Quadrado Inverso: Abstração. Autor: Rui Campos

Hoje vamos falar pela primeira vez de correntes artísticas. Porém, deixem-me antes fazer uma ressalva. É sempre redutor procurar explicar uma corrente artística num artigo com meia dúzia de parágrafos.

Procurando simplificar, diria que uma corrente artística é uma forma de expressão que advém da evolução da própria humanidade. E caracterizar uma corrente artística é algo que não se consegue fazer num pequeno texto. Ainda assim, eu costumo dizer para mim que muitas vezes só preciso que me digam que a Luz está naquela direção e eu lá a encontrarei. Quando apresentar aos senhores leitores artigos deste género, espero que entendam sempre que o intuito é este. Para aqueles que estiverem dispostos a ir à procura de mais informação, estes textos são sempre um bom ponto de partida. Para os que não têm interesse em aprofundar estes conhecimentos, estes textos servem perfeitamente para se ficar com uma ideia.

fox talbot  Hoje vamos falar de algo que a mim também me fez confusão desde muito cedo. Sempre que observava fotografias abstratas elas pareciam-me obras de loucos, dificilmente compreensíveis. Aquilo jamais poderia ser considerado Arte. E tudo isto porque estamos habituados a que a fotografia tenha uma função representativa e nada mais. Quando fazemos fotografia esperamos que ela faça referência a um qualquer elemento que existe no Mundo Real.

1- Natureza Morta realizada por Fox

Talbot na década de 30 do séc. XIX.

Mecânicamente, a fotografia representa o Mundo Real e palpável. Mas não obrigatoriamente. Sem nos darmos conta, sabemos que uma fotografia que observamos diz respeito a algo que existe no lado de cá, e por isso tentamos repudiar outras abordagens, apenas porque não conseguimos conceber que se pode recorrer à fotografia para representar elementos não palpáveis, como sentimentos, ou radiações. Não está escrito em lado nenhum que eu não posso ir por esse caminho na fotografia. E também nunca ninguém nos explicou que podemos perfeitamente usar uma câmera fotográfica para sair dos cânones.

Thomas Eakins Esta função representativa da fotografia serviu desde sempre diversos usos documentais. Quer fosse para catalogar objetos numa qualquer estação meteorológica, quer fosse para registar os movimentos de operários numa fábrica a fim de optimizar os meios de produção, a fotografia, praticamente desde o seu surgimento, serviu inúmeros propósitos documentais e científicos. Porém uma abordagem mais abstracta sempre foi menos visível e por isso mesmo mal entendida.

2- Estudos sobre o Movimento, elaborados por

Thomas Eakins. Primeira metado do Séc. XIX.

Posto isto vamos deixar aqui uma convenção: Uma fotografia será sempre uma imagem representativa de algo. O fótógrafo pode, porém recorrer a meios diversos com a finalidade de levar o observador a não entender ou até esquecer o referente da fotografia. O referente, em fotografia é aquilo que a imagem representa.

Étienne-Jules MareyA fotografia é de difícil interpretação. Roland Barthes disse uma vez que uma fotografia é uma mensagem sem código, porque está sujeita a interpretações múltiplas. Pensemos na poesia, por exemplo: Um poema pode entregar mensagens diferentes e transmitir emoções diferentes a leitores diferentes. A fotografia também pode ser interpretada de formas diferentes e até pela mesma pessoa,

3- Cronofotografia” de Étienne-Jules Marey. Década de 80 do Séc. XIX

dependendo do seu Estado de Espírito.  Pois bem… a definição técnica da fotografia – uma impressão por via da luz numa superfície foto sensível – não é incompatível com o facto da fotografia ser passível de interpretações subjetivas.

Até ao início do Século XX a fotografia encaixava-se numa escola artística Italiana designada de Verismo. O Verismo, muito basicamente reivindica o direito à representação da realidade integral, nua, crua e impoluta.

220px-012_Bankside-Malcolm_Arbuthnot (1)No final do Século XIX e início do Século XX surgiu uma corrente artística designada de Modernismo. A História da fotografia converge nesta fase com a História do Modernismo. Esta corrente basicamente advogava que as formas e estilos representativos clássicos estavam ultrapassados. Ora a fotografia, uma forma mecânica de proceder a representações do Mundo Real e recorrendo a um processo químico “complexo” parecia ser uma forma de representação privilegiada para a corrente modernista. A agravar este facto devia-se a questões de liberdade e

4- Malcolm Arbuthnot: Vista de Londres

com o Tamisa e a Catedral de St Pauls ao fundo.

autonomia por parte do fotógrafo que foram permitidas pela tecnologia. As câmeras tornavam-se cada vez mais compactas e fáceis de transportar e as emulsões mais rápidas, permitindo assim fotografar sem o uso de acessórios de estabilidade.

Wasily Kandinsky apresentou as primeiras pinturas abstratas no final da primeira década do século XX. Nesta época (quase que em simultâneo) a comunidade fotográfica começou a apresentar trabalhos semelhantes.

Mas é preciso retroceder aproximadamente 8 décadas em relação a Kandinsky para ir à génese do abstraccionismo na fotografia.

Coburn Fox Talbot realizou estudos e trabalhos, fotografando Naturezas Mortas (imagem 1). Thomas Eakins também recorreu à fotografia a fim de realizar estudos acerca do movimento (imagem 2). Étienne-Jules Marey, designou as suas fotografias de “Cronofotografia”, ja na década de 80 do século XIX (imagem 3). Apesar de estas imagens servirem propósitos técnicos ou

5- The Octopus, de Alvin Langdon Coburn  

de Luz e sombra.

científicos (ou ambos), em detrimento dos propósitos estéticos, podem ser definidas como abstratas.

Em 1908, na Grã Bretanha, Malcolm Arbuthnot realizou The Doorstep, a Study in Lines and Masses, e The Weel. Estes ensaios eram sobretudo processos indicativos da Modernidade. Eram principalmente cenas de cidades. Arbuthnot demonstra nesses trabalhos um interesse pela composição, pela estrutura e pelas distribuições

Imagem4Alvin Langdon Coburn produziu imediatamente a seguir a Arbuthnot a série New York From Its Pinnacles. Desta série saiu a fotografia The Octopus (imagem 5). Esta fotografia é particularmente importante. O plano picado da captura achatou a perspetiva de um jardim e gerou um padrão bidimensional.

Depois de Arbuthnot, em meados da década de 1910, surgiram trabalhos deliberadamente abstratos, como Porch Shadows e The Bowls, de Paul Strand. Nestes ensaios, o artista trabalhava essencialmente com massas, formas, enquadramentos fechados e composições cuidadosas.

6 – Francis Bruguiére, Light Abstractions – 1919.

Paul Strand cruzou-se com o poeta Ezra Pound e com o seu Movimento Vorticista, movimento inspirado nas complexidades da industrialização e da urbanidade. Paul Strand inspirou-se para realizar (algures entre 1916 e 1917) a sua série Vortographs (imagem 8). Estes trabalhos revelaram o seu interesse pela difração cubista do espaço e pela obsessão do futurismo italiano pelo dinamismo e pelo movimento.

A tendência na direção da abstração ilustra aquilo que se seguiu e permaneceu durante todo o Século XX. A coexistência de duas visões paralelas entre os fotógrafos modernistas americanos e europeus:

A Straight Potography (corrente americana) procurou alcançar uma realidade objetiva construída com objetos do quotidiano que em situações normais escapavam à atenção do olhar humano (imagem 9).

Imagem5As imagens resultantes exploravam o formalismo puro de padrões achatados e bidimensionais e Geometrias. Nesta corrente não havia lugar a manipulação de imagens e a ênfase era unicamente fotográfica e conseguida por técnicas e processos fotográficos, como, por exemplo o enquadramento, a focagem, a escala ou o ponto de vista. Nesta corrente importa conhecer os

7- Arturo e Antonin Bragaglia recorreram ao Movimento

e à imprecisão como base para os seus estudos de abstração.

trabalhos de artistas como Charles Sheeler, Alfred Stieglitz, e o trabalho mais tardio (décadas de 30 e 40 do século XX) de Aaron Siskind.  Na Europa também havia fotógrafos que advogavam a Straight Photography, materializada pela “New Vision” (Neue Sehen) na Alemanha e na Rússia e cujos representantes mais proeminentes foram Moholy-Nagy (From the Radio Tower, Berlim, 1928) ou Alexander Rodschenko (On The Pavement, 1928).

paul strandA corrente Europeia era mais radical em termos experimentais e estéticos. Esta corrente considerava a fotografia como um meio de expressão ideal para construir e criar novos códigos visuais. Recorrendo a práticas diversas, tais como o fotograma, a manipulação da luz, o movimento ou a química, estes fotografos chegaram a um conjunto de características que ficaram associadas à abstração modernista. Porque o fotograma era produzido sem o recurso à câmera. O artista podia criar imagens a partir de

8- “Vortagraph” de Alvin Lagdon Coburn,

conseguida por via do arranjo de três espelhos. 1917

sombras e de silhuetas de objetos que eram colocados entre a fonte de luz e papel foto sensível e com isto ultrapassavam o aparato mecânico e técnico a favor da imaginação e até do surrealismo. Esta corrente esteve na origem de numerosas manipulações abstratas, o fotograma transformou-se numa das técnicas mais usadas e duradouras do século XX.

Importa observar o trabalho de alguns autores desta corrente, tais como Christian Schad (1918), Man Ray (1921), Moholy-Nagy (1922). Na imagem nº 10 podemos ver um exemplo desta abordagem, por Man Ray.

Os processos relacionados com o fotograma permitiram a exploração da natureza da fotografia, pela exploração do papel, da textura, dos padrões, das transparências e da sheeler dualidade das relações positivo-negativo. Permitiu muitas possibilidades, tais como experiências com a desmaterialização, a interpretação das formas, a distorção, a falta de perspectiva.

O uso da luz permanece um princípio fundamental nas práticas abstratas. Para além da função de simplesmente revelar e fazer visível, mas também para ser explorada como um material real.

9- Catedral de Chartres, De Charles Sheeler.  Representativa da corrente abstracionista americana.

Neste capítulo devemos assinalar vários ensaios, tais como as imagens de superfícies e volumes iluminados, de Francis Bruguiére (Light Abstractions – 1919) e  as abstrações de luz de Jaromir Funke (Rectangles – 1920).

Barbara Morgan recorreu a um feixe luminoso que usava tanto fixo como em movimento a fim de produzir Caligraphic Expression. Mais recentemente, em França, Thomas Reaume (anos 80) e Bernard Lanteri (anos 90) conseguiram formas luminosas e fluídas que desafiam a natureza estática da Imagem Fotográfica.

man rayO movimento e a imprecisão representam outro aspeto da abstração em fotografia. Esta tendência é ilustrada no trabalho dos futuristas italianos

10- Rayograph, de Man Ray, 1922.

Arturo e Antonin Bragaglia. No fotodinamismo de Fedele Azari e Filippo Masoero e no Quineticismo dos alemães Oskar Schlemmer, Peter Keetman e Otto Steinert nas décadas de 40 e 50.

Em termos gerais estes trabalhos encaixam-se numa estética de velocidade e movimento que estão ligados às expressões dos artistas avant-garde daquela época. Porém, é apenas na década de 50 que a estética do movimento e da imprecisão e com qualidade aleatória peculiar na fotografia encontraram espaço para expressão.

Aparentemente o trabalho de William Klein foi uma importante referência para outros mais contemporâneos como Gerard Dalla-Santa, Frederic Gallier, Herve Rabot, Patrick Toth e Müller-Pohle, os quais durante a década de 80 encararam o movimento não apenas como uma transcrição do dinamismo brutal do mundo urbano, mas também como uma mina de forma pura, revelando as qualidades visuais e tácteis da fotografia (por exemplo, o grão).

Por fim, um grupo de fotógrafos optou por abandonar o aspeto ótico da fotografia e dedicou-se à exploração dos aspetos fisico-químicos desta. Basearam-se em experiências com a camera escura e menos em imagens, estes fotógrafos exploraram as qualidades abstratas que eram possíveis por via da quimica. Estamos a falar de Edmund Kesting e Chargesheimer (nos anos 40); Stryj Piasecki ou Pierre Cordier na década de 50; Sigmar Polke durante os anos 70. Riwan Tromeur durante a década de 1980 produziram um vocabulário formal peculiar, alterando o próprio processo químico fotográfico.

Nota:

Alguns Parágrafos de este arquivo têm por base um texto de Anne Barthelemy, o qual foi traduzido por mim e adaptado ao propósito deste artigo.

Autor:5 Rui Campos

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