Quadrado Inverso: As falácias. Autor: Rui Campos.

Um raciocínio errado que aparenta ser verdadeiro designa-se de Falácia.

Na sua grande maioria, os indivíduos do sexo masculino que pretendem aprender fotografia não o fazem porque esta é uma disciplina das Artes Visuais e procuram nela uma forma de expressão para o Mundo. Fazem-no apenas por questões técnicas e dentro deste capítulo, relacionados com o equipamento.

Os indivíduos do sexo masculino parecem fascinados pela aparente complexidade dos equipamentos, e não apenas os fotográficos. Os equipamentos aparentemente mais complexos são caros. O preço dos equipamentos, associado à sua aparente complexidade e o preço e a complexidade associados ao seu uso leva os homens a achar que de alguma forma aparentam ser mais inteligentes ou mais sofisticados e, de alguma forma mais bem aceites na sociedade.

E este é o móbil número um. Não para a aprendizagem da fotografia, mas sim para a aquisição de equipamento fotográfico. Aprender fotografia? Não. Ser socialmente aceite ou aparentar ser mais inteligente, sensível e rico? Sim.

Até porque a aprendizagem da fotografia como disciplina das Artes Visuais dá trabalho e leva tempo. As pessoas em geral têm interiorizado que aprender música e tocar um instrumento musical no Conservatório leva tempo e requer trabalho. E é necessário recorrer ao Conservatório, porque aí estão os bons Mestres. Porém, de alguma forma, as pessoas em geral acham que basta comprar a camera fotográfica (de preferência cara) e já se faz boa fotografia.


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Resumindo, para que fique claro: quando os nossos filhos entram no conservatório nós vamos perguntar ao professor que instrumento devemos comprar. Quando eu apanho um formando de fotografia (lembro que me estou a referir aos indivíduos do sexo masculino), este invariavelmente vem dizer “tenho esta camera, e acho que é boa”. Mas apenas é boa porque é de uma marca conhecida (e que existe para ganhar dinheiro, porque o negócio dos fabricantes é vender equipamentos fotográficos), ou porque um amigo que é fotógrafo disse para a comprar porque é boa (e mandou comprar aquela porque o dinheiro nem sequer é dele).

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Mais tarde este formando vai perceber duas coisas: gastou dinheiro (muitas vezes proibitivo) a comprar algo que, afinal não é assim tão bom, ou não lhe serve tão bem. Percebe também que ser fotógrafo não é sinónimo de ser bom ou deter conhecimento.

A mim, pessoalmente incomoda-me e deixa-me triste esta forma superficial com que se encara a fotografia nos nossos dias. E ando há muitos anos a lutar para a valorização da fotografia como forma de expressão artística.

Acontece que as instituições são preenchidas por pessoas e as pessoas, como referi, menosprezam a fotografia e isto gera um binómio: a aprendizagem da fotografia é menosprezada e isto gera um grande número de pseudo-profissionais. Um piloto não é piloto apenas porque tem um carro de corridas. Por outro lado, as pessoas que representam instituições que consomem fotografia, na sua maioria não são capazes de distinguir o trigo do joio e invariavelmente fazem a aquisição dos serviços fotográficos mais baratos.

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Hoje menospreza-se esta forma de expressão, a única que contribuiu de forma activa, formal e indubitável para as grandes mudanças socias e políticas no Mundo. Hoje em dia, os indivíduos do sexo masculino, pelas questões que referi anteriormente, na sua maioria são possuidores de câmeras fotográficas e “tirar ali umas fotos para pôr no facebook da minha loja” parece coisa simples e que qualquer um pode fazer. E pode, a verdade é que pode… Mas faz bem? A verdade é que não.

Por outro lado, os que adquirem equipamentos fotográficos sofisticados e, depois de ler os seus manuais de instruções de ponta a ponta, os exibem orgulhosamente em público julgam-se imediatamente capazes de surpreender um David Lachapelle apenas porque aprenderam o que fazem alguns daqueles botões que as suas câmeras possuem, muitos desses botões qualquer fotógrafo que se digne muito raramente usa.

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Já as senhoras admiram as boas fotografias que os bons fotógrafos apresentam. E a motivação para se iniciarem nesta disciplina é fazer fotografias como aquelas que vêm deste ou aquele fotógrafo. Mais tarde, quando começam a fazer perguntas, a investigar e a querer aprender percebem que atingir aquela qualidade nos trabalhos leva anos.

Um fotógrafo que conheça a responsabilidade de ostentar esse nome sabe perfeitamente que trabalhar fotografia exige 90% de transpiração e 10% de inspiração. Alguém que deseje aprender a tirar fotografias não precisa de adquirir equipamento profissional ou semi-profissional para o fazer.

Alguém que pertença ao exclusivo grupo daqueles que querem aprender fotografia mentalize-se de que o caminho é longo, não tem atalhos, fotografar e editar são coisas diferentes e que, tal como na música, aprender fotografia exige muito treino, dedicação e sofrimento.

Uso frequentemente a expressão “Fazer omeletes sem ovos” quando me dirijo aos meus formandos de fotografia. Porque o quando entram numa sala de formação querem fazer “esta fotografia” ou “aquela outra”, ou saber “como se consegue fazer aquele efeito” (normalmente referindo-se a técnicas específicas). Pois… é tudo o que querem… Fazer igual. Não querem aprender a disciplina, a forma de expressão que os pode diferenciar, os princípios básicos que a regem ou conhecer os Mestres que ousaram (sempre conhecedores profundos da disciplina) trilhar novos caminhos (também sempre detentores de uma identidade e linguagem próprias).

Investir em fotografia é caro. Sempre foi caro e esta coisa da democratização da fotografia é muito bonita, mas como argumento de venda. Quando se quer chegar a este ou àquele efeito ou técnica normalmente é preciso gastar dinheiro. Quando alguém não sabe, pergunta e quando pergunta, quem responde não pensa na resposta que vai dar porque o dinheiro não é dele.

Em fotografia depois acontece um fenómeno engraçado. Toda a gente pergunta “compro esta objectiva que custa 150 euros, ou compro aquela que custa 1800?” Normalmente acabam por comprar primeiro a barata e depois a cara. Raramente aparece a pergunta “compro ou não”. Na grande maior parte dos caos, a minha resposta é quase invariável: “não compres, primeiro aprende e quando souberes o que comprar sem ter de pedir conselho a ninguém, sabes que adquiriste o conhecimento necessário para fazer uma compra consciente”.

Isto porque tendemos a invejar aquilo que os bons fazem com aquela objectiva que faz uma distância focal que a nossa não faz. Mas não reparamos no excelente trabalho que esse mesmo fotógrafo faz com aquela objectiva que tem com a mesma distância focal da nossa. É consumismo, mais nada.

Quem quer aprender a tirar fotografias, a usar a câmera cara que adquiriu, pode até chegar a fazer algumas coisas engraçadas. Quem quer aprender fotografia entra numa busca que o leva, invariavelmente a uma paixão profunda e a uma necessidade constante de procurar no Mundo real pequenos apontamentos que leva os seus observadores ao sonho.

Autor: Rui Campos

Rui Campos

 

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  • Guerra Junqueiro

    O que dizer? Mais um texto de Mestre.
    Também do género masculino, era normal ouvir-se que “o hábito faz o Monge”, pelos vistos não se passa o mesmos com a fotografia, quem quiser aprender a fazer um trabalho próprio e bom, tem muito que suar.
    Obrigado por mais esta aula.

    Cumprimentos
    Guerra Junqueiro

  • João de Lagares

    Muito bom o artigo, infelizmente reflete o que se passa na sociedade portuguesa.

  • Sr. Viegas

    Muita qualidade no artigo e na arte da fotografia. Infelizmente, a sociedade contemporânea acredita que o material de “qualidade” substitui o esforço. Tanto o é na sociedade que o vírus já se alastrou aqui pelos senhores do executivo! Aqui é 90% de telemóveis topo de gama para colocar fotos no facebook e 10% de vaidade, inspiração e suor que são bons é para outros!