizemos um trabalho interessante. Conquistámos três lugares na vereação, mantendo o equilíbrio de forças já existente, mantivemos três juntas de freguesia, embora, tenhamos perdido uma. Conquistámos São Paio de Gramaços, mantivemos o mesmo número de deputados na Assembleia Municipal e, portanto, o resultado, sob o ponto de vista daquilo que foram os números de mandatos que conquistámos, não foi seguramente inferior àquela primeira sensação que as pessoas poderiam ter ao ler os números dos 4.614. O que interessa é o número de mandatos e, o resultado foi no sentido da manutenção. Para uma candidatura que arrancou a seis meses do acto eleitoral – não é que eu esteja satisfeita e que não achasse que deveríamos ter ido mais além –, muito sinceramente, não posso deixar de me congratular com esse resultado. Nunca me envergonhei dele. Quando muitas vezes se compara a minha candidatura com a do professor César Oliveira, que pela primeira vez deu a vitória ao PS em Oliveira do Hospital, não nos podemos esquecer que para além do desgaste próprio dos sucessivos mandatos do PSD, tivemos o CDS que elegeu um vereador e dividiu fortemente a direita, contrariamente ao que sucedeu em 2005 em que não chegou a ter 500 votos, quando em 1989 obteve cerca de 2000. Isso fez muita diferença e neste último acto eleitoral, a esquerda estava altamente dividida.

CBS – Como é que avalia o actual momento do PS local? Acha que o PS está a trabalhar o suficiente para que se possa constituir como alternativa ao PSD nas autárquicas de 2009?
MJF –
Sem dúvida. Penso que sim. E porquê? Devido ao trabalho que os vereadores estão a fazer ao nível do executivo camarário. Somospessoas empenhadas que comparecemos às reuniões com um nível de absentismo muito baixo, que apresentamos propostas, damos contributos para as Grandes Opções do Plano, que avaliamos com profundidade e seriedade a prestação de contas e, o nível de exequibilidade das obras calendarizadas no ano anterior. Enfim, somos pessoas atentas, altamente interessadas no bom desempenho, no sucesso do executivo em permanência, enquanto, órgão responsável pelo presente e o futuro de Oliveira do Hospital. Sinceramente, não tenho a perspectiva de que não apoio medidas quando as entendo boas só porque não sou eu que as estou a implementar. Eu tenho que olhar à óptica do cidadão. Não me move qualquer disputa partidária ou eleitoralista, no sentido de, em consciência, deixar de apoiar medidas que eu entendo oportunas e importantes para o concelho. Por outro lado, temos na Assembleia Municipal, onde se percebe pelo período que demonstra interesse para o público e para os senhores jornalistas que, alguns até saem antes do período da ordem do dia, deputados interventivos que questionam o senhor presidente da Câmara, enquanto responsável máximo pelo órgão executivo concelhio sobre as várias questões, apontam caminhos e exercem a sua actividade fiscalizadora com um nível bastante razoável. Ao nível autárquico mais próximo do cidadão, temos para além das três Juntas de Freguesia, temos inúmeros cidadãos, mais anónimos, menos conhecidos, mas que estão a exercer as suas funções de elementos das assembleias de freguesia, onde com muita dedicação, empenho e entrega estão a fazer o trabalho para o qual foram mandatados, que é fiscalizar a acção das JF dando contributos e sugestões, chamando a atenção, fazendo reparos, apresentando propostas. Temos uma equipa que, desde há dois anos, está no terreno. E temos inúmeras pessoas ligadas ao PS, por afinidades ideológicas que, vão também contribuindo para que a imagem do PS seja de um partido que está atento, activo, no terreno e, que existe e se manifesta todos os dias. "No PSD o debate é ao nível pessoal".

CBS – Qual a consideração que faz sobre a oposição que o próprio PSD tem vindo a fazer ao executivo em permanência?
MJF –
Muito sinceramente, tenho alguma dificuldade em classificar o que se passa porque não me parece que seja propriamente uma oposição ao executivo camarário. O que nós temos assistido, têm sido tão só disputas pessoais entre o senhor presidente da Câmara e o seu ex-chefe de gabinete, António Duarte e, um ex-vereador, José Carlos Mendes que, ao nível do que tem sido tornado público, tem ficado mais ao nível da disputa pessoal, do que, propriamente das ideias. Não me parece que a actual Comissão Política do PSD, ao nível das ideias e do confronto das mesmas, esteja a acompanhar e a fazer uma análise crítica, pelo menos pública, daquilo que tem vindo a ser o desempenho do actual executivo em permanência. O professor José Carlos Mendes tem sido muito importunado sobre quando é que retira a confiança política ao presidente da Câmara e ao executivo em permanência… ele nunca o faz. E, nunca o faz, exactamente porque o debate que tem havido se estabelece ao nível pessoal e não ao nível das ideias.

CBS – Estava à espera do acordo que os três acabaram por estabelecer?
MJF –
Acho que o bom senso imperou de parte a parte. Havia processos recíprocos. Um dos objectivos da justiça é permitir que haja paz social e, para que seja alcançada, tantas vezes o mais importante é que sejam estabelecidos acordos, que as pessoas não esperem que seja proferida a sentença. Penso que tratando-se de pessoas públicas e conhecidas, o melhor foi o consenso. Acho que se deve exercer a política com elevação e quando assim não é, é mau.

CBS – Quais acha que são as principais diferenças entre a ex-liderança de Francisco Garcia e a forma como José Francisco Rolo conduz os destinos do partido?
MJF –
O doutor José Francisco Rolo é uma pessoa mais aberta e que abriu o partido à comunidade. Tem uma metodologia diferente de ser e de estar do projecto para o PS e veio contrastar com algum marasmo, algum comodismo que os sucessivos mandatos do seu antecessor acabaram por dar a transparecer, em virtude de não haver essa renovação. O doutor JFR é uma oportunidade para o PS renovar a sua imagem, quer enquanto rosto do partido em Oliveira do Hospital, quer da equipa que o acompanhará. Sabemos que JFR se faz acompanhar de elementos que, anteriormente, não compunham a Comissão Política local e, que são pessoas de elevado valor. E, para além da estrutura, também conversa e troca ideias com elementos que são quadros do nosso concelho que, julgo que sendo simpatizantes do PS, estarão sempre dispostos a acompanhar o PS em futuras eleições autárquicas.

CBS – Acredita no possível aparecimento de uma lista de independentes à CMOH nas próximas eleições autárquicas?
MJF – Em Oliveira do Hospital, as bandeiras continuam muito enraizadas. A mudança de mentalidades para as candidaturas de cidadãos, acho que é uma solução que vai conquistando lugar na realidade democrática portuguesa, paulatinamente. Já aconteceu anteriormente, noutros concelhos. Temos presidentes de junta eleitos de forma independente. Não lhe sei responder quando é que essa realidade chegará a Oliveira do Hospital. Tem-se falado muito das diferenças que afastam o presidente da Câmara e a actual estrutura do PSD e, até já se aventou que o senhor presidente da Câmara, mesmo que não venha a ter o apoio da estrutura local, poderá avançar com uma candidatura independente. Se, a esse nível se fará, eu imagino que também se poderá vir a verificar ao nível das juntas de freguesia. Nós sabemos que os políticos têm um papel muito difícil. Primeiro porque são alvo da crítica, de forma até cruel, por parte dos cidadãos. E, depois, porque a causa pública é muito exigente a nível pessoal e profissional. É um papel exigente e que não é facilmente apreciado pelos cidadãos. Somos alvo da crítica e, talvez, os cidadãos despidos de qualquer conotação partidária, podem-se sentir mais à vontade para exercerem funções, candidatando-se numa lista de independente. Se calhar, vão-se sentir mais autênticos e menos pressionados por essa crítica que se faz sentir contra os candidatos e as pessoas que exercem funções autárquicas.

CBS – Na última reunião do executivo, o presidente da CMOH mostrou-se preocupado com as propostas de preços da água que anunciam subidas consideráveis quer nas tarifas de água, quer ao nível das taxas de saneamento básico. Que apreciação faz desta situação?
MJF –
Esta é uma preocupação que eu já ouvia ao presidente da Câmara, antes de ele exercer este mandato. E isto tem tudo a ver com a associação que fizemos ao Sistema Multimunicipal das Águas do Zêzere e Côa. Naturalmente, estamos a criar uma rede de água que nos vais permitir o fornecimento em qualidade e quantidade e, vai ser um serviço mais caro. Tenho consciência desse problema. Penso que tem que haver uma progressão e estabelecer níveis desejados e elegíveis sob o ponto de vista do lucro que se tem que ter com este tipo de investimentos. Tem que haver uma actualização gradual do tarifário. Não podemos sujeitar as populações a um esforço exagerado, ao ponto de não se poderem manter com um serviço de primeira necessidade. A Câmara tem uma política social e, nesta matéria, terá que demonstrar mais uma vez que é capaz de atender a estas circunstâncias e fazer política social.

CBS – Não acha que depois das notícias que vieram a público sobre o seu colega de vereação – Albano Ribeiro de Almeida – a propósito do arrendamento de um imóvel onde existem suspeitas da prática de prostituição, já deveria ter aparecido uma reacção pública do próprio? O que é que acha deste caso, em que o próprio vereador do PS reconhece que o seu estatuto "não lhe pode permitir isso", mas em que tudo continua na mesma?
Imagem vazia padrãoMJF –
O senhor coronel Albano Ribeiro de Almeida é uma pessoa muito bem formada e por quem tenho uma enorme estima pessoal. Não o conhecia muito bem mas acabei por conhecê-lo no período pré-eleitoral. É uma pessoa que eu admiro bastante e, de facto, tem-me surpreendido pela vitalidade que, aos 76 anos, demonstra. Não só pelas inúmeras actividades que exerce mas até pelo facto de se ter acabado de licenciar em História, por estar inscrito numa pós-graduação. É uma pessoa que vive muito intensamente, com uma capacidade de inovar, numa fase da sua vida em que nós poderíamos pressupor que já seria de abrandamento, mas não é. É de facto uma figura deslumbrante. Como homem de bons princípios, tenho consciência de que se essa situação que reporta se verifica e se se vier mesmo a confirmar, o senhor coronel com todas as medidas jurídicas cautelosas que terá que adoptar, porá fim logo que lhe seja juridicamente possível. Sei que é uma pessoa cautelosa e que não actua emocionalmente. E sei que, porventura, aquilo que possa ser entendido da parte dele como uma demora, é senão cautela, para dar os passos certos, tomar as decisões certas, actuar como deve ser, de maneira a eliminar o problema se o houver de uma vez por todas, sem que possa haver prejuízo maior do que aquele que podemos todos imaginar. Muito sinceramente, parece-me que para além de nunca ter desejado este resultado, de acordo com o que já pude conversar com ele e pelos esclarecimentos que foram prestados ao Correio da Beira Serra, é uma pessoa que não arrendou para aquele fim e, neste momento, não só é uma vítima como está em condições de pedir uma indemnização pelo facto de estar ser a dado um fim diferente e ilícito do que o inicialmente contratado e, por o seu imóvel, ficar associado, de uma forma terrível, a uma actividade deprimente que possa estar ali a ser exercida.

CBS – Considera, então, que não tardará uma posição pública …
MJF –
Imagino que não. Mas, esta é uma matéria muito delicada e tem que se ter muito cuidado. Julgo que só a cautela justificará aquilo que possa ser apelidado de silêncio, porque são necessárias medidas eficientes para pôr termo ao que alegadamente lá se passará.

CBS – Concorda com a legalização da prostituição, nos moldes em que tem vindo a ser discutida por alguns partidos políticos, incluindo o próprio PS?
MJF –
Eu considero-me uma pessoa moderada e em que os valores da família pesam bastante. Tenho formação católica e muita dificuldade em lidar com determindas matérias que são discutidas hoje de forma aberta e fácil. São matérias que a serem tratadas, têm de o ser com muita cautela e, não podemos ignorar a realidade, mas não devemos ser demasiado permissivos só porque as coisas existem. Se existem e estão mal têm que ser combatidas. Em várias situações, por vezes até contra o meu próprio partido – e ainda recentemente relativamente à interrupção voluntária da gravidez – me manifesto contra. Continuo a ter o mesmo tipo de pensamento e, no âmbito deste tipo de situações, também tenho muita dificuldade em contribuir para situações que a mim ainda me chocam sob o ponto de vista de legalizar e envolver o jurídico em áreas e franjas que estão à margem daquilo que é social e que revelam um mundo muito complicado e que prejudica altamente a família, que tem sido prejudicada nos últimos anos por falta de medidas contemplativas. Gostaria muito mais de ver os partidos políticos discutirem medidas de apoio à família, em vez de porventura estarem a discutir este tipo de matérias.

CBS – Que avaliação faz do governo de José Sócrates?
MJF –
Finalmente, para aqueles que tantas vezes acusaram o engenheiro José Sócrates de dialogar muito e fazer pouco, é um governo que actua, que toma medidas e tem a coragem de o fazer. Penso que é um governo a quem se aplica bem o meu slogan de campanha "Coragem para mudar". A realidade do país e o facto de termos compromissos com a Europa, faz com que tenhamos várias exigências e, o engenheiro Sócrates tem sabido assumi-las claramente. Ainda que isso lhe tenha trazido algumas animosidades. Parece-me que tem uma vontade de ferro e é capaz de vir a proporcionar mais tarde uma situação mais desafogada, mais confortável que nos possa trazer melhores dias. Não estamos a viver uma realidade fácil e, por isso, o engenheiro Sócrates tem a minha admiração, o meu respeito, porque tem sabido não vacilar e tem tido um comportamento irrepreensível, porque sabe quais são os seus objectivos e não é capaz de se sentir menos determinado a apontá-los, só porque essas medidas poder-lhe-ão ser apontadas como impopulares e prejudicais para o PS. O engenheiro Sócrates está a saber acompanhar a evolução dos tempos e a ser um homem muito valente, capaz de assumir de frente os desafios de Portugal.

Liliana Lopes

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